12 de abril de 2012

Infância Livre de Consumismo

Dois anos depois de uma roda de conversas entre blogs e muita troca de emails nasce o movimento Infância Livre de Consumismo. Muita coisa mudou de lá pra cá, mas parece que as perguntas (e outras coisitas mais) ainda continuam as mesmas. Hoje, os publicitários que eu vi em cima do palco no ano de 2010  resolveram levar seu discurso às redes sociais. Já parou pra pensar o porquê esses engravatados resolveram descer do palco?
Bem, eu resolvi investigar essa pergunta a partir da minha própria experiência. E, pra começar essa investigação, escolhi o link acima: Você pode se expressar mesmo que “não entenda”? 

A diferença da época em que eles diziam que os bebês autoritários eram quem escolhiam nossos carros porque nós, pais, não tínhamos poder de escolha está naquilo que os comunicadores chamam de Mensagem Sublimar... Agora, eles USAM do poder de mídia deles para se apropriarem do velho discurso do Alana - que desde 2006 luta pela regulamentação da publicidade infantil no Brasil - se colocando como responsáveis pelos direitos da infância, acusando os pais pelos malefícios do consumo e resgatando a justificativa da censura para defender a continuidade dos abusos publicitários. Ou seja, agora a coisa ficou MUITO mais complicada! Haja olhos atentos para perceber as complexas artimanhas, que ocultam os interesses do mercado publicitário.

Mas, por outro lado, o desafio de uma pessoa comum, como eu ou você, dar pitaco neste imbróglio acabou.  E ISSO não tem preço!!! Quando escrevi o post no ano de 2010, eu precisei vencer alguns desafios como: 1-Falar daquilo que eu “não entendo” porque não sou publicitária nem advogada; 2 -Descobrir onde estava a influência da publicidade infantil dentro de casa e 3- Não ter vergonha de colocar isso pra fora. Naquela época, era raro encontrar um post com esta temática na blogosfera materna, mas a união dessas oito mães fez a diferença porque deixamos de ser apenas algumas dezenas. Viramos trolls, elite pensante, radicais, chatas, mas também ganhamos identidades como movimento social, grupo de pais e mães, coletivo, ativistas. E, detalhe, ganhamos apoio. Ou seja, enfim nos tornamos cidadãos!
Eu tenho um orgulho danado de me reconhecer como mãe cidadã...Pra mim, esse caminho foi muito dolorido. E, se você tiver curiosidade pra entender essa trajetória, vale a pena destacar que a minha mudança pessoal só foi possível por causa dessas rodas de conversa virtuais. Seguem os links:
PAIS AUSENTES, eternamente...
Resolvi fazer todo esse resgate porque acredito que a minha experiência pode ajudar na sua reflexão. Mas, confesso, que a razão em buscar esse passado também acontece para lhe pedir ajuda. Eu não aceito esse discurso de que somos pais ausentes e, mesmo quando reconheço diversas atitudes que retratam o abandono dos pais pelos seus filhos, não atribuo essa ausência exclusivamente aos pais. Acredito fielmente que tal ausência é mais uma reação da família diante do que a história fez com ela do que uma escolha voluntária. SIM, eu acho que eu e você precisamos reconhecer URGENTE que somos vítimas de muitos atores da sociedade, independente se eu desligo a TV, e o meu vizinho, não.
  
O que eu aprendi nesses dois anos de reflexão e prática de controlar o consumo dentro de casa é que precisamos dar as mãos. Pra isso, a primeira guerra a enfrentar consiste em superar o discurso da ABAP que se apropria do discurso do Alana. Ou seja, sair das caixas que foram construídas  através da briga dessas instituições. Uma nos atribui o valor de pais conscientes porque mostra as vulnerabilidades existentes dentro do espaço privado pela invasão do mercado. A outra nos coloca como pais ausentes porque não conseguimos controlar essa invasão.  Mas, quem somos afinal?

Somos, SIM, ausentes, conscientes e muito mais, mas além de tudo, o que me liga a você é o fato de sermos pais. Independente se sua ação difere da minha, com certeza, temos os mesmos desafios e precisamos refletir sobre eles juntos. Por isso, eu lhe convido não só pra blogar hoje sobre aquilo que te aflige como também ajudar a construir essa cidadania, que passa pela busca da nossa identidade. E, ufa, pra fechar: já parou pra pensar os porquês foi tão fácil para a ABAP nos punir como pais ausentes? Ou, os porquês nos sentimos tão privilegiados quando nos sentimos conscientes diante da leitura dos arquivos do Alana?

Aqui, com meus botões, eu tenho pensado muito que algumas respostas para ambas perguntas estão na casa dos nossos pais, avós, bisávos...E, você, o que acha?

4 comentários:

  1. Ceila, adorei a reflexão sincera. De nossas fraquezas e incertezas que deram brecha para a manipulação por parte de quem não quer que a sociedade evolua. Mudanças sempre serão acompanhadas de queixas. E de dor. É o cérebro e outros interesses querendo se manter estáveis. Mas da crise vem o crescimento (acho que isso é do Piaget). Com todas as nossas falhas e erros, eu me sinto tão privilegiada de ter entrado nessa nave feliniana e linda que singra águas turbulentas, muitas vezes navega em círculos, mas não deixa de remar. Me sinto mais privilegiada ainda de ter conhecido remadoras como você. Obrigada pelo texto e pelos cutucões que não me deixam encostar. Bjs!

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  2. Se de toda essa "discussão" cada um dos envolvidos - pais, mães, ABAP, Alana... a indústria - entender que o mais importante não é apontar o erro, mas entender que o objetivo final é a criança e a proteção da infância acho que teremos atingido o objetivo. Não basta apenas regulamentar, não basta apenas ter olhos para fazer valer essa regulamentação, não basta apenas se um pai, mãe consciente... precisamos e tudo em sincronia, simples assim. E o trabalho é imenso e não está restrita apenas à minúscula camada intelectual que tem poder de discutir e decidir. Envolve um Brasil. Todos temos um papel a desempenhar, acho que chegou a hora de parar de apontar dedos e buscar essa transparência como um todo... ou seja, de um governo que olha para o núcleo familiar, de pais e mães conscientes e menos permissivos, de uma indústria menos abusiva, dessa guerra de poder ... Será que o que quero é utopia?

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  3. Nossa, Tais, vc consegue fazer a gente chorar até em comentários de blog?! Caracas, vai ser boa assim pra falar com coração da gente.
    Amiga, é uma honra imensa ver que leu a minha verdade pq eu exagero mesmo com a minha sinceridade do momento em que escrevo...Acho que o fato de termos ganho valores como movimento, coletivo de instituições nos tira do nosso rodar em círculos,
    das nossas buscas sem respostas...Acho que ganhamos um caminho que traz novas questões que são ainda mais dificeis de serem identificadas. Penso na fraternidade e individualidade, penso na ausência de informação e nos segredos que ainda dominam os processos políticos...Enfim, penso que é hora de celebrar, mas também de renascer!
    Bjkas e obrigada por me colocar no mesmo barco...é uma honra tremenda fazer parte disso tudo!

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  4. Não acho que é utopia, não, Susuca. Até porque o fato de vc e eu estarmos pensando nisso demonstra que essa energia está aqui e agora. Dizem que a gente é tão NADA que nenhum pensamento atual de q/q humano seja novo. A gente só capta o que está no ar...A diferença é que a gente escolhe o que quer captar...Qdo aquele pensamento começa ser escolhido por muitas pessoas, ele começa a se tornar realidade. Eu acho que muita gente vem falando dessa comunicação positiva, dessa autoresponsabilidade, dessa tolerância consigo mesmo e, consequentemente, com outro. E, o mais importante: desse alerta para a garantia dos direitos da infância...Então, não vejo como utopia, mas como um momento da nossa humanidade.

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