
Quando escuto
Lady Day cantando
What a Little Moonlight Can Do, leio esse
poema de
Maya Angelou, ou lembro das obras de
Tomie Ohtake,
Frida Kahlo ou dos murais de
Diego Riviera… me pergunto, quando raça teve alguma coisa a ver com talento, inteligência e superioridade? É insano, não? Não é preciso especificar, apontar… a prova está ai… nas bibliotecas, cds, dvds, livros e museus. Não existe raça superior, nunca existiu.
Mas porque, então, ainda falamos sobre racismo, preconceito em 2011? Eu acredito que é algo interiorizado, não discutido que passa de geração para geração. Se não discutimos, como então desmitificá-lo? Racismo, quando falo, não é apenas em relação ao negro, amarelo e vermelho. Judeus, muçulmanos… a lista é grande, não importa a cor. É exatamente por ai que comecei a explicar para meu filho, ainda pequeno, sobre preconceito, racismo,
RESPEITO, aceitação e
TOLERÂNCIA.
E exemplos no dia-a-dia, acreditem, não faltam. Na minha última viagem para Bruxelas, o avião atrasou duas horas para levantar vôo. Problemas técnicos? Não… pelo acaso do destino, acabaram sentadas lado a lado uma mulher judia e uma muçulmana. A passageira judia se recusou a viajar ao lado da passageira muçulmana. O avião estava lotado. Não havia outro lugar. Comissária correndo pra lá e pra cá. Duas horas depois… foi decidido que a passageira judia se sentaria no lugar de um dos comissários enquanto a muçulmana ficaria no próprio lugar, mas sem vizinhos. Ótima oportunidade pra falar com Tomás, mais uma vez, sobre preconceito, racismo e, neste caso o mais importante, tolerância.
Eu, confesso, ainda aprendo diariamente sobre tolerância. Apesar de não aceitar uma religião que coloca a mulher num lugar tão submisso e baixo, sou tolerante. E não permito que outras pessoas falem mal dos muçulmanos perto dos meus filhos. É um exercício diário e, sim, exige esforço e vontade. Quanto mais aprendo sobre o
alcorão, mais confusa fico, mas isso não me dá o direito de criticar ou humilhar quem acredita e segue. A
campanha da UNICEF, que a Ceila está ajudando a divulgar por meio de uma
blogagem coletiva entre blogs de mães, é inovadora no sentido de incentivar os pais a falarem de um assunto não tão agradável, que envolve sentimentos que não queremos nunca admitir que sentimos.
Adianto que é um trabalho diário e que exige atenção constante. São comentários cotidianos ou olhares suspeitos. Você pode achar que seu filho não percebeu, mas está enganada… seu filho está aprendendo com você, diariamente, o que é preconceito, racismo indiretamente. Ter essa consciência, adianto, só beneficiará seu filho. Tomás tem cinco anos e NUNCA escutei ele se referir a um amigo por suas características físicas. E isso pra mim, que na infância fui
neusa, japoneusa, sarakura, é uma vitória. Hoje, trabalhamos um pouco além do racismo… trabalhamos OPÇÃO, ACEITAÇÃO e TOLERÂNCIA. Comprei o livro
My Princess Boy para ele… quem quiser dar esse passo além, aconselho!
Racismo é ódio…
e que mãe no mundo quer ensinar ou deixar o filho a odiar? A hora é essa… vamos acabar, uma mãe por vez, com o ódio que ainda existe no mundo.
Topa?
Passado ou presente?Vale a pena ler (e ver vídeos) os resultados dos dois estudos abaixo para entender o papel da mãe na educação do filho quando o assunto é racismo e preconceito. Em 1940, os psicólogos americanos
Kenneth Clark e
Mamie Clark conduziram um
experimento utilizando bonecas brancas e pretas para estudarem a percepção das crianças em relação à raça. No estudo, conduzido em duas escolas americanas - segregacionista (Washington, DC) e anti-segregacionista (New York) – foi concluído que as crianças expostas à segregação haviam internalizado o racismo e por isso preferiam a boneca branca, atribuindo a ela características como bonita e boa, enquanto a boneca preta foi preterida e caracterizada como feia e má. Em 1954, esse estudo teve grande influência no caso
Brown vs Board of Education of Topeka, no qual foi concluído que a segregação racial nas escolas americanas públicas era inconstitucional. Na ocasião, o juíz
Earl Warren apontou que:
Separar simplesmente por causa da raça gera sentimento de inferioridade e reduz a importância dessas pessoas na comunidade, afetando para sempre suas mentes e corações
Anos depois… em 2005, a estudante americana
Kiri Davis repetiu o experimento para seu documentário
A Girl Like Me e comprovou que, apesar das mudanças na sociedade atual, os resultados foram semelhantes ao do passado: 15 das 21 crianças entrevistadas escolheram a boneca branca, atribuindo a ela características como bonita e boa; enquanto a boneca negra foi preterida e caracterizada como feia e má.
Outro estudo, que faz parte de uma
reportagem produzida pela
CNN em 2010, também
mostra que a maioria das crianças tem preferência pela boneca branca, trazendo à tona a discussão sobre a influência dos pais na decisão dos filhos em escolher a boneca branca ou preta. A
psicóloga afirma que para muitos pais, como lembra a Ceila, o assunto não é fácil de se trazer à tona por causa da complexidade e, também, por não ser um assunto agradável. Mas, como adultos, somos responsáveis em orientar as crianças que são um reflexo de como agimos. Também de acordo com a reportagem, as famílias interraciais são as que mais falam sobre raça já que precisam preparar os filhos para lidar com o assunto no dia-a-dia.