Há dois pontos muito comuns neste discurso de primeira viagem: dinheiro e obstetra. Eu não vivenciei o desafio financeiro na minha primeira gestação, o que me deixou extremamente alienada para a busca de informação alternativa. Eu tinha o obstetra mais-legal-amigo-honesto-gente fina-do-mundo do melhor plano de saúde e acesso a todas as maternidades-hotel-cinco-estrelas, com exceção do Albert Einstein. Resultado: meu obstetra escolheu a Santa Catarina. Pra mim, todas eram iguais: hotelaria perfeita e equipe médica altamente especializada. Não fazia diferença. Ou seja, naquela época, o lugar era algo inexistente, invisível, não fazia parte das minhas escolhas. Foi assim que eu nunca olhei para o ambiente hospitalar e jamais imaginava que existia a tal cultura intervencionista.
Tem sido assim que eu vejo que muitas mulheres ouvem a informação dos 90% de taxas de cesáreas das maternidades de São Paulo sem compreendê-la. Não há uma relação entre o parto que elas desejam com aquela estatística. Porquê, não? SIMPLES: esqueceu que a maioria deseja cesárea, esqueceu que esse é o tom de conversa entre você e seu obstetra, esqueceu que seu obstetra te coloca num lugar diferenciado porque você deseja parir de forma natural? Ou seja, a informação torna-se inversa. Ao invés da gestante ter um insight e se preocupar com a estatística, ela se conforta, se acomoda, se vangloria. Afinal, a estatística mostra que ela é diferenciada. Só existem os 90% porque é o que a maioria da mulherada quer...E aí você entra na alienação de vez!
ATENÇÃO: existe a estatística de que 70% das mulheres brasileiras preferem parto normal!!!!!
Naquela época em que eu estava 100% alienada não existiam as salas especializadas para parto normal com banheiras, aromaterapia e estrelinhas no teto. Sem dúvida, essa hotelaria especializada é um avanço. Mas a existência dessas salas podem ser uma faca de dois gumes: reforçar a alienação ou despertar para a existência de dois mundos. Vale lembrar que as maternidades recordistas de cesáreas não deixam visitar as salas especializadas e PROÍBEM utilizar as banheiras do quarto para parir seus filhos na água.
Então, a primeira lição que aprendi na prática é o lugar em que seu filho vai nascer não pode ficar nas mãos do seu obstetra. Quando você percebe isso tem a chance de se preparar para cada ambiente. É óbvio que a rede privada exigirá uma estratégia de defesa, enquanto a rede pública tem o abuso do soro e a violência no atendimento. É nessa hora que você precisa conhecer ambientes propícios para parir de verdade, mesmo que estejam localizados na favela como a Casa Angela.
Se você conseguir entender a importância do lugar fica muito mais fácil abrir os olhos para o amor incondicional com o obstetra. Sabe aquele sentimento de confiança, segurança e tranquilidade que a gente sente ao lado dele? Pois bem, eu demorei SETE ANOS para perceber que isso não era intimidade nem confiança e muito menos sinergia, mas pura subordinação.
Quando você tem a "CRENÇA" de que tudo vai dar certo e ainda tem alguém (o obstetra, a mídia e o marketing do hospital) que a coloca como "diferenciada" entre as pacientes só porque você deseja parir de verdade, você se sente a tal protagonista do parto, tão aclamada pelo movimento humanizado e pela mídia. Então, você nem percebe que aquele amado obstetra é um cesarista. Ele reforça a opção da cesárea no terceiro trimestre e você sai da cirurgia crente de que ela foi necessária. Afinal, você passou 12 horas induzida naquela maca, "tentando" o parto normal. "Ou seja, uma guerreira!"
Quando você tem a "CRENÇA" de que tudo vai dar certo e ainda tem alguém (o obstetra, a mídia e o marketing do hospital) que a coloca como "diferenciada" entre as pacientes só porque você deseja parir de verdade, você se sente a tal protagonista do parto, tão aclamada pelo movimento humanizado e pela mídia. Então, você nem percebe que aquele amado obstetra é um cesarista. Ele reforça a opção da cesárea no terceiro trimestre e você sai da cirurgia crente de que ela foi necessária. Afinal, você passou 12 horas induzida naquela maca, "tentando" o parto normal. "Ou seja, uma guerreira!"
Vi essa história repetir ao meu lado por mulheres que desejavam parir, mas não enxergava a importância de ter um profissional que a defendesse da cultura intervencionista e, por isso, não trocou de obstetra na 39 semana de gestação. Por outro lado, vejo muitas mulheres terem de enfrentar esse desafio entre as gestantes do GAMA e superá-los de forma redentora. Eu não tive olhos para enxergar a importância de participar de um grupo de apoio de gestantes na minha primeira gestação, talvez, porque eu me sentia protagonista do parto ao lado do meu obstetra-amigo-inteligente-amável-e-gentefina. Mas hoje eu sei que se você deseja ter um parto normal na cidade de São Paulo, conheça a Ana Cris! Ela é responsável pela mudança de muitos bebês paulistas chegarem ao mundo de forma natural. Vá às reuniões, participe da lista Materna e lhe dê a chance de entender melhor o desafio de parir no Brasil. Ou seja, se você realmente deseja ter um Parto Normal no Brasil, vai precisar lutar por ele.
ACORDE! Não é normal parir nos hospitais privados - leia-se também não é normal parir com os obstetras tradicionais. Isso não significa que precisa entrar em pânico, mas que existem pessoas que podem lhe ajudar nessa busca e elas não estão na mídia nem fazem parte da cultura intervencionista.











10 comentários:
Ceila, perfeito esse post! Eu posso contar nos dedos as amigas que iniciaram a gestação querendo cesárea - infelizmente, também conto nos dedos as que realmente conseguiram seu parto normal. E concordo plenamente que na nossa realidade, a mulher que deseja parir precisa ter garra para lutar pelo seu parto. Vamos trabalhar juntas para criar essa conscientização na mulherada - é só assim que essa realidade (obs)tétrica de 90% de cesáreas vai mudar. Abraço, Clarissa
Eu quero muito parto normal, mais vai ser numa maternidade publica então não tem muito o que escolher, mais luta eu vou lutar sim até o fim ;)
beijos.
Falou tudo!
Eu tive a sorte de lidar com um obstetra maravilhoso que se recusa a marcar cesárea e que fazia consultas semanais comigo para verificar se o Ernesto estava na posição para o normal, me indicou os exercícios, recebia meus telefonemas na madrugada atendendo o telefone ao primeiro toque quando eu tinha as falsas contrações no final. E quando a bolsa estourou o homem consegui chegar no hospital antes de nós, segurou na minha mão e disse: Fico com você até a hora chegar, mesmo que dure o dia inteiro. Infelizmente depois de horas nada de dilatação e fomos para a cesárea que foi humanizada. Achei lindo todo mundo saindo do campo de visão do bebê para que a primeira coisa que ele visse fosse eu e ele mamou ali mesmo. Não deu pq não deu, mas o o meu médico é o máximo :-)
Clarissa, que bom ver que essa realidade que percebo em minha volta também se repete por aí. Confesso que ao ver a nova pesquisa divulgada na mídia, que senão me engano é patrocinada pelos órgãos do governo, que busca "entender" a razão pela qual as mulheres querem cesáreas, quase fui influenciada por mais essa "invenção", achando que realmente eu fazia parte de um grupo de ETs. Mas é só blogando e conversando que a gente percebe que essas ações são fruto do descaso da ANS e do Ministério da Saúde que desde 2004 discutem como reduzir a taxa de cesáreas, investiram muito em pesquisas e campanhas, mas nem com uma ação civil tiveram coragem de agir com intervenção, fiscalização ou regulamentação nas instituições privadas. Pelo contrário, oito anos depois daquela campanha, encontros e reuniões que não deram em nada voltam a fazer o mesmo de novo. Ou seja, mais pesquisas em busca da informação que eles próprios ajudam a criar pela falta de política pública. Mas AINDA ASSIM há muitas mulheres que buscam o parto normal...só não sabem que essa busca significa uma luta. Valeu e conte comigo sempre para partilhar minha experiência e lutar pelos direitos das mulheres e da família.
Marina, se você puder contratar uma doula para te acompanhar na maternidade pública seria um meio de se defender do abuso do soro que tornou-se rotina na rede pública do Brasil, além dos maus tratos e da espera infernal...Vale lembrar que há muitas voluntárias entre as doulas do Brasil.Seguem os sites para informações: http://www.doulas.org.br/ e www.doulas.com.br
Bom parto!
Marceno Braga, valeu mesmo! Mas acho que a gente sempre fala pouco diante da avalanche de informações que temos feitas justamente para acreditarmos numa realidade difusa, construída e perversa com a humanidade.
Vanessa, que história linda e obrigada por partilhá-la! Abraços!
passei por 2 partos normais, o último foi até engraçado não queria repetir a 1ª experiência de ir pro hospital e voltar pra casa sem a dilatação suficiente porque eu fui aguentando, aguentando, aguentando até que pedi pra me levarem. No meio do caminho a bolsa rompeu e em exatos 3 minutos depois de eu chegar à maternidade a minha filha nasceu SEM ANESTESIA. na mesma noite eu já circulava pelo hospital, andava normalmente, tomei banho sozinha, ñ precisei da ajuda de ninguém, assim como no parto da minha filha mais velha. Foi uma experiência maravilhosa, prática, não consigo me lembrar da dor e sim dos momentos depois do nascimento delas, quando eu mesma pude cuidar, amamentar, dar banho.
Infelizmente a grande maioria dos médicos, principalmente os de convênio ou particulares acabam tentando convencer a mãe a optar pela cesárea por ser um procedimento rápido, o médico pode marcar 4, 5 cesáreas por dia, o trabalho dele fica mais fácil. Mas e pra mãe? Será q é preferível assumir o risco de uma cirurgia que corta camadas e mais camadas da sua pele, deixando cicatrizes e ás vezes retirando antecipadamente do útero um bebê que poderia esperar mais alguns dias para vir ao mundo?
Sempre vou indicar o parto normal, é um parto humanizado, natural, o bebê escolhe a hora certa de nascer (qdo não há riscos na gestação), o corpo se recupera mais rápido. A natureza é sábia e perfeita, pra que contrariá-la?
Noelle, muito legal seu relato...Eu tenho pensado muito de onde vem essa alienação feminina em relação à capacidade de parir, e acho que nem é mais o obstetra, a principal fonte desta mensagem de que "neste caso, não dá pra fazer o parto normal"...Sinto que o ritmo urbano já se apropriou da venda da cesárea, que é mais prática, mais moderna e, o mais importante, indolor...Talvez, o obstetra ajuda no discurso: "pra que sentir dor se há tecnologia que impede isso"...Fico impressionada com essa prevenção insana contra as dores como se elas fossem a grande maldição do século...E é tão fácil vender essa mensagem pq ela reforça outro mito da busca pelo parto normal, que é de transformar a sabedoria milenar em coisa do passado e retrograda...enfim, um baita motivo pra reunir mulheres de novo em busca da nossa liberdade!
Acabo de ler um post da Clarissa que complementa bastante este, segue o link: http://amaequequeroser.wordpress.com/2012/03/29/quer-dizer-que-voce-quer-parto-normal/
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