Ao buscar mais informações sobre aborto espontâneo descobri que psicólogos, médicos, livros de auto-ajuda são unânimes em relação à necessidade de viver o luto. Minha própria experiência prova que só é possível prosseguir quando não estamos mais presas ao passado, a dor e ao medo de não conseguir ser mãe um dia. Por me recusar a viver o luto, meu processo de cura foi longo, doloroso e solitário. Eu passei por tudo sozinha, apesar de ter marido, mãe e amigas presentes. Eu confortei cada um deles com palavras positivas e explicações médicas, científicas do porque o aborto aconteceu. Durante duas semanas não chorei, dava risadas e até contava piadas... mas, assim do nada, não suportando mais carregar essa máscara de valentia um choro incessante tomou conta de mim e, por fim, me trouxe paz e esperança. Foi assim que comecei a viver meu luto. Durante esse processo, conversei muito com meu marido sobre como me sentia culpada e responsável pelo aborto, conversei com minha médica diversas vezes para entender – absorver – o que tinha acontecido com meu corpo e aquele embrião que parou de ser formar assim de repente na oitava semana. Li e reli depoimentos de outras mulheres que passaram exatamente pelo mesmo que passei e isso, admito, me ajudou imensamente porque tirou o peso e a responsabilidade das minhas costas, me fez entender que não havia sido a primeira e nem a última mulher a sofrer um aborto espontâneo e me trouxe, estranhamente, uma sensação de normalidade, um conforto de pertencer a um grupo de mulheres que como eu lutavam para superar essa perda. Eu não estava mais só.
(Veja nos "comentários" dos links abaixo depoimentos de mulheres que sofreram aborto espontâneo).
Cada mulher vai viver esse luto de forma individual e única. Algumas buscarão o silêncio como eu; outras encontrarão conforto no desabafo, no choro dolorido, alto e sem vergonha de mostrar para o mundo a dor que fere e incomoda. Não importa a forma como vai viver esse luto, o fundamental é passar por esse processo que vai permitir, mais uma vez, enxergar possibilidades e ter esperanças.
Sentimento e dor
Lembro perfeitamente do dia da consulta para escutar as batidas do coração do nosso filho. Meu marido estava ansioso. Entramos na sala, enfermeira, médica.. tudo era felicidade. Preparados para ver o coração? Foi ai que nosso pesadelo começou. O sorriso da enfermeira foi substituido por um olhar preocupado e tenso... e um silêncio tomou conta da sala. A médica chegou em seguida e explicou que não conseguia escutar o coração, mas isso poderia significar que o embrião ainda estava pequeno demais, ou seja, havia esperanças. Medo, dúvidas e esperança.
Foi assim que nos sentimos durante uma semana. Até um segundo exame de sangue confirmar que o hcg estava caindo, ou seja, o embrião realmente tinha parado de se devenvolver. Raiva, tristeza, negação, culpa, descrença, depressão e dificuldade para se concentrar.
Mesmo quando gravidez é interrompida cedo, o elo entre mãe e filho já foi estabelecido, isso explica a intensidade das emoções que a mulher sente ao perder o filho. Algumas, inclusive, chegam a sentir fisicamente essa dor emocional e apresentam sintomas como: fatiga, dificuldades para dormir, perda de apetite e ataques de choro. As mudanças hormonais que ocorrem após o aborto espontâneo tendem a intensificar esses sintomas.
O que esperar do processo de luto?
Geralmente, o processo de luto envolve três etapas:
1. Choque e negação. Quando ainda não entende o que está acontecendo e se recusa a aceitar.
2. Raiva, culpa e depressão. Pensa nas inúmeras possibilidades e se eu tivesse feito isso e não isso; se pergunta porque isso está acontecendo com você e acha injusto estar passando por isso.
3. Aceitação. É quando começa a lidar com os sentimentos e pensa, inclusive, na possibilidade de buscar ajuda para superar essa perda.
A duração das etapas seguintes são mais longas que as anteriores. Durante esse processo, a mulher pode sofrer recaídas, por exemplo, receber convite para o chá de bebê da amiga, comentários insensíveis de outras pessoas, e até mesmo ver mães com bebês pode trazer à tona sentimentos de culpa, fracasso e tristeza.
O que pode ajudar a superar o aborto?
1. Buscar apoio de pessoas próximas (familiares, amigos) não apenas para conversar, mas ser confortada e compreendida.
2. Buscar ajuda profissional para lidar com a perda (você e seu marido).
3. Permitir-se viver o processo de luto pelo tempo que for necessário.
O luto dele
Meu luto foi completamente diferente do luto vivido pelo meu marido. Eu sou racional, ele é emocional. No dia em que recebemos a notícia de que não havia batidas no coração do bebê, meu marido mal entrou dentro de casa e já começou a chorar enquanto eu tentava explicar que a gente fazia parte da estatística, que era uma forma da natureza “eliminar” um embrião mal formado . Ele ficou incrédulo com a minha “frieza” e eu “irritada” com o choro dele. Resumo: entender e respeitar que o processo de luto vivido pela mulher e pelo homem é DIFERENTE é crucial. Não existe insensibilidade ou sensibilidade demais, é apenas o processo que cada um escolhe para lidar com um momento tão difícil, que envolve adiar por tempo indeterminado o sonho de ser pai e mãe.
O que pode ajudar:
1. Respeitar o sentimento de seu parceiro (a).
2. Compartilhar pensamentos e emoções.
3. Aceitas as diferenças e compreender o processo de luto escolhido pelo parceiro (a).
O direito de superar a perda
Superar a dor da perda de um filho não significa esquecer ou fazer dessas memórias algo insignificamente. Superar, nesse caso, significa ter esperanças e focar novamente no futuro. Nesse processo, você tem o direito a:
1. Entender exatamente o que aconteceu e as possíveis implicações numa próxima gravide; buscar por respostas, estudar histórico médico, fazer anotações.
2. Decidir o que quer fazer com as roupas e acessórios que havia comprado para o bebê.
3. Evitar situações que possam trazer tristes lembranças e traçar metas realísticas, ou seja, respeitar seu tempo para poder lidar com a dor e a tristeza dia após dia.
4. Tire o tempo que for necessário para viver esse luto.
5. Aceite o suporte de outras pessoas, embora muitas vezes isso pode não parecer ser fácil. Se você se sentir fora de controle ou extremamente ansiosa busque ajuda profissional de um psicólogo ou terapia em grupo.
6. É normal sentir tristeza algumas vezes, o principal é não deixar esse sentimento tomar conta de você. Lembre-se que outras pessoas superaram essa dor e, com um tempo, o mesmo ocorrerá com você. Tentar fazer coisas que a façam rir e se divertir é importante. Lembre-se que celebrar a vida não é menosprezar a perda do filho.
7. Lembre-se do seu filho. Superar a perda não significa esquecer. Talvez, inclusive, você queira dar um nome ao filho que perdeu. Algumas mulheres encontram conforto ao plantar uma árvore em homegem ao filho, comprar um pingente que a faça lembrar que de certa forma ele foi e ainda é parte da família.
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6 comentários:
Ai, Sueli, sei bem como é essa dor...
Eu perdi uma menina, aos sete meses de gestação...
E até hoje dói. Para mim, essa dor não passa nunca, mas com o tempo, aprendemos a conviver com a dor, a falta...
Mas concordo com você, superar não significa esquecer, eu sempre lembro dela, inclusive converso com meu filho (que nasceu 1 ano e nove meses após a partida da minha princesa)sobre a existência da irmãzinha dele.
Beijos
Edinete Santos
Que lindo relato! Sofridos sentimentos e emoções... é um vazio que só quem passa sabe o que é!
Viver o luto é como se fosse tratar a dor, para que ela possa ser "curada" e não vivida o resto da vida!
Como psicóloga, lido diariamente em meus atendimentos com pessoas que tentam fugir do luto, mas isso é uma fuga que faz muito mal!
Que bom que compreendeu a necessidade do luto.
beijos
felicidades
Por mais triste que seja todo o seu relato, não tem como negar que é tudo tão lindo! Estranho né?! Mas acho que depois que superamos e, aceitamos, começamos e viver diferente!
Não tenho a menor noção do que você passou, posso dizer que imagino algo semelhante, embora a dor seja um sentimento muito íntimo, muito particular, mas tenho certeza que se você conseguiu escrever é porque uma nova fase da vida já iniciou!
Deus abençoe grandemente você!
beijos, Marcella
monmaternite.com
Hoje fazem dois meses que abortei, e nao desejo tao cedo engravidar...
Sofri uma dor tremenda e fui obrigada pelo pai do bebe. Me sinto mal, pois ele nunca disse que me amava, mais me pediu como prova de amor a morte de um inocente. Eu implorei misericordia, e clamei pelo poder de Deus, mas nada adiantou.Estamos juntos ainda, mais choro a noite, e rezo pela alma do bebe. Nao tenho com quem conversar sobre isso, minha mae me mataria.Estou infeliz porque nunca planejei tirar um filho, como tbm nao planejei ficar gravida dele assim. Ele nao acreditou!!! Nunca foi amado por mulher alguma e tento entende-lo, mas e doloroso... Tenho paz de espirito de que fiz tudo por ele.ateh mesmo o que nao podia... Minha mae que me perdoe, e o espirito do meu pai, nao se envergonhe tanto de mim...
Papai, foi tudo por amor...
Sofri um aborto a 6 meses e ainda não consigo superar não consigo esquecer aquele dia,foi horrível,perdi em casa no banheiro vi ele sair de mim e não pude fazer nada estava com 11 semanas ele tinha 5cm sofri muito e depois as pessoas falando que tudo ia dar certo e logo eu teria outro filho mas não era isso que eu queria escultar, naquele momento eu não queria outro filho eu estava sofrendo a perda daquele filho que tanto planejei, 2 meses depois do aborto comecei a tentar de novo e todos os meses qdo faço um teste e da negativo é difícil aceitar só queria o meu bebê aqui comigo e agora pra ajudar quase todas as minhas amigas estão grávidas e algumas conhecidas tbm algumas que nem queriam ser mães isso é angustiante.
DAIANE FERREIRA 22 ANOS
Lindo o seu blog!!!
Gostaria de convidá-la para conhecer e seguir o meu blog, o endereço é: http://www.maessemfilho.blogspot.com.br/.
Abraço.
Manuela.
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