Eu nunca tive medo de dor e, apesar de ter sido criada pela mídia que evoca o terror do parto, sempre achei lindo o ato de parir...Sempre imaginei que parir como uma mamífera era uma oportunidade de se tornar mulher, de conhecer um novo mundo. Ou seja, de conhecer a si própria. Quando lia sobre o parto de alguma mulher sentia que aquela experiência poderia ser um dos portais da vida, onde você se encontra consigo mesma, onde você se encontra com a essência do humano. Eu perdi todas essas expectativas quando fiz minha cesárea.
Naquele momento, nascia em mim uma experiência de tragédia onde senti extremamente perdida, com muito medo e uma dor profunda que até hoje me faz chorar...Eu não consigo falar sobre minha cesárea, eu não tenho detalhes técnicos sobre aquela cirurgia ( dilatação, contração, teve trabalho de parto, ou não, tirou tampão, ou não)...Sim, eu acho que criei um mecanismo de defesa para suportar AQUILO. Mas, e agora, eu tenho medo de quê?
Eu sinto pânico de acontecer de novo...E me sinto culpada, MUITO CULPADA quando escolho um hospital para ter a Clarissa. Mas eu não sei responder qual razão de não escolher o parto em casa ou nas casas de parto. Penso o quanto nunca associei meu apartamento como um lugar aconchegante para ter um filho e o quanto não suportaria ficar numa sala de espera com outras mulheres descabeladas esperando um quarto para ver minha filha. Eu vi isso acontecer em uma casa de parto e chorei de raiva. Eu não quero isso pra mim!!!
SIM, você tem razão: eu queria que os hospitais privados estivessem dispostos a receber mulheres como eu num quarto com MUITA privacidade, sem nenhuma intervenção, com muito respeito ao meu corpo e com a presença da minha doula, do meu marido e da obstetra que age como parteira. Eu queria que os hospitais fossem além do conceito de hospedagem-cinco-estrelas para mulheres de risco e oferecessem também um ambiente aconchegante para mamíferas. Verdade, você tem razão: isso é coisa de criancinha que fantasia a realidade...Isso não existe no Brasil!
Ufa! Descobri. Meu medo é acontecer de novo porque eu não escolhi ter em casa. Tenho pânico do ambiente hospitalar. Tenho medo de não conseguir me defender do ambiente intervencionista, de precisar brigar com alguma enfermeira, da cadeira de rodas, da ocitocina, da tensão de precisar escolher entre a doula e meu marido e, o pior, de ouvir: "não dá mais, temos de fazer uma cesárea".
Eu não suportaria ouvir isso de novo.
Racionalmente, eu sei que tenho um caminho longo para aceitar a cesárea necessária, mas emocionalmente, eu não quero tê-la de jeito nenhum. SOCORRO!!!! Como resolvo esse dilema, essa dor e esse medo?
O que não faltam são mãos estendidas para me ajudar: doulas, ativistas, obstetra, minha terapeuta, as gestantes do GAMA. Todas me trazem um olhar tão simples: entrega-se! Permita-se! Chega de tanto controle, chega de querer mudar o mundo para se encaixar nele...Verdade, mas descobri algo ainda mais forte: chega de querer fazer do jeito certo. Eu não dou conta de parir em casa.
Talvez, consiga superar a ideia de parir numa casa de parto, mas meu lugar é o ambiente hospitalar. É um lugar inóspito para que eu quero, mas é o lugar que eu consigo agora. Tenho medo dessa escolha, muito medo, mas eu preciso ser responsável por ela. Eu preciso respeitar meus limites porque não há tempo de vencer tantos preconceitos arraigados dentro de mim. Não basta entender racionalmente que o melhor é parir em casa...Preciso entregar-me a isso no tempo da Clarissa, que é bastante diferente do meu. Pode ser que o meu tempo não seja suficiente para superar tantos preconceitos. Então, lá vou eu visitar os hospitais em busca do meu parto normal! E, você, como tem enfrentado seus medos?
As mulheres não são mercadorias, as mães também não
1 hora atrás











8 comentários:
Oi, Celia. Eu entendo perfeitamente o que vc quer dizer. Meu filho nasceu de cesárea e, apesar de não ter sentido dor alguma, senti algo que não quero mesmo sentir novamente. No proximo vou fazer de td para ser normal. Acho que o basico é vc confiar na sua medica e na equipe dela e deixar claro o qnt isso eh importante para vc. Se nao esta preparada para fazer em casa, esqueça isso. Pense que, neste caso, não é uma opção. ;) Vai dar td certo!! Beijos
Ceila, eu acho que, com o médico certo, você estará protegida de grande parte das intervenções desnecessárias, porque a verdade é que o médico é quem manda: ele é o cliente do hospital e se ele disser que a paciente dele não deve receber x, y, z, o hospital acatará. Pelo menos é o que dizem das maternidades cariocas. Tem uma que não aceita doula, mas mesmo assim, o médico consegue colocar a doula para dentro da sala de parto (se possível). E eu sei que em SP tem maternidades ainda mais abertas ao modelo humanizado do que aqui.
Eu acho também que a melhor escolha é a escolha possível - não se culpe por não estar disposta a ter um parto domiciliar. Isso não diz nada sobre suas convicções mamíferas. Boa sorte no grande dia e parabéns pelo lindo nome escolhido (hehe, sou suspeita...)
Bjo,
Clarissa
Muito obrigada Julia e Clarissa pelo apoio e a dica em relação a escolha do médico. Estou aprendendo a ver o "problema" do hospital como um lugar possível e percebendo a tênue diferença entre confiar na equipe e delegar minhas decisões para o obstetra: obrigada!
Clarissa ( lindo nome!!!) aqui em SP só tem uma maternidade que está abrindo devagarinho as portas para os profissionais humanizados, mas meu plano não cobre esse hospital. Sobrou pra mim justamente os hospitais que criam burocracia para entrada de doulas e não tem muitos médicos obstetras humanizados conveniados. Por isso, existia o medo. Mas to aprendendo que o jeito de superá-lo é saber o que posso fazer agora e o que vejo como ideal...
Ceila, Acho que eu passei por isso que vc está falando também! Enquanto a sociedade toda está imersa na cultura do medo da dor, do natural, do controle do corpo sobre a mente, que superdimensiona certos riscos e ignora outros, a gente passa pelo avesso da situação. As intervenções entram no controle sobre nosso corpo e não temos em nenhum momento a oportunidade de ver o corpo trabalhar, ficando com uma leve promessa de sua perfeição. Uma gosto de perfeição roubada. Ai a gente acaba ficando com medo da tecnologia atrapalhar tudo, do excesso de recursos que um hospital pode oferecer e com medo de estar desperdiçando esses recursos se não precisar de nada em um local assim. Mas acredite, é possível ter tudo isso a mão num hospital e não usar! Com relação a casas de parto, também conheci experiencias muito boas, com acolhimento e privacidade (há muitos relatos na net). E quanto a sua casa, na verdade vc não tem muita escolha. Os partos na maioria das vezes começam em casa. Certamente passará um bom tempo do seu trabalho de parto lá. O que muda é só o final. Aí vc pode ainda escolher se depois de iniciada a dilatação continua em casa ou vai para outro lugar finalmente conhecer sua filha. O mais legal é que a gestação dura nove meses e vc tem até lá para resolver essas questões! Acredite, vc tem tudo para ter um parto LINDO! Parabéns pela coragem e clareza ao escrever sobre tudo isso" bj Adri Natri
Ai Ceila que difícil hein?
Eu fiz 3 cesárias, mais na verdade nunca me senti preparada para um parto normal em um hospital, medos e mais medos crescem dentro da gente quando estamos grávidas, e não tinha o opção do parto em casa, se tivesse eu teria tido pelo menos o Adrian em casa que foi o meu primeiro e o único que entrei em trabalho de parto, mais fui para o hospital e o médico que nos acompanhava me indicou a cesária por ter riscos para o bebê, fiz, não me arrependo, dai veio o Benjamim, e com 40 semanas o moço estava sentado, marcamos a cesária, nesse dia fiquei triste, porque naquele momento sabia que jamais passaria por um parto normal, mais essa tristeza passou e tive a Analuíza também de cesária , já que não havia opção, mais tenho fé que tudo dará certo com você e estarei orando para que sua procura por um hospital humano seja válida e que seus medos cessem até o fim da jornada!
Um grande Beijo
Ceila ja' que voce perguntou eu vou responder. Hoje meu maior medo e' pensar num segundo parto. As vezes acho que nao vou dar conta... mas queremos muito um outro bebe, entao eu fico dividida.
Obrigada pela visita e pelo comentario la no blog, nao esperava e foi uma surpresa e tanto, adorei.
Agora posso te contar algumas coisas que eu vivi e que me fizeram a melhorar muito com relacao a tentar ter controle de tudo (hoje estou 50% melhor, mas ja fui muito pior).
Eu tinha meu plano de parto, que nao serviu para nada, porque eu descobri 15 dias antes da data do meu parto, que a parteira que me atendia, nao fazia parto.
So' pensei e agora, respirei fundo e entreguei para Deus (to sendo muito sincera e deu tudo certo).
Eu tambem nunca quis cadeiras de rodas, mas depois de passar horas com a bolsa rompendo (minha bolsa nao rompeu de uma vez, foi saindo liquido aos poucos) qdo cheguei no hospital me ofereceram uma cadeira e eu nem pensei 2 vezes, estava cansada. So que chegando no andar da maternidade uma parteira me acolheu e me convidou a andar, que seria melhor para a evolucao do parto, e foi mesmo.
Nunca quis anestesia, mas depois de algumas horas nao tava aguentando mais e pedi, so' que nao tinha mais tempo, o trabalho de parto ja estava avancado e o bebe coroando (nao tinhamos tempo, literalmente).
Disse na maternidade que nao queria episotomia, ja que meu plano de parto nunca foi lido - acho eu - so que precisei levar um pique, por ter tido um menino grandao (Nicolas nasceu pesando 3,980kg) e sobrevivi.
Eu quis te contar tudo isso, porque infelizmente nos nao temos o controle de nada no nosso parto, se ficarmos so' no racional a coisa nao evolui e se nos entregarmos, temos que confiar. Confiar no nosso corpo e na equipe. Eu confie de olhos fechados em uma equipe que eu nem conhecia, mas deu tudo certo, porque eu confiei principalmente em Deus e em meu corpo.
Tenha fe, vai dar tudo certo e entendo perfeitamente suas angustia, estou aprendendo muito com voce, nesse seu caminhar rumo a um parto mais humanizado.
Abracos
Gra
Oi Adri Natri, obrigada querida por trazer à tona esse medo do intervencionismo da cultura médica...Não tinha percebido ainda que me culpava pelo fato de não usar aquilo que virou sinônimo de moderno...Vc me fez pensar muito nas dicotomias que se criam para as mulheres interpretarem o parto normal como uma ação arcaica e negativa e a cesárea como uma ação moderna: thanks forever!
Cynthia, obrigada pelo comentário e apoio. Só fiquei em dúvida a razão pela qual a Analuiza também foi cesarea. Vc não tentou parto normal na terceira gestação porquê?
Gra, obrigada por partilhar sua experiência e relembrar da importancia de sairmos do controle/pensante/cabeça para deixar se levar pelo corpo e pela alma. Eu não tenho dúvida de que a claridade da Clarissa ilumina justamente esse caminho na minha vida: obrigada!
Ola Célia, tudo bem?!! Entrei no seu blog hoje pela primeira vez e estou amando...vc é esclarecida em suas idéias e muito bem articulada, PARABÉNS!!! Queria compartilhar com vc a minha dúvida pq achei que só eu passava por isso, mas vi que não, graças a Deus, rsrsrs!!! Bom, tive meu primeiro filho de cesárea, senti contrações não tinha dilatação e não estava no tempo dele nascer, então o médico me aplicou injeção na veia e me mandou pra casa. Mas alguns dias depois marcamos a cesarea eu fui achando que seria tudo perfeito...engano meu; tive o Pedro 12:30 e algumas horas depois voltei pro quarto com uma tremedeira e uma fraqueza não muito normal, uma sensação de desmaio. As enfermeiras viram que eu estava pioando e piorando ate minha pressão baixar pra 6 e eu desmaiar ja sem força nenhuma...poderia ter morrido; tive uma hemorragia interna pq meu útero não contraiu o suficiente pra expelir o sangue. A enfermeira subiu correndo com uma ginecologista de plantão e me fizeram uma massagem pra expelir os coágulos de sangue que eu posso te garantir doeu mais que uma contração. Essa massagem me salvou, graças a Deus. Depois disso fiz transfusão de sangue, dóooi muito, tomei duas bolsas e fiquei 4 dias internada. Fiquei traumatizada!! Hoje estou no meu oitavo mês de gestação do meu segundo filho, na vdd uma menina "GIOVANNA" e o meu médico, o mesmo do premeiro filho, não é muito a favor do PN e me poem medo...minha fam´´ilia tb não me apoia muito por não acreditar em mim, fora o meu medo de tudo...não queria a cesárea pq tenho medo de passar tudo denovo, mas tenho medo do PN...to perdida amiga, nem sei o que pensar nem o que fazer...to desesperanda achando que se fizesárea vou morrer...ta difícil!!! Mas se vc for corajosa faça normal sim e que Deus te abençõe. Bjosss da sua mais nova leitora!!
CAMILA / BAURU
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