*Eu comecei a ter compulsão por bombas de chocolates. Pensava em bomba o tempo todo: depois do almoço, na hora do café da tarde e na janta. Foram cinco bombas em apenas 15 dias. Resolvi ligar o pisca-alerta e descobri que a compulsão veio junto com a volta ao trabalho. Pensei: é hora do floral!!! Liguei para terapeuta e ela quis ouvir meu relato de parto. Enrolei, enrolei, enrolei e, enfim, fiz um breve relato. Foi o suficiente para ela me mostrar a BOMBA: "foi igual da sua mãe, né?!"
Minha mãe também não foi protagonista do meu nascimento. Ela se esforçou muito, lutou, chorou e pediu por socorro. Foi, então, que meu avô resolveu salvá-la indo até à cidade vizinha em busca de um médico moderno, que fez uma cesárea na minha mãe após empurrar minha cabeça, que já coroava o canalzinho de saída... Resultado: o cesarista virou o salvador da pátria para minha mãe. Eu resgatei essa história durante a gestação, vivenciei muito minha dor, mas não o suficiente... Agora, entendo o porquê considerei o Forcéps da Clarissa o meu meio do caminho.
A bomba - que eu engolia com muito chocolate - escondia o "salvador", que também esteve presente no meu parto e assumiu todo protagonismo minutos antes da chegada da Clarissa. Era uma médica extremamente técnica, objetiva e direta que sugeriu à minha obstetra humanizada uma anestesia (seguida de episiotomia e fórceps) para me "salvar" da cesárea. A obstetra aceitou e eu JÁ presa aos fios da ocitocina: BUM! Perdi, de novo, a chance de ser protagonista do parto da Clarissa.
Tenho a sensação de que a frustração que trazia dentro de mim está relacionada a esse protagonismo. É muito difícil admitir que não fui protagonista do meu parto. Soa como se eu não tivesse parido minha própria filha. E a gente luta pra negar essa verdade porque de certa forma ela esconde nossa falta de protagonismo na vida. É mais fácil se justificar pelo tempo em que fomos protagonistas do que admitir a entrega do nosso protagonismo à intervenção. Admitir isso é como essa bomba, traz um batalhão de outras verdades relacionadas, associadas e, detalhe, muito comuns nos dias de hoje.
Agora sim posso ouvir a frase dita pela Ana Cris na lista Materna: "A gente pari, mais ou menos, como a gente vive a vida!" E a pergunta que não quer calar: onde mais cada mulher que entrega o protagonismo ao salvador está atuando da mesma forma na vida? Quem procura, acha! Eu já achei algumas relações. E posso lhe garantir que por mais dolorido que pareça acolher essa bomba é muito melhor olhá-la de frente do que se entupir daquelas feitas de chocolate. Detalhe: admitir que não fui protagonista do parto da Clarissa nem do da Maria Luiza não engorda.
Ufa! Enfim, agora, sinto que consigo escrever o relato de Fórceps da Clarissa. Prometo fechar esse dossiê em breve, mas antes vou agir como toda mãe puérpera de segunda viagem: entrar de férias!!! Vale registrar que essa reflexão faz parte de dois posts que me ajudaram a digerir o fórceps da Clarissa: Parto idealizado e Tive um Parto Normal na Pro-Matre
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Há 10 horas












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