O Jornal da Cultura resolveu entrar na onda da gestação na semana do carnaval com uma série de reportagens e, lógico, que Parto Domiciliar entrou na pauta com a típica manchete jornalística: A Volta ao Passado! Quem trouxe a palavra-chave para reforçar a mensagem dúbia - Moderno versus Passado - foi Silvana Morandini (foto), representante do Cremesp. Ela resolveu classificar Parto Domiciliar como Modismo. Bingo! Era tudo que faltava pra carregar na mensagem do Parto Domiciliar bastante qualidades. Veja vídeo a partir dos 9h40:
Pensei em Fugaz, Fútil, associei com a ícone da moda e comecei a sentir raiva. Dra. Silvana, a senhora fez tudo bem direitinho, hem! Quer senso mais comum do que associar Moda, Ícone, Money com um bando de babacas seguindo o maria-vai-com-as-outras? Perfeito! Ainda mais depois da morte da ativista internacional, que trouxe pela mídia as expressões babacas e retrógrado... Cheguei até ouvir vozes como a de alexandresgarcias: Essa bobagem de parto domiciliar! Isso é coisa de quem não tem o que fazer.
Talvez, se o Jornal da Cultura tivesse ouvido um macho poderia termos frases-alertas que não carregasse tanto a identidade negativa do Parto Domiciliar, mas permitisse alguns insights como: ah, isso é coisa antiga da mulherada que inventa moda. Aí, talvez, teríamos chance de associar o modismo com alternativas e a história de luta do feminismo. Lógico, que ainda assim raros ouvidos entenderiam a mensagem, mas com certeza seria ouvidos treinados pela busca da consciência.
Mas não dá pra pensar em hipóteses, o Jornal Cultura escolheu bem as fontes e ainda ganhou a conotação de "jornalismo-do-bem" para algumas telespectadoras que apoiam o Parto Domiciliar.
Eu sei que não adianta gritar nem se revoltar...mas eu gostaria muito de partilhar com vocês um pedacinho da minha vida. Sabe, doutora, essa coisa de parto domiciliar não tem nada a ver com modismo, mas tem tudo a ver com a falta de contemporaneidade do ambiente em que você trabalha. Esse bando de mulherada só busca alternativa fora do sistema porque o hospital moderno não aceita a mulher parir do jeito que ela se sente melhor, sem intervenção, nem que os bebês chegam ao mundo naturalmente, sem anestesia nem aquela bateria de procedimentos invasivos e desnecessários.
Não é uma questão de moda, doutora, mas de escolha pela liberdade. E, caros jornalistas, não é uma questão de volta ao passado, mas de contemporaneidade. O contemporâneo exige o resgate da sabedoria milenar integrado com a evolução tecnológica nos ambientes urbanos. Para vocês terem uma ideia do quanto é complicado parir num hospital privado, vale a pena dar uma ligada como usuária para o call center das maternidades paulistas, principalmente, as recordistas de cesáreas. Há muita burocracia e, detalhe, a maioria dos profissionais encara o Parto Normal como anormal.
Eu precisei entrevistar o Ministério da Saúde e a ANS pra cair na real de que não há nenhuma intenção prática nem política para intervir na cultura intervencionista do sistema privado de saúde. Só depois que ouvi das fontes dos órgãos públicos - que gastam milhares em campanhas de partos humanizados - que não há nenhuma ação para criar um ambiente humanizado na saúde suplementar para quem deseja parir de forma natural é que eu consegui superar meu conflito interno da necessidade de investir numa equipe humanizada fora do plano de saúde. SIM! Eu me culpei muito porque acreditava que era um LUXO da minha parte investir numa equipe particular depois de 26 anos de mensalidades de plano de saúde.
Só assim, doutora, foi que descobri que os custos dos profissionais humanizados não eram um luxo, mas a única solução para quem deseja ter um parto normal após uma cesárea desnecessária em um ambiente hospitalar. E, detalhe, que a partir do momento que eu assumisse essa escolha dentro da tal modernidade eu me tornaria uma gestante militante. Agora, responda-me, doutora: a senhora acha certo uma gestante ter de militar na hora do parto?
*As fotos deste post foram retiradas do site oficial da Cremesp e do site Casa Moara.
As mulheres não são mercadorias, as mães também não
1 hora atrás












6 comentários:
Perfeito!
Compartilhei no meu Face, dizendo o que eu realmente acho que virou moda.
https://www.facebook.com/permalink.php?story_fbid=251051144978684&id=100001114958821
Bjocas
É, Ceila, se não nos impusermos, estaremos sempre nas mãos dessas pessoas. Meu parto foi em dezembro. Esperei até a 40a semana para tentar parto normal, mas ao nos aproximarmos do Natal tive que optar por cesárea. Minha médica viajaria - ela tinha me avisado desde o início da gestação. Topei fazer a cesárea, mas hoje penso que poderia ter insistido mais no parto normal. Espero que na próxima gestação tudo dê certo para isso!
Aqui na Holanda ou é parto natural (não "normal" - que pode incluir anestesia mas "natural") ou vai ser ... parto natural. Cesárea só em último caso. Um terço dos partos acontece em casa. O restante acontece no hospital, mas é natural na esmagadora maioria. As meninas já desde pequenas ouvem estórias das mães e vêem fotos do próprio nascimento. Há grande apoio da sociedade para o fato de que as futuras mães vão parir de forma natural. Esse apoio inclui o recebimento em casa de uma caixa com todos o material necessário para um parto de emergencia e os primeiro dias (pregador para o umbigo, paninhos, álcool, algodão, fralda para forrar a cama, fraldas para o nenén, toalhas umedecidas, etc.), cursos para a gestante, pre natal personalizado etc. Nasci em 1969 no Rio e já naquela época no Brasil minha mãe teve que colocar pé firme para dizer que iria ser um parto normal. O médico insistia de que "Cesárea é melhor para o bebê" e minha mãe replicava "Normal é melhor para meu bebê". Isso a cada consulta ela tinha que repetir. Foi firme e tinha apenas 21 anos. Teve tres filhos de parto normal e me preparou a vida inteira para tanto.
Acho triste uma sociedade chegar ao ponto de aceitar a prática de cesáreas de forma quase compulsória - o que faz do Brasil um campeão mundial de cesáreas DESNECESSÁRIAS !! Fui debochada por conhecidos no Brasil quando souberam que tive dois filhos de parto natural - parecia ao olhos deles que isso era uma prática de barbárie na Holanda. Ao contrário: fiquei num quarto com plantas, sofás, chuveiro, meu marido jantou ao meu lado durante as contrações, tive acompanhamento e apoio todo o tempo (nunca mais de uma parteira ou enfermeira por vez... parto não é circo, não precisa de expectadores). O segundo filho foi em 7 minutos de fazer força em casa mesmo, no sofá. As parturientes precisam assumir mais o controle dos próprios corpos. A sociedade como um todo precisa exigir menos medicalização antes e durante o parto.
Desculpa ter escrito tanto ! Sou prolixa :)
Anita, que delícia ter este relato maravilhoso entre os comentários: obrigada!
Infelizmente, o Brasil continua muito aquém de países desenvolvidos como a Holanda e pela conversa que tive com Ministério da Saúde e a ANS, devemos permanecer nesta "modernidade" por décadas. A sensação que tive é que o Parto Humanizado na prática para as próximas décadas trata-se de uma utopia que só poderá sair do âmbito do sonho se começarmos a agir com denúncias, além de continuarmos com os debates que já duram 12 anos entre as instituições responsáveis pela mudança. Enfim, o trabalho é longo e necessário.
Aqui na Alemanha a realidade também é bem diferente. As mulheres escolhem livremente entre parto hospitalar, domiciliar ou casa de parto e as três opções são cobertas pelo seguro saúde. Os partos são acompanhados por enfermeiras obstétricas/parteiras e, mesmo no hospital, há respeito pelos desejos da mulher e não são feitas intervenções desnecessárias nem na mãe, nem no bebê (as intervenções de praxe no recem-nascido é outro ponto que me revolta no Brasil).
Minha filha nasceu de um lindo parto natural, mesmo eu tendo sofrido uma cesárea anterior e ter apenas 2cm de dilatação após 15hs de trabalho de parto e 17hs de bolsa rota.
Temos que caminhar muito para chegar nesse ponto, não?
Adriana, cada desafio que vejo na minha caminhada pela busca do parto normal em um ambiente hospitalar aumenta minha certeza de que esse ponto, o qual você descreve está muito distante da nossa realidade brasileira. Chego, às vezes, ter certeza de que até minhas filhas não terão essa oportunidade de vivenciar um parto consciente sem essa militância e heroísmo que consiste a luta das mulheres brasileiras que querem realizar um parto normal no Brasil. Por outro lado, o fato de termos o caminho traçado por países desenvolvidos como modelo de humanização do parto já é uma esperança que precisa ser agarrada por nós em busca deste mundo melhor para nossos filhos. Muito obrigada pela sua participação!
Postar um comentário