O que é amamentação por livre demanda?
Ao contrário do que muitos pensam, a livre demanda não é invenção de alguns hippies que tinham como objetivo criar uma “geração de selvagens indisciplinados”, como diz Gonzáles. Até o século XVIII, a livre demanda era a recomendação de todos os médicos que, muitas vezes, não recomendavam nada já que o aleitamento não é uma doença. A partir do século XX, os médicos começaram a recomendar horários, entretanto, a prática não era seguida por todas as mães que ou não tinham relógio ou eram muito pobres para visitar médicos. Apenas quando as consultas médicas se tornaram regulares, em meados do século passado, é que as mães começaram a seguir a dica de estabelecer horários para amamentar os filhos, uma prática sem fundamentos que se tornou parte da nossa cultura e, hoje, é muito difícil de ser erradicada. Amamentação por livre demanda é deixar o bebê estabelecer as regras: é ele quem decide quando,como e por quanto tempo amamentar. Simples assim. E nos primeiros meses, a livre demanda é fundamental porque vai permitir ao bebê adequar a quantidade de leite produzido pela mãe às suas necessidades, quanto mais ele mamar mais leite a mãe produzirá. Ao mamar diversas vezes por dia, sem restrições de tempo ou horário, o bebê vai “controlar” o peito para obter o tipo de leite necessário para cada mamada. De acordo com Gonzáles, a quantidade de gordura no leite aumenta no decorrer do aleitamento. O aumento é substancial , fazendo o leite do final ter até cinco vezes mais gordura que o leite do início. Por isso, quanto mais o bebê mama num peito mais calorias ele vai ingerir. Mas isso não significa que você deva controlar a quantidade de horas que o bebê vai passar num peito ou no outro, porque o próprio bebê vai mamar até se satisfazer. Caso ele mame o leite com pouca gordura, vai mamar numa quantidade maior para se satisfazer e vice e versa.
- Sono - Gonzáles tem uma posição enfática sobre o assunto que será mais explorado num post futuro: bebês não nasceram para dormir sozinhos por isso o autor defende a opção da mãe dormir com o filho o que facilita a amamentação por demanda, já que o filho tem à disposição o peito durante toda a noite. Um estudo conduzido pela antropóloga Gilda Morelli mostra que em quase todas as culturas do mundo os filhos dormem na companhia dos pais ou irmãos, apenas em algumas socidades ocidentais industrializadas, como EUA e alguns países europeus, o sono se tornou um assunto "privado". As mães que optaram por colocar os bebês sozinhos num outro quarto acabaram despertando-se mais vezes durante a noite para amamenta-los (prática noturna que as deixava cansadas) enquanto as mães que optaram por dormir com o bebês quase nem percebiam que eles mamavam toda a noite, pois não choravam ou ficavam completamente despertos. Para quem optar por dormir com o filhos, Gonzáles aponta cuidados como: se a cabeceira da cama tem grades, melhor forra-la com uma tela para evitar que a cabeça do bebê fique presa; jamais deixar o bebê dormir com uma adulto que está sob o efeito de álcool ou soníferos, ou extremamente obeso para evitar esmagamento. Não usar colchão d´água, peles sintéticas ou naturais, edredons ou cobertores pesados. Se estiver frio, melhor vestir bem o bebê, aquecer o quarto com um aquecedor portátil e cobrir com um cobertor mais leve. Não dormir com o bebê num sofá e, também, não fumar. A fumaça do cigarro aumenta os riscos de morte súbita.
- Confusão de bicos - Os bebês não acham mais fácil sugar a mamadeira, pelo contrário, isso requer deles um aprendizado específico já que seus músculos e reflexos foram feitos para mamar no peito. Os movimentos são diferentes: enquanto para mamar do peito ele precisa fazer o movimento de "tirar o leite", na mamadeira o leite sai sozinho exigindo que o bebê faça um movimento inverso que é de parar o fluxo para que ele possa tomar primeiro o que está na boca. Evitar chupetas e mamadeiras, principalmente nos primeiros meses, é fundamental para garantir o sucesso na amamentação.
- Volta ao trabalho - No Brasil, a licença maternidade é de seis meses e as mulheres não contam, como já ocorre em alguns países europeus, com alguns direitos extras: durante o aleitamento, a mulher pode sair ou chegar mais cedo ao trabalho; negociar uma jornada de trabalho mais curta ou, ainda, levar o filho ao trabalho. O que é possível ser feito para quem não conta com esse tipo de benefício é: tirar e armazenar o leite materno ou contar com o apoio de alguém que possa levar seu filho ao trabalho durante intervalos para que você possa amamenta-lo. Se a criança já come, melhor dar papinhas e frutas que o leite artificial; em alguns casos os bebês que só mamam acabam recusando a mamadeira - com leite materno ou artificial - e compensam o período que ficaram sem comer quando as mães chegam, por isso, muitas mulheres preferem dormir com os filhos para que possam mamar o quanto quiserem. A extração de leite (ordenha) pode ser feita com as mãos ou com aparelhos (mais fácil, principalmente aqueles que permitem ordenhar o leite dos dois peitos simultâneamente). Antes de começar, a mãe deve massagear o peito para estimula-lo, olhar a foto do filho também ajuda no processo já que o estimulo vem com o reflexo. O processo dura de cinco a 10 minutos e pode ser feito diversas vezes durante o dia, lembrando que no começo, talvez saia pouco leite. Se tirar o leite no trabalho, armazena-lo num lugar fresco, preferencialmente evitar o refrigerador do trabalho já que é usado por muita gente e contém todos os tipos de alimentos. O ideal é carregar uma bolsa térmica portátil. O leite materno pode ser conservado em refrigerador, sem congelar, até cinco dias o que é muito raro porque o bebê vai toma-lo antes disso. O leite congelado dura mais tempo (15 dias, segundo recomendação do Ministério da Saúde) e mãe deve seguir alguns cuidados para descongela-lo; ou ela pode tirar o leite do congelador um dia antes e deixa-lo na geladeira ou, se precisar do leite imediatamente, a melhor forma é descongelar em banho maria. É importante também buscar informações com mães que conseguiram concilar a amamentação por livre demanda com a volta ao trabalho, no Brasil existe a lista de discussão do Materna-Matrice.
- Alimentação complementar - A recomendação de Gonzáles é amamentar exclusivamente o filho até seis meses (não dar água, suco, papinha ou frutas). A exceção é quando a criança pede, nesse caso dar um pouco para que possa experimentar. A partir dos seis meses, começar a oferecer outros alimentos mas sempre depois de ter mamado, evitar substituir as mamadas por papinhas. Até um ano, o bebê deve mamar cinco ou sete vezes por dia , se mamar mais melhor ainda. Se o bebê é amamentado por livre demanda, não é necessário alimenta-lo com outros derivados do leite como yogurt ou papinhas a base de leite. Não adicionar açúcar ou sal à alimentação do bebê.
Para começar, todas as crianças param de mamar um dia, algumas mais cedo outras mais tarde. Embora não existam estudos sobre a idade em que as crianças deixam de mamar espontaneamente, a maioria delas desmama entre dois e quatro anos. Em alguns casos, continuam mamando até seis ou sete anos; e em outros, desmamam antes dos dois anos espontaneamente. Um dos principais obstáculos de se amamentar por mais de um ano é, muitas vezes, a incompreensão das pessoas próximas à mãe, entre eles, familiares, amigos e médicos. Apesar de alguns médicos, psicólogos e nutricionistas insistirem em estabelecer um limite para o período de lactância, isso, na realidade, não existe. Afirmações como "seu leite já não alimenta" ou "está criando dependência" não são fundamentadas em dados científicos, sendo apenas preconceitos. Na realidade, é a mãe quem deve decidir se quer esperar o filho desmamar espontaneamente espontaneamente ou se deseja iniciar o processo antes.
Se decidir desmamar seu filho, o ideal é que seja feito lentamente reduzindo, dia após dia, o número de vezes em que o amamenta. O desmame brusco é traumático tanto para criança quanto para mãe e a família, que terá que se acostumar com o choro da criança. O peito não oferece apenas comida, mas também é fonte de carinho, contato, consolo e relação humana. Por isso, antes de desmamar o filho é importante ter em mente que é fundamental buscar outros meios para prover à criança o contato, atenção e carinho que ela tinha enquanto estava sendo amamentada. Ao contrário do que muitos pensam, desmamar não é descansar. Muitas mães descobrem com o desmame que o peito era na realidade uma das formas mais fáceis de se atender às necessidades de seus filhos e acalma-los.
O ideal durante o processo de desmame é antecipar-se às necessidades do filho, ou seja, mante-lo sempre entretido e feliz, porque uma vez que estiver manhoso ou irritado com certeza vai pedir o peito.
Caso a mãe decida desmamar a criança antes de um ano, o ideal então é amamenta-lo com leite artificial adaptado para bebês. Só apenas depois de um ano é que se aconselha dar leite de vaca integral às crianças. O leite materno tem mais gordura que o leite de vaca integral, por isso não faz sentido alimenta-lo com leite desnatado ou semi-desnatado.
*Este post foi escrito para celebrarmos a Semana Mundial de Aleitamento Materno 2012. Participe você também, respondendo nossa pergunta de ontem: Você faz livre demanda?
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1 comentários:
Susuca, parabéns pelo trabalhão em resumir as principais opiniões do pediatra espanhol, Carlos Gonzales, PARA PARTILHAR conosco e esclarecer assim as nossas dúvidas mais comuns. Aproveito para indicar os links do Ministério da Saúde para quem vai fazer ordenha: http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=34880
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