A escolha da equipe humanizada é uma das coisas mais pesadas pra quem busca um VBAC (Parto Normal após uma cesárea). Principalmente quando há a decisão de que aquela é a última gestação do casal. O peso da "última chance" é muito cruel e cito duas razões para tentar demonstrá-lo a você. Primeiro porque você já conhece a dor das consequências dos seus atos e não quer repeti-la. Segundo que você tem consciência daquilo que você errou e está preparada para não cometer as mesmas falhas, mas não pode prever as infinitas possibilidades que estão no caminho de quem busca um parto normal. E, pra deixar a bagagem ainda mais pesada, você sabe mais do que ninguém que a decisão de tudo, no fundo, no fundo, é só sua. MEDA!
Então, cada escolha torna-se séria demais, exigente demais, dolorida demais e, consequentemente, muito pessoal. Um senso comum entre as gestantes que buscam uma equipe humanizada para o parto normal é de que essa escolha é feita pelo coração. Mas como a gente escuta o coração? Devemos ficar atenta a qualquer sinal sem sentido que nos deixa insegura, triste ou com uma sensação esquisita que a gente desconhece, certo? E, cá entre nós, você já teve mais sinais sem sentido, ou coisas do acaso, como agora? Eu não me lembro de ter sentido tantas simpatias, antipatias, inseguranças e absolutas certezas como vivi durante a gestação. Não dá pra entender a maioria deles, mas dá pra aceitá-los, acolhê-los e ir gerando esse coração que fala...
MAS, o coração não entende a língua dos homens - vale ressaltar o sentido de "homens" como significado da humanidade patriarcal. E é exatamente aí que mora o perigo. Seu coração precisa dialogar com a razão, que está muito baseada nos limites da grana. Money, money, money vai ser seu principal limite de escolha. Você pode sofrer com isso, se sentir angustiada, mas posso lhe garantir que você aprende muito com a falta de grana. É caro demais, é injusto sim, mas vale cada centavo. Confuso?
Adianta lhe informar que escolher a equipe humanizada com limite da grana exige do casal mais cumplicidade, mais comprometimento, mais partilha, mais companheirismo...Detalhe: esses valores não têm preço, pois são cruciais para criar segundos filhos...
Falando a língua dos homens
Mas a gente só descobre isso depois que passa. Durante a escolha, a tortura da grana nos coloca em diversos embates da vida. Primeiro você se questiona se é necessário mesmo investir tanto no obstetra humanizado. Eu demorei pra acreditar nisso, mas quando caiu a ficha, eu tive absoluta certeza de que precisava fazer essa dívida financeira e continuo defendendo essa escolha. Leia meu post da época em que caiu minha ficha: Você deseja ter um parto Normal? Então, lute por ele!
Eu não me arrependo da escolha que fiz. Minha obstetra me cativou desde o primeiro dia e tenho uma admiração profunda por ela ser um dos poucos profissionais que ampliam a escolha das gestantes paulistas, que não têm condições de arcar com a hospedagem do São Luis ou Albert Einstein. Meu plano só cobria os ambientes líderes em cesárea (Santa Joana e Pro-Matre), por isso, não cheguei a conhecer os 10 profissionais da listinha paulista. Acho válido conhecer todos, mesmo que não tenha grana pra pagar a consulta de cada um e mesmo que já tenha feito sua escolha. Vá em palestras, encontros, fique alerta na agenda desses profissionais. Motivo?
Só olhando no olho de cada um vai entender as diferenças de "estilo". Eu só entendi o porquê o JK é tão admirado quando o vi pessoalmente por algumas horas no encontro gratuito da Casa Moara. Ele exala experiência e respeito pelas mulheres. Eu não conheci a Catia Chuba, a Betina Bittar , a Andrea Campos nem o Dr. Alberto. Quero ainda conhecer cada um deles!!! Conhecer o JK me fez entender a importância de ter uma doula experiente, com muitas histórias de acompanhamento de parto, que pudesse me orientar diante dos desafios da hora P. Eu não tinha noção dessa necessidade quando fiz minha escolha, mas coração de gestante não se engana.
Eu escolhi uma doula bastante experiente, mas nem sempre nossas escolhas são garantidas pela imprevisibilidade do Universo. Ela não esteve presente no meu parto porque atendia outra gestante. Mas uma equipe humanizada sempre tem um plano B, C, D, X ou Z. Por isso, é importante que você avalie todos esses planos. São eles que lhe tornarão capaz de aguentar o nascimento de uma criança que buscou um parto normal. Eu não me preparei para isso. Não pensei no forcéps, por exemplo. Eu estava pronta apenas para o parto redentor contra uma cesárea e isso é muito pouco para as infinitas possibilidades que representa a chegada de uma criança na Terra. Prepare-se para o imprevisto!
Recomendo! Equipe de Parto Humanizado: Como montar a sua!










4 comentários:
Me conformei e até entendi, e tirei a conclusão de que prefiro pagar a um medico humanizado, do que pagar a um do plano, pois de qualquer forma vc esta pagando todo mes! Essa é a realidade infelizmente!!
Ai Ceila... esse assunto é tão complicado e ao mesmo tempo MUITO importante. Acho muito triste que a gente tenha que se preocupar tanto com isso durante a gravidez. E não é triste porque é penoso para a gestante, mas porque reflete uma anomalia absurda na nossa sociedade. Por que parir tem um custo tão tão alto??? Seja financeiro, seja emocional, o custo é alto, com raras exceções. Já falei sobre isso no meu blog, sobre o mal estar que passei ao receber o valor da "continha" do meu médico "humanizado" com 39 semanas, às vésperas de parir. Com toda ingenuidade do mundo, e uma pitada de sinismo do médico, eu não imaginava o valor exorbitante da conta! Peitei o doutor e disse que não podia pagar aquele valor. Estava disposta a parir com um médico de emergência. Ele voltou atrás e cobrou o que tínhamos combinado no início. Não posso desvalorizar todo o trabalho dele. Na hora P, ele foi bom, foi humano, foi coerente. Mas, talvez por eu ter tido um trabalho de parto bem rápido (5 horas), e apesar de ter tido um expulsivo bem dolorido, acho que eu estava tão "empoderada" que teria peitado o parto natural mesmo com outro profissional. O mais decisivo pra mim foi o local - poder parir sentada, numa sala humanizada, com meu marido perto, foi fundamental pra mim. Continuo me perguntando porque um profissional que opta pelo caminho "alternativo" da humanização acha justo cobrar o equivalente ou mais do que um médico mainstream ganha. Isso reforça a desigualdade, a falta de acesso, a dificuldade do debate. Sobre as doulas, não tenho ideia de preços e tal, mas considero um trabalho muito importante. Às vezes, não é tão necessário, mas às vezes sim, depende da mulher. No mundo maravilhoso da saúde pública ideal (vide Holanda, Suécia, Inglaterra), a gente poderia parir de graça, com o apoio de enfermeiras obstétricas ou parteiras, acompanhadas ou não por doulas, com o obstetra de retaguarda. Tudo isso sem parcelar o parto, sem gastar a poupança do bebê, enfim... Aqui temos que decidir o que é prioridade, e confiar no profissional que pagamos, mesmo que ele cobre muito muito caro...
Carol, querida, muito obrigada pelo feedback. Foi seu comentário que me abriu os olhos para a dor do CUSTO do parto humanizado. Enfim, consegui entender a mensagem sublimar que estava escondida neste post pra mim mesma...Pode parecer louco, mas eu não tinha olhado de frente para o money, money, money que está em jogo nesta minha dor: brigadão!
Que bom que eu ajudei Ceila! Compreendo a sua dor, entendo inclusive que ela não é só sua. Querendo ou não, dinheiro é um mediador fortíssimo das relações pessoais na medicina e na saúde de maneira geral, especialmente no Brasil. As pessoas preferem ignorar ou esquecer esse elemento (que não é apenas um detalhe), e se focar na "escolha", na capacidade individual de uma mulher escolher seu parto, como se, pagando pela equipe humanizada ela pudesse ter sua consciência livre da culpa de não conseguir parir... Enfim, essa é uma discussão longa e polêmica. Eu gostaria muito que os grupos de humanização fossem abertos de verdade para ela. Beijo grande
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