Pra quem tá dentro da caixinha do sim ou não, certíssimo. É preciso garantir às mães o direito à modernidade. Afinal, alguém está colocando em risco este direito. Vamos atacá-lo! Mas, atacar a quem, cara pálida?! Ué, olhe para o lado. Quem diz NÃO à papinha da Nestlé de cada dia? Quem é que nos aponta o dedo gritando: isso não pode, tá errado, não é certo? Ué, estranho, o som parece vir de dentro. Mas dentro da caixinha só cabe eu mesma. Quem, então, tá falando comigo? Vale lembrar que, no mundo moderno, não existe aquilo que a gente não vê, nem aquilo que a gente não pega, lembra que quem venceu a guerra da psique foi Freud, e não Jung. Então, a lógica é outra: busca-se aquilo que só se vê dentro de caixas. Ou seja, aquilo que vende e, consequentemente, tem nome. A CULPA. Quer coisa mais eficiente para se encaixar naquela voz que a mãe moderna ouve, mas não vê? E usar a Culpa é muito fácil... Tem trajetória histórica, tem o efeito da identidade e, detalhe, garantia da alienação em embutir o processo do consumo. Perfeito!
Tão perfeito que dá até para atribuir a culpa ao um velho personagem: o Outro! Ah, aquela vozinha interna? NÃO, tá louca!? Aquela vozinha, eu já disse, tem dono. É a culpa. Tô falando de humanizar a vozinha (a culpa), de dar cara a ela, um nome e até uma roupinha típica pra completar a imagem. Tô falando de quem tá fora da caixa. Aquela ali, ó, tá vendo? Ela não parece com as mulheres da caverna? Igualzinha, uai, tão retrograda, antiga, coisa de dona de casa, que não tem mais nada pra fazer da vida. Bingo! Que tal nomeá-la de patrulha ou xiita?! Mas, porquê??? Ela não está com armas na mão? Uai, esqueceu que é ela quem personifica a culpa? Hummmmmmm!
Podia ser assim o diálogo editorial da Pais&Filhos se houvesse reflexão sobre o jogo da modernidade que vivemos hoje dentro de casa, mas tenho certeza absoluta de que não houve esse olhar quando a editora defendeu a papinha neste artigo aqui. E muito menos quando a editora resolveu utilizar o potencial das redes sociais para criar a campanha Culpa, Não! A revista é mais uma vítima daquilo que refleti no artigo sobre Custo do Parto Humanizado. É mais fácil o diálogo editorial da Pais&Filhos ter refletido sobre a intenção de ajudar o outro, de apoiar a mãe moderna que não tem tempo pra fazer papinha. Mas, apesar do domínio ideológico da sociedade do consumo, os tempos mudaram. Há reflexão fora da caixa. Tudo bem, que quase ninguém a ouve. Mas tem cada vez mais gente perambulando naquilo que o consumista encara como xiita...











9 comentários:
Sua análise, como sempre, perfeita e justa. Foi no cerne! Beijos!
Ótima reflexão!!!
Oi, Ceila! Tem mesmo, cada vez mais gente fora da caixa. Vc foi no ponto que eu gosto: é mais fácil eu atacar o outro, dizer do quanto o outro é ruim, se acha, é radical, não respeita o modo de viver alheio do que eu olhar para mim mesma, rever meus conceitos, minhas decisões antigas e futuras. Mudar dói, sempre. Mais fácil seguir com a maré, porque nadar contra ela é algo descomunal. Mas peixinhos simpáticos conseguem, e por quê? Para colocarem seus ovos no melhor lugar, não no possível e socialmente aceito, mas no melhor. Eles não se importam que os outros peixes os chamem de radicais, tortos, diferentes, retrógrados. Seguem seu caminho na certeza de estarem fazendo o melhor para a espécie.
Sobre a papinha, melhor a caseira congelada. Na impossibilidade de fazer diariamente eu faço 2x na semana e congelo. Vario os ingredientes. Não leva mais que 1 hora para fazer e garanto alimentos saudáveis, de acordo com o que eu quero oferecer ao meu filho. E é tão pouco tempo! Em poucos meses eles já comem conosco!
Travestida de modernidade ou de adeus à culpa essas empresas faturam milhões às nossas custas. Foi assim que minha avó e minha mãe abandonaram seus partos e amamentação dos filhos, em nome da modernidade, do conforto e da cegueira da culpa.
Beijos,
Nine
Ceila,matou a pau. Essa campanha dá um rosto para a culpa!!!! Não tinha me ocorrido isso. A culpa não é minha. São os outros que a estão me imputando. Xô, afastemos os outros e estarei livre com minha consciência. Caraca, mulher e vc diz que aprende comigo....tenho que comer feijão a beça pra chegar até aí. Parabéns, Ceila!
Ceila, excelente seu post! Acho q chegou a hora mesmo da gente - eu, vc o vizinho... - encarar as próprias "sombras"! bjs
Nossa Ceila, que sacada hein? Como já disseram aqui, matou a pau!!! rssss.... Me fez refletir bastante, pois quando comecei a tomar contato com todo esse universo da maternidade consciente, eu me senti assim, com uma culpa do além, e num primeiro momento eu quis me defender da culpa querendo atacar as "xiitas", dentro de mim sabe? Com desculpas pra mim mesmo, até que eu vi que essa voz vinha mesmo de dentro de mim, então eu resolvi dialogar comigo mesmo e começar a adequar algumas coisas na minha maneira de maternar. Como esses conflitos se deram já um tanto tarde (minha filha tem 6 anos e meu filho 2)algumas coisas já são mais difíceis, diferente de quando vc começa a linha de raciocínio logo que a criança nasce... Mas estou em busca, vou nadando contra a corrente um pouquinho aqui, outro pouquinho ali, tem hora que ela me traz de volta ao fluxo, então retomo, e por aí vai, rssss...
Eita, dona Ana, guerreira, obrigada e parabéns por nos dar a oportunidade de refletir o tempo todo sobre nossas atitudes dentro da sociedade do consumo. Sua dedicação tem mudado muita coisa, muita casa e muita gente: parabéns!
Obrigada, Aline! Vale ressaltar que reflexão de blog é sempre reflexão coletiva.
Nine, você disse tudo: mudar doi demais e agradeço todos dias pela benção da maternidade que nos coloca mais oportunidades para mudar, mas como tudo na vida, a maternidade também é uma escolha e essa oportunidade pode passar batido...
Em relação á papinha, eu continuo com amamentação exclusiva. Clarissa está com quatro meses...Daqui dois meses, dou meus pitacos com mais vivência sobre o que ando fazendo no meu cantinho. Não tenho dúvida de que o feito em casa é o melhor assim como não tenho dúvida de que a papinha da Nestlé tem sua utilidade até para quem se considera da patota da patrulha. A questão é que uma coisa não elimina a outra nem substitui. Assim como todo produto da vitrine consciente, a papainha da Nestlé precisa ser adquirida qdo realmente é necessária. E jamais por impulso, cansaço ou para ser a alimentação do seu filho.
Eita mestra Tais Vinha, vc anda muito mãezona com as minhas pensatas, hem!!! Ichiiiiiiiiiii, agora, com seu comentário, vou precisar de muita, mas muita, muita briga comigo mesma pra baixar o ego e vaidade eterna que existe em todo blogueiro da Terra.
Vamos, então, para escuridão, Susuca. Mas, please, apareça...Tô com saudade!
Que bom, Michele!!! Fico feliz e que presentão que você nos traz em partilhar sua trajetória porque mostra que a culpa faz parte deste caminho, né! Eu também me senti muito culpada por ver que o vizinho conseguia fazer aquilo que parecia certo pra mim, mas que eu não tinha coragem de assumir aquilo por tantas e tantas razões...Haja buracos internos na nossa culpa de cada dia. Eu não consegui tampar quase nenhum deles, mas aprendi que os buracos cicatrizam se a gente acolhê-los, acariciá-los de vez em quando e assim a gente ganha força pra fazer aquilo que a vozinha interna ensina.
Já fui salva muitas vezes pelas papinhas prontas. Só lamento, no Brasil, o monopólio da Nestlè. Vi uma reportagem sobre pessoas que vendem papinhas caseiras, excelente para mães modernas "naturebas". Mas, e as questões de controle de higiene? Desculpe afastar do tópico centro, mas quem sabe não vale essa discussão tb? Volto sempre para cá!
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