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Luciana Herrero foi uma das palestrantes do curso da Anep Brasil, que forma educadoras pré-natais. Ela formou-se como pediatra, mas hoje atua como consultora pós-parto na cidade de Ribeirão Preto. Uma das razões pelas quais Luciana foi conversar conosco é pelo seu conhecimento adquirido na UC Davis, que pesquisa sobre o comportamento dos bebês. Ela antecipa algumas dicas no site da Aninhare, em breve deve lançar um livro, mas já partilho contigo certos "segredos" que podem transformar sua vida de puérpera. Tratam-se dos sinais que os bebês nos dão desde o dia do nascimento, que se forem ouvidos podem virar o americanizado "bebenês".

Primeira dica de Luciana é libertarmos dos nossos paradigmas. Ou melhor, dos nossos mitos-de-cada-dia. O principal deles: bebês não criam vícios nem manhas. Forget, please, da vó ou a vizinha bem-intencionada que martela na sua cabeça que o bebê vai ficar mal acostumado. Neurocientistas já provaram que essa ladainha é falsa. Hello, virou ciência, logo, tornou-se verdade válida. Mas, porquê insisto tanto na frase dita por Luciana? Simples: dá-lhe aconchego, sling e colo!

Bebê precisa de vínculo, cheiro, corpo. E, detalhe, Luciana reforça que o primeiro trimestre é uma continuação da gestação. Portanto, tudo que lembrar útero precisa ser dado ao seu bebê. Repito: colo, corpo, cheiro, peito, aconchego, silêncio, pouco som, mãe, mãe, mãe e mãe. Entende, agora, o porquê não usar carrinho no primeiro trimestre do seu filho? Ele precisa do seu cheiro, do seu corpo, do seu ninho, de você. Nada de carregar cachorro no colo e seu filho no carro, please!
Mas, o que isso tem a ver com os sinais?

Bebê no colo da mãe, sentindo cheiro da mãe, acalentado pela mãe tem boa parte da sua necessidade suprida. Logo, menor probabilidade de dar o sinal mais comum dos bebês: chorar. Bebê chora e ponto final.  Mas, hello, bebê não chora só por dor, fome, fralda molhada, frio ou calor. Bebê chora por falta de atenção, carinho, desespero, abandono e até pelo choro. É importante ressaltar que o choro é a última instância dos sinais do bebê. Ou seja, quando o bebê chora, ele já passou por todos os outros sinais e você não percebeu...Óbvio, ninguém nos ensinou isso antes!

O segredo dos sinais estão na expressão facial: olhos, boca e respiração. Quando um bebê te olha, respiração leve e ainda leva o corpo a você, ele está dizendo sim. Mas quando ele desvia o olhar, apresenta uma respiração irregular, fecha os olhinhos, o sinal é de NÃO. Luciana ensina que os sinais de SIM são uma grande oportunidade para interagir com nossos bebês. É a hora ideal para o estímulo - leia-se carinho, massagem, conexão, atenção! Mas, precisamos ficar atentos aos olhares desviados, principalmente, quem dá mamadeira, pois o bebê que não mama no peito não tem condições de controlar o CHEGA! Desviou o olhar pode ser barriga cheia: fique atento!

É lógico que aprender os sinais não é tão simplista como escrevi no paragrafo acima, mas é um caminho para você buscar mais informação sobre esses segredos e, principalmente, para você entender que seu bebê   tem condições de falar contigo. Ou melhor, seu bebê precisa dessa conexão para viver melhor. Luciana diz que os olhos do bebê são as janelas da alma. Olhe fundo para eles e fique atento aos detalhes. Vale ressaltar que cada bebê tem seu temperamento e perfil. Tem  aqueles que fazem todos os sinais do mundo antes de chorar como tem aqueles que num piscar de olhos abre o berreiro. Você vai saber qual é o tipo do seu bebê e poderá encontrar o caminho para facilitar a vida dele, e a sua.

Luciana ensina que não basta só a atenção nos sinais. Uma boa conversa com bebê exige feedback e paciência. Bebê chorou, respira, conte até três ou reze uma ave-maria, faça o checklist das demandas e dê o feedback ao seu bebê conforme aquilo que está faltando. Lembre-se de colocar na lista as emoções, o ambiente, pessoas, seus pensamentos e, atenção, sua história. Eleanor Luzes ensina que nossos filhos materializa no corpo os nossos conflitos psíquicos, mas isso é para outro post: diga Sim ao seu bebê!

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A respostas é: depende.

Há algum tempo escuto esse debate entre produtos orgânicos e não orgânicos e, confesso, dá mesmo pra confundir, principalmente porque o “orgânico” virou uma marca que tem como objetivo faturar em nome da alimentação saudável e nutritiva. E as pessoas se deixam levar pelo rótulo do orgânico… o que não é uma boa idéia. Chips, bolinho cheio de açúcar e aditivo e presunto vermelhinho, por mais que orgânico, não é sinônimo de saudável. 

Sem generalizar, mas as pessoas realmente pensam que por comerem “ o orgânico” são mais saudáveis. Não são. Tudo sempre vai depender das escolhas, daquilo que você coloca diariamente na sua boca. Não adianta se encher de chips e bolinhos orgânicos para emagrecer e ficar mais saudável, porque um produto orgânico pode conter sim açúcar, gordura e aditivos como, por exemplo, um colorante para dar aparência mais saudável ao presunto.

Outro fato é que nem sempre o orgânico é mais seguro que o não orgânico. Ou já se esqueceram da fazenda alemã orgânica cujos produtos contaminados por e-coli mataram 37 pessoas na Europa?!  Enquanto não conheciam a causa, a notícia ganhou força e chegaram, inclusive, a atacar produtores espanhóis… mas quando a verdade veio à tona, calaram-se, inclusive a mídia… Seria para proteger esse mercado que, hoje, fatura milhões?

Eu não sou contra o orgânico, pelo contrário, sou daquelas ratas de supermercado que gastam horas olhando rótulos para saber da procedência do produto. Já morei no México e, conhecendo os problemas sanitários e a escassez de água na região, não penso duas vezes entre escolher uma abobrinha orgânica do México e uma não orgânica de uma fazenda local da Bélgica ou dos Estados Unidos.  Apesar dos produtos orgânicos serem livres de pesticidas e hormônios sintéticos, isso não significa que são livres de outras bactérias como e-coli.

Acho que o bom senso é essencial nesse caso: um produto orgânico, velhinho e murcho, embalado em saco plástico na mesma seção que produtos não orgânicos não têm tanto valor na minha opinião. Prefiro comprar um não orgânico de uma fazenda perto de casa. Também é importante enfatizar que natural não é sinônimo de orgânico, é apenas uma  palavra adicionada para vender mais…

O negócio é ler o rótulo, saber de onde vem e o que contém além de ser orgânico. O leite é um grande exemplo. Em casa, os meninos não tomam leite comum e, especialmente o Arthur, com lactose. A palavra chave é “sintético”, não contém hormônios sintéticos… isso não significa que não contém hormônios. É bem por ai… 

Acho que esse papo merece, sim, uma troca de experiências… contem aqui no comentários o que acham dos produtos orgânicos e qual a preferência de vocês na hora de fazer compras. Preferem o orgânico ou não, porque?

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Eu tive duas experiências com as festas de um ano. Ambas foram feitas na pequena cidade onde eu nasci, no interior de Minas Gerais, mas nem isso pode ser considerado um critério comum entre os eventos, pois até as cidades mudam, e muito.

No primeiro ano da Malu, resolvi fazer uma homenagem a minha avó paterna que já beirava o centenário, escolhi o tema da Chapeuzinho Vermelho, convidei a família inteira ( leia-se quase 100 pessoas, ou mais), fiz um vídeo com as imagens de todos os familiares contando a estória da vovozinha e essa celebração começou às 18h00 na casa da minha avó materna. Ou seja, famílias + famílias + famílias. Super emocionante, mas imaginem o barulho!

Na segunda festa, eu empurrei com a barriga até o dia em que encontrei com outros bebês na família e decidi que a celebração do primeiro ano da Clarissa seria em São Tomás de Aquino. Não queria tema, refrigerante nem o pacote tradicional. Convidei as mães dos bebês da família, os meus tios e as famílias dos nossos pais. Muito menos da metade da primeira festa e, detalhe, às 14h00. Um detalhe revolucionário já que não era hora de almoço nem da janta, mas a hora em que a Clarissa estava acordada e alimentada. O barulho foi menor, mas a festa não seguiu a duração tradicional. Foi quase um monta-desmonta. Restou a pergunta: nossa, porquê tão rápido?

A resposta só veio neste fim de semana, enquanto eu ouvia Eleanor Luzes, no curso da ANEP: bebês não gostam nem precisam de festas! Eles não estão prontos para essa atividade, que muitas vezes representa uma tortura para seus ouvidos, olhos e corpos. Ficam muito cansados, mesmo em festinhas de família.

Eleanor recomenda aos pais, que realmente estão dispostos a celebrar o primeiro ano de vida dos seus bebês a se recolherem com a nova família para um lugar próximo da natureza em que possam refletir sobre a intensidade daquele ano. Ah, detalhe, a viagem tem um propósito: contação de estórias. SIM, a ideia é que os pais pegam o filho no colo e contem a ele a estória do seu nascimento, das mudanças de vida que eles tiveram em função daquela chegada. É a partir desse clima que a grande celebração acontece, pois segredos de pais podem se revelar um ao outro.

Eu achei o conselho de Eleanor bárbaro porque é exatamente isso que quero fazer de agora em diante. NÃO, não tenho nem quero um terceiro filho. É que a recomendação de não fazer festas de Eleanor é válida até aos três anos - período da primeira infância em que a criança ainda está muito vulnerável ao meio ambiente e precisa investir suas energias na sua formação.

Minhas experiências deixam claro que por mais boa intenção que eu tivesse em celebrar o primeiro ano das minhas filhas, eu não estava dedicando 100% de atenção ao que elas precisavam, mas ao meu exagerado ego. Não me arrependo de nada e, ufa, desta vez, a culpa nem passou perto. É tão claro, pra mim, que eu jamais entenderia esse conselho senão tivesse conhecido o erro. Não tivesse visto minha primogênita cansada na festa do primeiro ano e com vômito na do segundo. No terceiro ano, ela curtiu, mas é bom reforçar que ela tinha muito tempo de berçário como experiência de vida. Eleanor alerta que a festa do terceiro ano é válida se o bebê pedir já que, nesta fase, ele fala, e muito.

Você vai encontrar muitos links com dicas de festas de primeiro ano, falando do horário ideal, do cardápio, da decoração, da quantidade de convidados. Duvido que algum deles irá lhe recomendar uma fazenda distante do barulho, sem promotores nem todo conforto de um resort, mas um lugar aconchegante que dá pra pisar na terra mesmo sem querer, que tenha cantinho para todos ficarem juntos, que dá pra se agasalhar juntando um corpo ao outro. E que a única coisa que você tem de fazer é olhar no olho do seu companheiro, relembrar o que passaram juntos e contar esse tempo ao seu bebê e aos irmãos mais velhos. É, por isso, que resolvi partilhar contigo esse conselho tão precioso. Aniversário de bebê precisa de contação de estórias feita pelos pais, sem público nem teatro!

Já no quarto ano vale aquela festinha com comida natureba, sem refrigerante, sem megaprodução, com uma contadora de estória, brinquedo de verdade, muita criança, brigadeiro e bolo de chocolate porque ninguém é de ferro, né!?

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Vale repetir a mensagem do título: não quero ser uma boa mãe para minhas filhas e, muito menos, a melhor mãe do mundo! Eu demorei demais para descobrir essa negação, mas agora não a largo por nada nesta vida. Você já parou pra pensar o que é ser a boa mãe? Já percebeu o quanto ela gosta de expressar as palavras apenas ou , tipo: quero ser apenas uma boa mãe! Outra expressão típica da boa mãe é a conjugação do verbo no futuro do pretérito: só queria, deveria, poderia. É um futuro que tá no passado.

A boa-mãe é aquela que deseja fazer de tudo pelos filhos, principalmente, aquilo que não está ao seu alcance. Já descobriu quem é que domina a boa-mãe, né? É isso mesmo. Você entendeu certo. A boa-mãe é o lugar perfeito para a dona vítima entrar, sentar e comandar toda e qualquer situação. E haja atenção para sair dessa dinâmica e esforço para abrir os olhos. A boa-mãe nos cega, pois está espalhada por todo canto nos refletindo cheia de culpa e condenação.

Isso! Você entendeu de novo: a boa mãe nos enrola com os julgamentos. Nunca me senti tão amarrada em toda minha vida como fiquei com a maternidade. O que não faltam são posts e imagens para comprovar essa sensação.

Me sinto livre agora, mas ainda cheia de medos. Medo de que a boa mãe me invada no próximo choro que eu encontrar no meio do caminho. Um caco de vidro espetado pelo outro. Ou pelas demandas infantis do dia a dia. Portas são o que não faltam para a boa-mãe ativar a força da vítima. Mas eu tô aqui, firme e forte, desabafando mais esse mito materno pra nunca mais receber nenhum cartão midiático com essas mensagens bonitinhas que nos aprisionam. E, você, ainda luta pra ser uma boa mãe para seus filhos?


Eu não sei se é possível ler meu desabafo sem levá-lo para a mesa do juri ou caracterizá-lo entre bom ou ruim, mas é isso que eu lhe peço. Saia de trás da nossa cortina de espetáculo e ouça-me como alguém que busca a si mesmo. O que eu lhe proponho é ouvir minha dor sem sentimentalismo nem piedade, apenas a receba como mais uma experiência de vida. Então, lá vou eu tentar abrir meus ouvidos cegos e fechar meus olhos julgadores.

Vale registrar meu desejo antes de mergulhar na minha última experiência de parto. Muito antes da concepção da Malu, sonhava em ver, sentir e pegar meu bebê saindo de dentro de mim. O que eu vivi foi diferente do sonho. Foi uma cesárea e um fórceps! Diferente não é melhor nem pior, mas desconhecido. E, portanto, questionador. Por isso, eu ainda me ocupo com os porquês. Quero conhecê-los, tomar posse deles e torná-los meus.

Dinheiro, grita meus ouvidos. Eu não fui digna do parto que sonhei porque investi muita energia e tempo em dinheiro. Passei mais da metade da gestação preocupada em encontrar uma equipe viável para eu parir do jeito que eu queria. Demorei muito para aceitar o sistema de saúde que temos. Tanto tempo dedicado a isso que o máximo que eu consegui aceitar foi a guerra. Não aceitei as alternativas.

Eu tive um parto digno de uma guerreira, com muita luta, muita estratégia, muito trabalho, muita rede de apoio. Não fui digna de parir em casa. Hoje, quando olho pra trás, vejo o quanto parir em casa era mais simples e mais justo financeiramente. Na época, no entanto, eu olhava mais pra fora do que pra dentro. Via muito mais o dinheiro envolvido, a revolta pessoal e o idealismo que o meu parto, meu corpo e minha escolha. Via muito mais o julgamento que se fazia às mulheres que pariam em casa do que a alternativa. [Vale registrar o paradoxo: o valor que se atribui a quem pari em casa, quando se está dentro do gueto, é de guerreira e eu não queria ser uma guerreira, eu queria só parir...]

Confiança, ouço ainda longe. Eu não fui digna do parto que sonhei porque não confiava de que era digna desse sonho. Não tive coragem de visualizá-lo, de aceitá-lo e muito menos de me conectar com mundo espiritual que se ressaltava em minha volta. Não sabia falar com Clarissa e me recriminava muito. Até hoje ainda é mais fácil projetar essa desconfiança que assumi-la. Passei boa parte da gestação investindo energia para entender a diferença entre uma equipe intervencionista e a equipe humanizada. Não fui digna de confiar em mim mesma e, até hoje, luto contra essa verdade, tentando justificá-la ou negá-la.

Eu tive um parto digno de quem ainda não consegue se ouvir bem quando a confiança vem à tona. Sei que há projeções envolvidas, mas os espelhos andam sujos em minha volta... Também sinto o quanto esse valor está relacionado ao meu caminho espiritual, o qual já reconheço como uma necessidade, mas ainda não tenho disciplina suficiente para tratá-lo como tal.

Há ainda muitos porquês a serem paridos, mas meus ouvidos ainda não ultrapassam o silêncio.

Quando eu pensei em escrever este desabafo, eu cheguei a consultar uma amiga pra ter certeza de que eu não estava me expondo demais, colocando o umbigo pra fora sem fundamento ou apenas jogando meus fantasmas na rede. Mas ela respondeu que quando a gente diz o porquê não, a gente descobre o porquê sim. Isso me fez pensar o quanto o meu desabafo pode nos ajudar a transformar aquilo de que somos dignos. E, aí, topa responder o porquê você não foi digna do parto que sempre sonhou?

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Você já teve a sensação de "eu sabia que ia ser diferente, mas não tãooooooo diferente"? O que você fez com essa sensação? Esperou passar o primeiro ano inteiro pra ver o que viria no segundo? Ou teve coragem de botar pra fora essa percepção?
Eu resolvi ficar quietinha com meu estranhamento, mas graças ao meu coração (que ainda funciona), eu consegui abrir um tiquinho dele na reunião particular com a professora de classe. Nada que interferisse nas barreiras que eu precisava enfrentar comigo mesma, mas um tiquinho suficiente pra esperar chegar o terceiro ano waldorf. Agora, que já provoquei grandes avalanches com a minha filha dentro de casa e o terceiro ano chegou, posso desabafar como mãe-aprendiz que busca entender o que é esse diferente?
Pra falar disso, eu conversei com a Maruca, coordenadora pedagógica da escola da minha filha, que (pra variar) me acolheu ao trazer minha experiência como uma prática comum entre os pais da escola. Ei, então, você também se assusta com  o jeito "tãooooooo" diferente que sua filha aprende a ler e escrever? Quer saber da boa notícia? A escola está preparada para ouvir seu estranhamento e lhe dar informações sobre esse jeito de aprender. E mais: não precisa ter vergonha porque acha sua pergunta boba demais. A maioria de nós é bobo igual a você.

Aliás, aprendi com Maruca que esse estranhamento faz parte daquilo que ela chama de autoeducação ( escrevi sobre isso no post em que desabafo sobre nosso papel de #mães waldorf). Pra mim, vivenciá-lo me levou à minha infância, pois a alfabetização da minha filha foi diferente daquela que eu tive quando era criança. Eu não sei como é a alfabetização das outras metodologias, mas posso lhe garantir que a diferença que eu senti está relacionada com a minha história. Não, com outras escolas. Entender isso muda muito o jeito que a gente se relaciona com nossos filhos e com os filhos dos outros. E o melhor: ajuda a gente a lidar com os anseios do restante da família (leia-se avós).

Mas, nós sabemos que o mundo waldorf tem suas particularidades que vão além desse encontro entre a família e o social. Quais são elas?
Maruca trouxe várias respostas durante nossa conversa, mas a que mais me tocou foi entender que a alfabetização waldorf percebe os recursos da aprendizagem como obras de arte. Tudo tem contexto!
Não basta colocar o M do lado da figura da maça. Aquela maça tem de ter uma história que fala com coração da criança. Essa beleza de ensinar obras de arte a crianças durante o processo alfabético, fonético e ortográfico leva tempo. E aí surge, talvez, o maior estranhamento de todos os adultos que vivem no ritmo maluco do "tempo é dinheiro", demora dias, semanas, meses, anos. A pedagogia waldorf respeita o tempo da criança. Que tempo é esse?

Entender esse tempo nos leva para um campo difícil de trocar ideias porque traz a diversidade das experiências pessoais com a espiritualidade, a religiosidade e com toda a nebulosidade que nossa cultura trata esse tema. Maruca explica que: "a grosso modo, a criança antes dos sete anos está concentrando energias para o físico e a pedagogia respeita esse tempo em não inserir nada que roube essa energia para atividades intelectuais". Falamos muito do que representa inserir letras antes do primeiro setênio. Afinal, essa é uma das práticas que nos tira daquilo que se tornou comum na maioria das famílias. Aprendi que há dois caminhos arriscados nesta seara: aquele que leva muito a sério o que os livros dizem sobre não desviar a energia para formação física e transforma a alfabetização antes dos sete anos em dogma e aquele que ignora completamente a importância de respeitar o tempo do desenvolvimento infantil para inserir atividades intelectuais.

"É difícil você não brincar com as letras",, responde Maruca diante da minha pergunta sobre a prática comum de mães justificarem que o filho só está brincando com as letras antes dos sete anos de idade e, portanto, por ser brincadeira não provoca maleficio a criança. Maruca acrescenta: "Não consigo imaginar que essa brincadeira não vá formar palavras e, portanto, chegar num conceito, numa abstração".

A conversa com a Maruca, enfim, me fez cair a ficha de algo muito óbvio: a alfabetização é um processo que tem como resultado o conceito das palavras, a abstração intelectual, portanto, diferente da energia voltada à imaginação e à fantasia. Prova disso é que Maruca ressalta que nada melhor que preparar uma criança para alfabetização que a literatura infantil: "investir tempo na contação de estórias é muito importante para trazer sentido ao sistema alfabético". E Maruca sabe do que está falando porque ela reconhece o quanto nossa literatura infantil é uma grande obra de arte. Eu sei que não é nada fácil ter acesso a esse tesouro sem pesquisa nem curiosidade, mas basta pouco pra gente descobrir uma infinidade de contos que falam conosco e nos ajudam a falar com nossos filhos. Pra quem ainda não abriu essa chave, eu recomendo conhecer Regina Machado.

Maruca ainda falou sobre a diferença entre o sistema ortográfico e o alfabético, esclarecendo assim minhas dúvidas sobre os erros ortográficos que ficam estampados nos cadernos dos nossos filhos. Entendi que cada momento de aprendizagem é único. Ou seja, primeiro vem o contato com as letras, depois a escrita, o fonema e só depois a criança começa a dar conta da ortografia. Tudo isso é considerado no mundo waldorf de acordo com tempo da criança, ela não precisa dar conta de tudo em 24 meses. Há um processo de aprendizagem, cujo tempo de avaliação é muito maior no mundo waldorf que em outras metodologias.

Vale lembrar que, geralmente, este tempo é o que nos causa estranhamento e encantamento. Eu escolhi a waldorf porque ouvi dizer que ela respeitava o tempo da criança, mas eu não conhecia esse tempo humano. Não sabia que para respeitar uma alma infantil, é bom não provocar rupturas desnecessárias, pois a própria vida já tem suas rupturas. E, você, o que vem aprendendo como #mãe-waldorf?

PS: Pra quem gosta de tabela, a Lu Ivanike publicou quadrinho que aponta algumas das particularidades da alfabetização waldorf, veja aqui!


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A entrevista com a escritora e colunista americana Tracy Beckerman é um déjà vu total... e digo mais, me fez sentir a rainha dos clichês.

No livro Lost in Suburbia, a escritora conta como foi deixar Nova York e um trabalho promissor para morar nos subúrbios e ser mãe em tempo integral. Pergunta aqui e acolá, lá vai ela falar das roupas bonitas que deixou de usar, da vida social que não existe mais... e blá, blá, blá.

Na hora, consegui me reconhecer nas falas da escritora. Ela parecia estar descrevendo a minha vida... um clichê, porque 9 entre 10 mulheres que pararam de trabalhar para se dedicar à maternidade dizem sentir saudades da época que se vestiam bem, usavam salto alto etc, quando na realidade o que realmente faz falta é a independência financeira e o reconhecimento.

Parece que é errado a gente reconhecer que GOSTA DE SER MÃE EM TEMPO INTEGRAL. Eu mesmo tenho dificuldades e, vez ou outra, faço questão de lembrar fulano e fulana que ANTES eu ganhava dinheiro, que ANTES eu era GENTE???!!??

Sim, parece que ser mãe é como deixar de ser mulher, de ser o que você sempre foi... parece que nos transformamos nesse ser que usa roupas folgadas, tênis e tem macarrão no cabelo! Chegamos até a sentir vergonha de falar que somos mãe em tempo integral.

Pois é, eu sou um clichê. E é tão difícil ser diferente... tão difícil que chegamos a  sentir culpa ( e até vergonha) de dizer que adoramos ser apenas (???) mães. Você também já se sentiu assim??

Quando eu deixei de trabalhar, decidi conscientemente que queria ficar em casa para cuidar dos meus filhos. Primeiro, porque não confiava (e ainda não confio) em ninguém para cuidar deles; segundo, porque a opção de ficar em casa era viável financeiramente. E, também, porque eu AMO cuidar deles... preparar uma ótima refeição, brincar, ensinar  e por ai vai.

Mas depois... com os anos passando, a culpa e a vergonha foram aumentando, a sensação de ser SÓ MÃE passou a incomodar.E ser só mãe, acreditem, é um trabalho e tanto. E por mais que a gente saiba disso, continuamos nos importando com o que os outros pensam (e na realidade ninguém tá nem ai para o que você faz ou deixou de fazer). Dai o clichê.... "deixei um trabalho maravilhoso para cuidar dos meus filhos", como se quiséssemos reforçar que por trás dessa mãe também existe um ser pensante!

Eu sou mãe em tempo integral e, às vezes, é tão cansativo que não consigo sentir prazer ou ver sentido no que faço. E isso é normal. Quando trabalhava, senti a mesma coisa diversas vezes. E isso se chama: rotina. Entender isso é, sem exageros, libertador.

Mas, vez ou outra, ainda deixo esse sentimento movido pelo tédio, mesmice e inferioridade me dominar e me fazer pensar que ser só mãe não é suficiente, quando na realidade é o que até agora fez mais sentido na minha vida.

Como você lida com isso? 

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