Ou seja, alguém que compra algo estabelecido por este "mercado". O resultado disso é simples: serviço não entregue de acordo com a propaganda, cliente insatisfeita. E detalhe: o "mercado" ainda exige dessa relação uma retaliação, pois a garantia do serviço precisa ser mantida para o bem estar de todos.
Acho que o avesso dessa relação está no fato dela ser extremamente íntima, humana, subjetiva, pessoal assim como um montão de coisas que já fazem parte do consumo. Hoje sermos mercadoria é muito comum, mas não é identificado nem perceptível. Talvez a principal razão dela ser tão obscura esteja na constituição dessa mercadoria. Não se trata de um serviço "criado" exclusivamente pelos seus fornecedores, mas "feito" principalmente pelos tais prosumers. São eles quem estabelece, com todos os detalhes, os valores dessa mercadoria.
Por isso, não há dúvida: se você pagou e não levou aquilo que está no YouTube, no Facebook, nos blogs ou nas palestras, algo está errado. Você pode até se sentir enganado, mas é muito mais provável que você se sinta culpado. SIM, CULPADO, porque se algo saiu errado é porque você não fez sua parte. Vale ressaltar que essa sensação acontece porque o mercado estabelece muito bem o que você precisa fazer como consumidora para atingir o resultado esperado.
Acho que o avesso dessa relação está no fato dela ser extremamente íntima, humana, subjetiva, pessoal assim como um montão de coisas que já fazem parte do consumo. Hoje sermos mercadoria é muito comum, mas não é identificado nem perceptível. Talvez a principal razão dela ser tão obscura esteja na constituição dessa mercadoria. Não se trata de um serviço "criado" exclusivamente pelos seus fornecedores, mas "feito" principalmente pelos tais prosumers. São eles quem estabelece, com todos os detalhes, os valores dessa mercadoria. Por isso, não há dúvida: se você pagou e não levou aquilo que está no YouTube, no Facebook, nos blogs ou nas palestras, algo está errado. Você pode até se sentir enganado, mas é muito mais provável que você se sinta culpado. SIM, CULPADO, porque se algo saiu errado é porque você não fez sua parte. Vale ressaltar que essa sensação acontece porque o mercado estabelece muito bem o que você precisa fazer como consumidora para atingir o resultado esperado.
Mas há a probabilidade de você até ter feito o combinado (o que é muito raro), então, você começa a entrar em pânico. Muito pânico...porque numa relação de consumo, a conta é simples, se você cumpriu com sua parte, então, quem errou foi o outro. E o pânico acontece porque o outro tem a garantia de mercado. E aí você, enfim, entra na onda do e agora, Maria?
Agora é hora de olhar para esse CUSTO do parto humanizado. E aí, se você quiser olhar mesmo, não tem jeito: você precisa sair do seu umbiguinho individualizado, que te levou para essa caminhada solitária. Ou melhor fechar os olhos e seguir sua vida individualizada, catando seus próprios ossos. Afinal como já disse o sociólogo, indivíduos, homens e mulheres, são agora exigidos, puxados e empurrados a procurar e encontrar soluções individuais para problemas socialmente criados, e a implementar essas soluções individualmente usando habilidades e recursos individuais.
Ufa! Soa coisa de maluco, mas é apenas uma relação de consumo. Olhá-la de frente tira um peso enorme das costas, além das distorções típicas de julgamento sobre essa relação. Primeiro porque lhe permite enxergar a relação do parto humanizado como também ela é. Um processo fisiológico que precisa de apoio de profissionais que respeitam teu individualismo e seus sonhos para ser realizado da forma mais natural possível. Mas essa relação é muito mais que isso, envolve alma, coração, espiritualidade, cosmos, enfim, toda magia inerente do nascimento acontece ali e agora, quando a gente tem a oportunidade de encontrar pessoas dispostas a protegerem a chegada dos nossos filhos da indústria intervencionista, que se tornou a obstetrícia no Brasil. São coisas quase opostas dentro do mesmo evento. Por isso, a importância de enxergá-la, evidenciá-la e trazê-la à tona.
Distorções do Custo
Eu demorei muito pra colocar as minhas dores consumistas dentro do saco do CUSTO do parto humanizado. Mas acho que agora começo a abrir os olhos para identificar o que foi criado pelo processo do consumo dentro de mim. Antes de separar o consumo do encontro, cheguei a acreditar que eu era mais uma refém do parto idealizado. Não! Eu não idealizei meu parto nem fantasiei esse momento. Eu tinha sim o sonho de parir naturalmente, que nunca será realizado. Mas esse sonho só foi o propulsor para eu me tornar uma consumidora. Quando escrevi o post em que trago à tona o modelo padrão do parto humanizado construído pelos prosumers, eu não tinha atribuído a esse fenômeno o valor de mercadoria. Não fui eu quem construí essa fantasia como escrevi no post (abaixo), apenas comprava tal mercadoria.
Só agora percebo que minha vontade que parecia tão simples estava relacionada a um modelo redentor, quase inatingível, que eu não só conhecia através dos olhos e ouvidos, mas também pelo coração. O modelo VBAC contado nas redes sociais é lindo, lindo, lindo! O desejo de SÓ parir estava relacionado a uma trajetória em que a mulher precisa interiorizar-se, precisa enfrentar seus medos, aceitar o imprevisível e ainda fazer uma entrega especial ao universo pra só então ter o merecimento de parir... Uma entrega que como diz a materna Anna Gallafrio no relato do parto do Mattias: dependeria do alinhamento dos planetas. SIM, eu estava presa ao poder midiático queeu construí pra mim mesma.*
E como consumidora me senti enganada por ter tido um fórceps ao invés do parto lindo, lindo, lindo. Como consumidora eu cheguei a questionar que se eu tivesse pago mais, talvez, eu teria tido a chance de parir naturalmente. Como consumidora eu também questionei que se eu tivesse escolhido o modelo ideal que é o parto domiciliar, talvez, eu teria tido a chance de parir de verdade. Essas questões, obviamente, eram ouvidas como culpa. Quantas vezes eu precisei mergulhar fundo em busca de um trauma pra corresponder com essa relação de consumo. Afinal, a retaliação faz parte do jogo do consumo. E ai de você senão reclamar pelos seus direitos de consumidor...Quantas vezes não ouvi do "mercado" que eu poderia tentar de novo. Ou seja, não há chance de ter um resultado diferente daquele que é vendido pelo "mercado".
Quando você encarna o personagem de consumidora, você se liberta também para enxergar seu parto. Você se culpabiliza menos. Você sai da relação de consumo para relação humana. E percebe que o CUSTO do parto humanizado não pode ser alternativa da classe média, mas precisa ser resolvido com política do Estado. Você percebe que não há nada errado com os profissionais do movimento humanizado. Eu não concordo com a crítica do preço alto cobrado pelos profissionais versus a expressão "humanizada" porque o erro não são deles. O erro é nosso. Esses profissionais já enfrentam uma baita de uma guerrilha com seus iguais quando resolve nos atender em casa ou no hospital. Não são eles quem devem ser crucificados pelo problema social que temos na saúde pública e privada. E, apesar de tudo, são eles quem estão lutando por essa mudança. É a briga da categoria profissional que tem movido mulheres a sair na rua. Não são as usuárias e as principais vítimas desse sistema que resolveram mudar o jogo individualista. Nós continuamos agarrando as alternativas de acordo com nossas condições financeiras para ter o direito individual de parir ao invés de nos tornarmos uma sociedade mais solidária, que luta pelo direito humano de parir!











4 comentários:
Ceila, muito lúcido o seu texto. Perfeito ter colocado Ulrich Beck como referência. Nessa sociedade de "riscos", o consumo se move muitas vezes para preveni-los. E no caso do parto, quem deseja o "parto dos sonhos" corre em busca do que pode evitar um "parto traumático" ou uma cesária desnecessária. Concordo plenamente com você que essa relação perversa precisa ser transformada por Política de Estado. Mas, quanto aos profissionais, há de tudo, né? Há aqueles que reproduzem o tempo todo o discurso culpabilizante, que não olham o contexto político social no qual estão ligados, e cobram caro porque se aproveitam sim dessa situação de desamparo das mulheres. Mas, há também os guerreiros, que estão sempre debatendo o assunto de forma engajada, que buscam o verdadeiro empoderamento das mulheres. Da mesma forma que, do outro lado, há cesaristas declarados e há aqueles que tentam fazer alguma diferença sem muito preparo... Enfim, eu chego a conclusão que as Ciências Sociais tem o dever de entrar mais a fundo no debate do parto humanizado, e de contribuir para que o movimento enxergue mais além do que desejos pessoais e medidas individuais, com autocrítica, com influência política e não só influência no padrão de consumo das gestantes.
Beijo e parabéns por esse belo movimento!
Oi Carol, querida, obrigada pelo feedback e pela maiuêtica que vc provocou em mim ao trazer tantas perguntas parideiras...Espero que essa conversa transforme sim numa boa rodada de reflexões com outras pessoas...Dedinhos cruzados!!!
Olha, eu pesquisei muito, escolhi muito, tive meu parto humanizado, domiciliar, lindo, lindo, lindo!! Mas gastei, viu? Como ainda tive que ir para o hospital para fazer uma curetagem e o plano não cobriu a equipe por que o parto tinha sido em casa, eu paguei tudo do bolso: anestesista, auxiliar, médico, parteira, doula... Mas valeu muito,não mudaria nada, mas a despesa foi muito maior do que a maioria das pessoas poderia pagar.
Dani, eu acho que todo gasto com profissional humanizado vale a pena e confesso que, apesar de precisar endividar pra pagar minha equipe, acho pouco o valor que eles ganham quando comparado com o serviço de saúde privado pq o que eles fazem é raro, escasso e precioso DEMAIS pra quem consome. Ou seja, é aqueles serviços que não tem preço. Eu não questiono isso. Questiono exatamente a questão que você traz de que a maioria das pessoas não podem arcar com esse custo, mas eles precisam desse serviço e quem precisa arcar com esse custo são os responsáveis pela saude pública. E a saude privada precisa se adequar a esses profissionais de forma urgente e uma das maneiras é formando gente capaz de dar assistencia ao parto.Obrigada pelo comentário!
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