Reconheço que parte desta insegurança vem da vulnerabilidade da fase puérpera, mas os porquês que me transformaram numa ativista vão além desse momento profundo que é participar da simbiose mãe-bebê. Eles são culturais, eles envolvem uma vergonha que não vem do coração, mas dos olhares sarcásticos de homens como Tas e Rafinha. Amamentar em público é um tabu. Mas esse AINDA não é o principal porquê de eu tornar-se uma ativista. Digo ainda porque lá fora ( nos países dito desenvolvidos), amamentar em público é um desrespeito, é feio, é sujo e é proibido.
Aqui, no Brasil, o preconceito não pesa tanto dentro da cesta urbana cultural, que prejudica a amamentação de cada dia dos nossos filhos. Tenho colocado o peito pra fora em diferentes lugares públicos e a maioria das pessoas recebe muito bem a necessidade da minha filha. Mas vale lembrar que onde existe o preconceito são lugares que um dia o Brasil deseja ocupar e isso significa um risco que precisa ser prevenido. É por isso que me tornei uma ativista da amamentação. Não quero que o humor de hoje transforme-se em tortura do amanhã.
Eu não sei definir exatamente qual é o principal ingrediente da nossa cesta urbana cultural, que prejudica a amamentação dos nossos filhos, mas posso citar os mais comuns e visíveis: má orientação e falta de apoio. As tais 3 horas recomendadas pelos pediatras, o suplemento alimentar recomendado nos hospitais, os pitacos do leite fraco e a falta de apoio em casa, na rua e no consultório. Talvez essa realidade seja mais consequência do que a razão pela qual o Brasil ainda precisa do ativismo ao aleitamento materno. É por isso que me tornei uma ativista da amamentação. Falta educação, em todos os sentidos!
Mas há algo ainda pior que a falta de investimento em educação: o resultado deste descaso. Cada dia que passa menos bebês têm a oportunidade de mamar no peito e mais mulheres estão convencidas de que o alimento artificial é o melhor para seu bebê. Das mulheres que conheço que não amamentam seus filhos, todas creem que aquela foi a melhor solução. Não questionam a verdade do médico nem estranham essa necessidade de intervir num processo natural dos mamíferos. Porquê? É prático, é comum, é aceitável...E o mais importante: o bebê fica bem, o bebê fica calmo, o bebê dorme e não há nada mais forte para uma mãe que ver que seu filho está bem...É por isso que me tornei uma ativista da amamentação. Uma mãe não pode enxergar somente pelos olhos! Ainda mais agora em que o mundo da imagem é mais real que o dia-a-dia.

Não basta amamentar hoje, é preciso pensar no futuro como diz a campanha global encabeçada pelo Ministério da Saúde. A frase é ótima, pena que a imagem é falsa. A amamentação de hoje não acontece no campo nem começa tão tranquila e risonha. Não sou contra o uso das famosas nas campanhas anuais, mas falta um personagem crucial que é responsável pelo Brasil ainda não ser o país do preconceito da amamentação em público. Falta nossa avó, nossa mãe, nossa parteira e benzedeira nesta foto. São elas as responsáveis em manter o valor da amamentação. Muitas delas dão os pitacos do leite fraco, mas nenhuma foi criada com mamadeira. Em breve elas poderão ser extinção... Precisa-se urgentemente inseri-las nesta foto. É por isso que me tornei uma ativista da amamentação. Nenhuma cantora, atriz ou supermodelo serão capazes de manter o valor da amamentação construído pela nossa cultura popular.
Calma! Eu sei que há muitas críticas em relação às campanhas do Ministério da Saúde porque elas não promovem o apoio necessário, não trazem as feridas à tona nem discutem o desafio dos primeiros dias da amamentação. Concordo com boa parte dessas críticas e acho fundamental que o Ministério invista em diferentes campanhas: não só para as mamíferas, mas destinada também aos diálogos necessários com pediatras, enfermeiras, avós, pais e homens! É por isso que convidei blogueiras a questionarem-se sobre esses porquês entre o dia 10 e 20 de agosto. Entre para essa roda você também e leia os posts da nossa blogagem coletiva.
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5 comentários:
Ceila estou acompanhando os post somente como leitora porque eu descobri que nao sou uma ativista da amamentacao (e acho que nem quero ser). Desculpa!
Abracos
Gra
*segue meu post/ desabafo de hoje sobre o assunto:
http://graflor.blogspot.co.uk/2012/08/amamentacao.html
O fato da minha mãe ter amamentado todos os filhos me estimulou- mesmo com todas as dores de adaptações e empedramentos- a não desistir. E acredito que tenha valido muito a pena!
Para as mulheres que amamentam falta apoio até mesmo dentro da própria casa. Lembro de uma amiga que chegou em casa chorando por que as cunhadas criticavam que ela amamentasse por tanto tempo e faziam piadinhas. E não era tanto tempo assim. Algo perto de completar o primeiro ano.
Não podemos esquecer que Tas e Rafinha foram criados por mulheres, tais como as cunhadas da minha amiga. A mulher brasileira ainda vive sob o domínio do patriarcado.
Oi, Ceila! Lembra da pulguinha? Vim tirá-la :-) Quando Marina nasceu eu morava na orla de Maceió (pensa numa ponta da cidade) e trabalho no aeroporto (na outra ponta e em outra cidade). Saía de casa às 6h e voltava 12 horas depois. Não tivemos como alugar uma maquina de ordenha e era muito caro para comprarmos. Estava no auge a H1N1 e o aeroporto era a principal porta de entrada dessa gripe, então pesando tudo achamos que poderia até ser arriscado, pois o sistema de ar condicionado é centralizado e confirmei com os engenheiros que não havia local ali onde eu pudesse ordenhar sem NENHUM risco.
Nossa! Adorei o texto!! Você falou e disse! Eu sou ativista da amamentação e espero conseguir o meu objetivo, apesar de não ter apoio em casa. Isso mesmo. Minha mãe. Minha tão sábia mãe não aposta na ideia do "peito" como único e exclusivo alimento até os seis meses. Para ela o bebê precisa de chá e água. Pois é! Mas eu estou confiante que conseguirei sim! Vou fazer o possível! Um abraço!
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