Eu já passei por várias etapas desde que me tornei uma mãe que trabalha em casa. Todas muito intensas. Parte dessa intensidade, com certeza, carregava também a minha infantilidade, que precisava ser amadurecida. Mas o fato é que hoje reconheço que HOME-OFFICE DE MÃE é uma escolha extremamente contrária ao que foi determinado para nós. E quando digo "foi determinado" incluo neste sujeito não só os outros, mas principalmente NÓS mesmas. Fomos criadas para trabalhar fora de casa. Dentro de casa quem trabalha é a dona, e não nos cabe ser dona. No mínimo, queremos ser múltiplas!
Dito isto, reforço "home-office de mãe" é uma luta. Praticá-lo representa uma conquista. Mas, atenção, conquistas não são tranquilas. Elas retratam a expressão de "matar um leão por dia". Não se trata do leão que virou senso comum e tornou-se símbolo do automatismo profissional. O leão, que a mãe do home-office precisa matar por dia, está dentro de casa. Aquele leão do senso comum está fora. Então, a guerra é múltipla. Consiste em matar o leão fora e dentro de casa.
Eu pratico essa matança desde 2005. Já passei por vários tipos de derrotas. Vivi guerras que passaram ser minhas como a invisibilidade da dona de casa, a desvalorização do trabalho feminino e a terceirização da maternidade. Isso me deu um novo olhar. Pela janela de casa.
Olho para fora e só vejo mentiras: flexibilidade do trabalho com as novas tecnologias e igualdade entre sexos. É impressionante como nós, mulheres, nos deixamos enganar pela vaidade profissional. Todas acreditam na bandeira da vitória, que trazem os slogans "o mundo é das mulheres" ou "somos comandados por elas"...Pra mim, essa bandeira tornou-se o símbolo mais forte da nossa alienação. Vejo a tal "vitória do sexo" como a maior subordinação da história das mulheres na humanidade. Pura caverna de Platão!
Esse olhar é o principal leão que você precisa enfrentar para tornar-se uma mãe home-office: como lidar com a vaidade profissional feminina? Não tem fórmula mágica. Cada uma vai enfrentar seu bicho. O meu envolvia uma ilusão, cujo reverso da moeda trazia a inferioridade e a superioridade. Foi nessa etapa em que eu cheguei a acreditar na lógica do ou você é bom ou é ruim, e por isso, julguei que mãe de verdade era aquela que optava pelo home-office. Foi uma das minhas piores derrotas. Com esse julgamento tive que encarar o abandono das nossas crianças.
Trabalhar dentro de casa não lhe garante ficar fora do fenômeno da terceirização. Ouso dizer que nem o fato de você assumir o dona-de-casa lhe dá essa garantia. É lógico que significa um passo. Eu não acredito na balela de que a qualidade substitui a quantidade. NÃO! Quem trabalha fora de casa abandona filho sim, mas quem trabalha dentro de casa também comete o abandono. Não é só o tempo disponível (quantidade de horas) que precisa-se para assumir a maternidade dentro de casa, mas também a presença (qualidade de atenção). Vale ressaltar que quando assumo isso não acho que exista um caminho profissional tranquilo para mães. Todas nós quando assumimos o dever de trazer o material para dentro de casa nos colocamos num ambiente de guerra. Escrevo sobre a guerra que eu escolhi para minha família, mas sei que você vive a sua. A diferença é que você pode estar tão dentro da batalha e não percebê-la. É exatamente neste quesito onde mora o perigo: achar que mãe trabalhando é coisa tranquila. Não é nem deve ser!
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16 comentários:
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"Olho para fora e só vejo mentiras: flexibilidade do trabalho com as novas tecnologias e igualdade entre sexos. É impressionante como nós, mulheres, nos deixamos enganar pela vaidade profissional. Todas acreditam na bandeira da vitória, que trazem os slogans "o mundo é das mulheres" ou "somos comandados por elas".."
Ceila, eu tb penso assim. Quando estava para voltar ao trabalho, após a licença maternidade eu tento desabafar com minha mãe sobre a minha dificuldade de deixar meus filhos e ela me larga "que é isso filha, vc não pode ser assim limitada, nós mulheres conseguimos conciliar muito bem trablaho e família, os homens é que não conseguem". Quis morrer, lógico! Lavagem cerebral total! Mas essa é a maneira de pensar (ou achar que pensa, pois é uma imagem feminina comumente vendida por aí) de muitas mulheres. É um assunto que me toca muito, faz parte das minhas discussões, pensamentos, etc.
"Trabalhar dentro de casa não lhe garante ficar fora do fenômeno da terceirização. Ouso dizer que nem o fato de você assumir o dona-de-casa lhe dá essa garantia. É lógico que significa um passo. Eu não acredito na balela de que a qualidade substitui a quantidade. NÃO! Quem trabalha fora de casa abandona filho sim, mas quem trabalha dentro de casa também comete o abandono."
Ceila, aqui pode parecer que eu esteja advogando em causa própria, já que trabalho fora, mas eu, realmente, não acredito que ABANDONO meus filhos quando saio para trabalhar, assim como meu marido também não. Por que a palavra abandono dos filhos vem sempre junto com a mulher que trabalha? Ninguém diz que o pai abandona quando sai para trabalhar, certo? Eu acho que abandono é muito mais que sair para trabalhar e ouso dizer que filhos de mães que ficam em casa o dia todo sofrem tanto abandono quanto os filhos de quem trabalha fora. Senão mais. Meu marido não me deixa mentir. Não estou dizendo que as mães não sejam mais necessárias no início, poderia dizer no primeiro ano pp, mas o pai é co-responsável. Licenças maiores para eles quebrariam um galhão danado! Proteger a infância e a maternidade não pode significar deixar a descoberto o sustento das mulheres, que elas fiquem sob a tutela dos maridos em seu sustento, dependendo de outro para suas necessidades mais básicas!
"É exatamente neste quesito onde mora o perigo: achar que mãe trabalhando é coisa tranquila. Não é nem deve ser!"
Eu acho que mãe trabalhando deveria ser tranquilo sim, numa sociedade mais evoluída, onde se garantisse o tempo em casa e o laboral para homens e mulheres, ou seja, numa sociedade mais igualitária, com a real valorização da infância. Estamos longe, muito longe disso, e creio mesmo que não será cada mãe lutando sua batalha que mudaremos isso.
Beijão!
Nine
Oi Ceila, td bem? Estou aqui imaginando sua angústia. Já passei por isso tb! Mas fiquei pensando, por que para a mãe trabalhar não é e nem pode ser tranquilo? Acho que me parece que aí há uma idealização irreal do papel de mãe, implícita. Será que vc não está se exigindo demais? Ou então, não está imaginando que suas filhas dependem de vc mais do que de fato precisam? Quero dizer que nem sempre deixá-las a cargo de outra pessoa significa abandono. Ou seria abandono porque, na verdade, não temos pessoas de confiança com quem deixar, ou por que o pp pai e companheiro não compartilha da dedicação temporal necessária? Acho que as mulheres conquistaram grandes vitórias sim, e espaco no mercado de trabalho é uma delas. Mas o mercado, especialmente no Brasil, está predatório. Come nosso tempo, nossa energia. E não só a das mães, mas de quase todos os trabalhadores. O problema não é a mãe trabalhar, é ter condições muito adversas para conciliar trabalho e maternidade. As coisas deveriam se complementar para a nossa realização pessoal, mas muitas vezes elas entram em choque. E certos ideiais de maternidade provocam choques ainda mais difíceis de encarar... Assim como o faz a vaidade profissional excessiva. Beijo e paz!
Ceila, realmente home office da mãe não é fácil. Hoje eu tenho home office, mas também já estive trabalhando fora. E não tem como dizer que eu estava abandonando meu filho pois, ainda que eu sofresse por não passar mais tempo com ele, estava garantindo seu sustento do jeito que eu sabia na época. Hoje vejo que pode ser diferente, mas cada um tem sua jornada. É difícil cuidar da casa, dos filhos e trabalhar...em um país que a ajuda do governo é NADA para as mães solteiras, por exemplo. Por isso tem um caminho de consciência para chegar lá, que é o que estou trilhando. Boa sorte pra você e beijos.
Nine, que delícia de comentário: obrigada!
Você trouxe algo que vai contra o mantra atual publicado aos milhares de canto de que cada eu muda o mundo...acho que a frase é de gandhi.
E UFA!!! enfim um ponto contraditório como solução pelo menos para essa luta que envolve a maternidade!!! Porque, cá entre nós, acho que essa é uma guerra que exige SIM política de Estado, mas hoje não é nem percebida por quem a vive justamente em função dessa alienação de que trabalhar como mãe "DEVE" ser tranquilo.
Concordo plenamente com o que vc traz, essa relação pode até ser equilibrada hoje, mas torná-la equilibrada é uma guerra individual. Não tenho dúvida disso. E, talvez, no futuro isso não seja tão exigido de nós humanos...Enfim, valeu muito sua colaboração!
Oi Carol, please, tira essa imagem de angústia da sua imaginação porque eu não a sinto. Talvez, no passado, bem lá trás, esse sentimento teria sentido. Mas agora não.
Eu tenho muita consciência do que vivo e não vejo angústia no fato de encarar a maternidade e a profissão como um conflito. E não se trata de idealização. Pelo contrário. O ideal é justamente aceitar que ser mãe e trabalhar é uma situação tranquila. Eu não busco essa tranquilidade, eu a vivo como um conflito.
Não tenho dúvida de que minhas filhas dependem muito de mim. Mas o fato delas dependerem de mim não significa que não possam ficar com outras pessoas. Não é isso que vivencio nem coloco em questão. O que trago da minha vivência é que a presença e a quantidade de horas diárias são dois critérios independentes e que precisam ser dedicados aos filhos quando nos tornarmos responsáveis pela formação deles, principalmente, na primeira infancia. Neste quesito, não há substituições, seja da presença e da qtde de horas da mãe, do pai e de q/q outra pessoa que tenha intenção de contribuir com a formação dessa criança. É uma relação de cada um...
Vc expõe algumas das razões pelas quais há o conflito entre ser mãe e ser profissional: a situação da nossa economia...Concordo que houve uma vitória na conquista da mulher pelo espaço do trabalho, mas isso é passado. O que está em jogo hoje é outra luta.Mas a vivemos como se fosse a luta do século passado. O fato é que o momento presente nos coloca um conflito e a maioria prefere apagar o conflito e encará-lo como algo tranquilo. Sinto que não é tranquilo...mas amei seu comentário e sua visão oposta a minha: obrigada!
Oi Fabi, que delícia ter uma partilha sua neste espaço: obrigada! Concordo plenamente com sua afirmação sobre a jornada.
Ela é solitária e envolve sim um jeito de olhar que depende muito da nossa própria história e das fases dos nossos filhos. Vivo agora uma mãe-bebê e uma mãe da segunda infância...então, esse meu olhar tá muito baseado nessas fases das minhas filhas.
Agora, não sei lhe dizer sobre a questão do abandono...volto em breve assim que pensar mais sobre isso já que é algo tbem colocado pela Carol: obrigada!
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Oi, querida!
Passei uns dias sem vir aqui e adorei as dicas e reflexões que eu ainda não tinha lido! Gosto demais do seu blog!
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Oi Ceila, talvez angústia tenha sido uma palavra forte. Mas, foi o que senti na época em que Laura era bebe e eu me cobrava muito, em ser uma mãe presente e ao mesmo tempo em me realizar profissionalmente.
Discordo fortemente da afirmação de que a luta pela entrada da mulher no mercado de trabalho foi vencida e que é do século passado. Eu fico preocupada quando a gente escreve afirmações categóricas como "mãe trabalhar não deve ser tranquilo", sem olhar para a diversidade (e a maioria) das realidades das mulheres de nosso país, e do mundo! De fato, hoje, no Brasil, ser mãe e profissional é difícil, mas não TEM QUE ser assim! Não tem que ser um conflito. Pelo contrário! As coisas tem que melhorar, e não é com a mulher abrindo mão de sua posição no mercado... Sei que vc não chegou a afirmar isso, mas em um determinado momento, o texto me pareceu tender para essa conclusão. O mercado de trabalho ainda é muito desigual. Temos muito o que conquistar. As mulheres continuam sendo maioria em profissões mal remuneradas, especialmente nas profissões "do cuidado", que exigem muita dedicação, de tempo e de energia. Ainda somos uma minoria pequeniníssima em áreas de liderança, como a Política, o Judiciário, e a administração de empresas. E ainda ganhamos 25% a menos, de maneira geral, do que os homens. A grande maioria das mulheres pobres trabalha como doméstica, faxineira ou funções correlatas, mal remuneradas e sem direitos garantidos. Então, acho muito complicado afirmar que essa é uma luta do passado. Acho que as blogueiras (que representam normalmente as classes mais favorecidas) só conseguem olhar para o dilema trabalho x maternidade como um conflito porque PODEM. De certa forma, isso é bom porque nos faz exigir um mercado mais flexível e a valorização da maternidade. Mas, pode ser ruim se esse conflito se torna motivo de culpa e autopunição, ou como base para questionar a escolha de se dedicar à profissão. Acho que é possível sim buscar alternativas, mesmo que não sejam perfeitas (como não o são para os homens, pais, e não pais), sem nos esquecermos o longo e árduo caminho que temos feito para ganhar espaço no mercado e nas decisões políticas que afetam as vidas de todas e todos (inclusive nossos filhos). Crianças demandam tempo de presença física, mas também precisam de um mundo mais igualitário, onde as mulheres estejam devidamente representadas. O problema não é a gente querer trabalhar fora, é não ter o suporte dos demais parceiros para cuidar dos nossos filhos. Enfim, tenho pensado muito nisso e lido bastante a respeito, por isso me empolguei no comentário... Beijo
Oi Celia
Vim te visita através de outro blog,mas já estou te seguindo, vc escreve muito bem! O tema que vc abordou é um tema muito atual e que realmente pega em cheio a mulher moderna, eu tenho esse conflito, pois tenho dois filhos e trabalho fora, mas como vc disse, não é o tempo, e sim a qualidade do tempo que "gastamos" com eles. Muito bom o post. Parabéns!
Bjos. Fique com Deus!
http://ashistoriasdeumabipolar.blogspot.com.br/
Ceila, não fui contra a frase de Gandhi. Acredito tb nas mudanças individuais inspirando a coletividade. Não poderia deixar de acreditar quando justamente por ler experiências pessoais na internet fui mudando , me encaixando, buscando.
Mas eu acredito muito, muito mesmo no "juntos somos mais fortes", por isso comentei que a construção de uma sociedade mais igualitária para homens e mulheres não será construída apenas com batalhas pessoais. Há que se unir! Beijos!
Ceila, onde eu assino? Vivo tentando organizar o tempo para não sentir que estou negligenciando as coisas. Mas, as vezes simplesmente não dá. A guerra acontece mesmo em todas as casas e cada uma tem a sua. Vc disse tudo. As meninas do ICL estão aí este fds e deu encrenca aqui em casa, não consegui ir, se tivesse conseguido ia aí tomar um café. :-)
bjs
Oi querida mamãe!
Passando para conhecer seu blog!
Adorei!!!Seguindo!
Espero que visite o meu também, viu! Adorarei sua visita!
Bjos no seu coração!
Tatty
http://diariomaedeprimeiraviagemtatty.blogspot.com.br/
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