O que acontece quando relaciono minha primeira gestação com a segunda é a compreensão pelo momento em que eu estava em cada uma delas. Elas não são tão independentes como a gente imagina, apesar de cada uma delas trazer um ser único e exclusivo no seu ventre. A energia do bebê é outra, mas ela também está ligada com a energia da família. Tudo isso parece tão óbvio pra quem lê, mas viver esses consensos na prática te traz um novo olhar para a vida. Exemplo? Eu tive muitas dificuldades "banais" com a Clarissa como cantar e conversar para ela como fiz quando a Malu estava na minha barriga. Mas eu nunca atribui tanto poder ao cantar e conversar com bebê na barriga como agora.
Na segunda gravidez há a oportunidade de entender a nossa trajetória de mãe. E, no meu caso, a mudança de valores foi muito grande. Eu me tornei mais humana com a chegada da Maria Luiza e as circunstâncias da vida me abençoaram com necessidades econômicas, que mudaram radicalmente meu patamar de consumo e me tornei mais consciente daquilo que eu coloco dentro de casa. Então, a listinha de enxoval, ou qualquer outra que esteja na mídia, tornou-se desnecessária.
Também aprendi muito quando resolvi relacionar não só a gestação da Malu à da Clarissa, mas também ao meu próprio nascimento e, consequentemente, à minha infância. Quando a gente resgata os nossos próprios sentimentos infantis, a gente não só leva um susto danado com a intensidade de cada ato como torna-se uma nova mãe. E isso fez eu entender, pela primeira vez, a mensagem da Eleanor Luzes quando ela comentou neste vídeo que maternidade consciente é o autoconhecimento.
Enfim, soa filosófico demais...Meio papo-cabeça, e a sorte é que eu não usei a expressão "espiritual" para partilhar um pouco do que aprendi nesses 9 meses. CALMA! Prometo falar de outras lições mais objetivas... Antes, no entanto, vale ressaltar que tudo isso pra mim também é muito novo, prazeroso e, talvez, faça parte de cada desabafo da mãe-de-segunda-viagem que está prestes a nascer com a chegada da Clarissa na Terra.
Vamos ao que nos interessa: Cesárea ou Parto Normal!
Sair dessa dobradinha, sem dúvida nenhuma, foi meu maior aprendizado. Pela primeira vez, eu percebi que precisamos questionar essa mensagem de que NÓS, mulheres, somos quem escolhemos entre a cirurgia ou o parto????. KKKKKKKK!
Eu não acredito mais nisso.
E não é porque eu vou delegar minha responsabilidade à equipe médica, responsabilizar a ineficiência da política pública de saúde no Brasil ou não vou tomar rédeas do meu corpo. NÃO! Eu só tirei o peso dessa dobradinha ridícula inventada pela mídia, a indústria da saúde e apoiada pelo governo o dia em que descobri que a escolha não está na hora do parto, mas SIM durante a gestação. Na hora P o que manda mesmo é sua trajetória, sua verdade e sua relação com o imprevisível.
Você não escolhe Parto Normal ou Cesárea. O que você escolhe é o caminho para um desses resultados. Infelizmente, no Brasil, o caminho para ter um parto normal consiste numa luta em função de interesses econômicos e da cultura intervencionista dos obstetras, o que prejudica MUITO o preparo para o parto normal. Mas, no futuro, quando os brasileiros fizerem parte de uma sociedade avançada não haverá essa luta cansativa para parir e, aí sim, as mulheres precisarão fazer uma escolha de qual caminho elas trilharão para chegada dos seus filhos na Terra. Meu medo da cesárea só acabou quando eu descobri isso. Agora, eu sei que se houver cirurgia para a chegada da Clarissa é porque foi necessário.
Essa descoberta foi essencial para eu voltar para o caminho do parto normal que exige uma mulher voltada para o seu interior, seu corpo, suas potencialidades. Não dá pra se preparar pra isso, pensando nos procedimentos rígidos e sacanas dos melhores hospitais de São Paulo, no esquema padronizado da enfermagem, no descaso político do Ministério da Saúde com a ANS ou na formação dos obstetras...É hora de olhar para aquilo que faz a diferença. Ou seja, nós mesmas!
Vale registrar uma percepção. O olhar focado no medo da cesárea fez com que eu percebesse que na gestação da Malu não havia centenas de doulas como há hoje nem os esteriótipos tão fortes que a mídia e indústria da saúde criaram para rede dos profissionais humanizados. No ano de 2004, eu não tive chance de ler tantas polêmicas que amaldiçoavam o parto natural nem tantas mensagens institucionais que se apropriavam do discurso do parto humanizado pra vender cesárea. Também não encontrei o Mamíferas nem nenhum blog que desmistificava e informava sobre o Parto Humanizado. Descobri até que a primeira turma de doulas formada pelo GAMA foi no ano de 2005, confere?
Tudo isso faz uma diferença danada pra quem é gestante agora e deseja o Parto Normal porque, no mínimo, essa mulher terá chances de refletir mais e procurar mais as portas certas para essa luta. No passado, eu não tive chance de cair no link certo...Enfim, isso me faz pensar de que o futuro promete SIM nascimentos que vão mudar o mundo e mulheres que poderão trilhar seu caminho sem precisar tornar-se ativista e colocarem em risco seu próprio sonho. Logo, logo, doula vai fazer parte da listinha de qualquer gestante que deseja parto normal. E, detalhe, ela não terá dúvida do papel dessa mulher durante gestação. Que venha o futuro!Posts Relacionados:
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7 comentários:
Adorei o seu post. Precisamos mesmo dessa liberdade de escolha. Aqui na Alemanha é mais fácil o caminho para o parto normal, felizmente.
É esse direito a escolha e essa acessibilidade que é importante obter.
Bjo
Ceila querida, ler seu texto foi como fazer um mergulho rápido e profundo na minha própria trajetória de mulher, mãe e ativista. Vale lembrar que essa é a ordem em que as coisas aconteceram na minha vida, mas hoje sou isso tudo ao mesmo tempo junto e misturado... nada se separa.
Suas palavras foram certeiras, não consigo achar uma posição com a qual eu teria divergência.
Vamos juntas, irmã!
Beijos que aguardam pelas notícias desse novo nascimento em breve, não só da Clarissa, mas seu também!
Lindo! Passei por 3 gestações, 3 cesáreas e não teve comparação, e cada qual foi ao seu jeito, pois fui uma mulher diferente em cada gestação, carregando seres muito diferentes, que são minhas jóias mais preciosas, uma boa hora pra vc, que Deus lhe abençoe nessa nova jornada!!!
Cynthia
Adorei o post....e como mae de segunda viagem tbem sinto muito das coisas que vc escreveu....
Bjo.
OI, Ceila!
Sou muito ligada na experiência, porque sinto segurança. Fico apreensiva diante da surpresa, porque gosto do que me é familiar. Mas, em certos momentos, a gente deve sair da "zona de conforto" em busca de novos desafios. Ter um filho, passar pelo parto, é um deles, e não importa quanto a gente leia ou ouça, muita coisa é imprevisível. Até mesmo quando já passamos por isso. Penso que os aprendizados são maravilhosos, mas, para continuarmos aprendendo, também temos que nos entregar às possibilidades de tudo ser diferente. Isso também dá segurança.
Um beijo!
Obrigada pelo comentário, e tudo de bom na chegada de Clarissa!
Marusia
Olá,
Sei que sua Clarissa já nasceu, mas comentarei mesmo assim pois creio que muitas mães lêem os comentários e assim ficarão informadas. Também pesquiso muito sobre os procedimentos, mas fui além... como garantir que nada desnecessário seja feito sem o meu consentimento? a "solução" é protocolar um plano de parto (realista, pf) no momento da internação... eu disse protocolar, ou seja, leve 2 vias entregue uma e exija que a recepcionista escreva "recebi em -data-" e assine. Isso garante que o hospital foi informado de quais procedimentos não devem ser adotas deliberadamente, e como eles sabem que podem ser processados, provavelmente não o farão...
Oi Cacco, obrigada pela partilha. Não protocolei meu plano de parto, mas acho que essa é uma dica que pode ser importante para algumas mães SIM. Mas se eu pudesse aconselhar algo da minha experiência eu destacaria não a atividade que vc propõe, mas o resultado que ela pode ter para algumas mães. Ou seja, BUSQUE A SEGURANÇA. Durante a gestação, faça tudo aquilo que considera seguro pra vc. É importante que uma gestante sinta-se segura pra parir...Então, se a segurança pra vc vem de um terço, de uma doula, de um obstetra humanizado, da sua casa, de um hospital, da presença do seu marido, de um mantra, enfim, não importa O QUE desde que vc encontre a segurança pra acreditar em vc! Mas SEGURANÇA SÓ não basta é preciso saber que um parto é feito de imprevistos como ensina Marusia.
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