Soa tão antigo a expressão "dupla jornada" que torna-se banal dizer que esse fenômeno ainda faz parte da nossa realidade...Pelo menos essa é a minha sensação quando escolho tal título para finalizar a sessão de entrevista com o sociólogo Gustavo Venturi, que coordenou a famosa Pesquisa Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Público e Privado.
Meu desejo era ter um título que a assustasse, que a deixasse totalmente em pânico e louca pra fazer alguma coisa agora, mas como diz Marina Colasanti: a gente se acostuma! Então, tive que me contentar com a "Dupla Jornada Continua" e tentar lhe convencer o quanto essa escolha é absurda.
Eu vivo a múltipla jornada, mas de um jeito ainda mais simbiótico porque escolhi dedicar mais tempo à maternidade sem poder deixar o trabalho e ainda lidar com a paixão pela profissão. Ou seja, sei o quanto é complexo dialogar sobre a "dupla jornada" dentro de casa. Mas, ATENÇÃO, fora de casa...é muito, mas muito pior.
Fora de casa, a "dupla jornada" vira piada, brincadeira ou algo distante, tão distante que não faz parte da sua vida. Aí você não entende o que isso tem a ver com feminismo, maternidade, bolsa família, salário, educação ou qualquer outro assunto que demanda política pública. E o pior você não entende o que você tem a ver com isso. Talvez, também, por isso, seja tão complicado se envolver em movimentos feministas...
Eu não conheço nenhuma mulher que não defenda a autonomia feminina e olha que conheço muitas mulheres mineiras, do interior, acima de 50 ou 60 anos, que têm um jeito de viver completamente diferente daquilo que é considerado moderno e urbano. Vale ressaltar que entre as mulheres que conheço há também aquelas que seguem os perfis das mais globalizadas e cidadãs do mundo. No entanto, não consigo contar nos dedos de uma só mão, quantas delas se identificam como feministas. Porquê????
Posso responder por mim...Minha ojeriza ao feminismo começou no mesmo instante em que surgiu meu interesse. Só fui pensar sobre feminismo quando me tornei mãe. No inicio, senti medo dos estigmas porque me colocava do lado oposto das feministas...No meio do caminho, compreendi que agia assim em função da história política das mulheres, que precisaram brigar com a maternidade para trabalhar fora. Hoje sinto que temos o papel de inserir a maternidade que temos dentro de casa no feminismo.
Sem isso, as feministas continuarão lutando somente pelas prioridades e pela maioria. E mais uma vez vamos continuar dentro de caixas. Não há uma única solução para a dupla jornada. Ela precisa de diálogo com o marido, com a empregada, com o chefe, com a comunidade de mulheres e com governo. Ela não só começa dentro de casa, mas principalmente no debate entre as diferenças da mulher e do homem dentro de casa.
Não dá pra brigar pela licença-maternidade sem inserir a paternidade nesse processo. Não dá pra pensar em igualdade de salários sem inserir a mudança cultural dentro de casa. E, definitivamente, não dá pra lutar pela redução da dupla jornada sem as mães dentro dessa agenda política. Por isso, convido a todas blogueiras a pensar sobre isso, blogar se der vontade e tentarmos juntas fazer diferente. Pra isso, convido a ouvir e ver o último vídeo da entrevista com Gustavo Venturi sobre a manchete do jornal Metro, que dizia que Três em cada 10 mulheres deixaram o trabalho para cuidar dos filhos:
PS: Esse vídeo faz parte de uma entrevista realizada no decorrer do mês de abril de 2011, cujos demais vídeos podem ser vistos nos posts abaixo:
Violência contra a Mulher começa em casa
Parto Humanizado reduz a violência contra a mulher
Quando nos apropriamos também somos responsáveis
Há uma hora










5 comentários:
Sem dúvida, essa questão mostra como são ilusórias as sensações que temos sobre muitas conquistas das mulheres. Tantos problemas relacionados a algo tão básico como a oferta de condições para um cuidado dos filhos de forma digna e compartilhada em pleno século 21 é assustador. E vão desde à crua e cruel realidade do mercado de trabalho à estupidez de nossas relações atravessadas por preconceitos. Belo trabalho!
Olá, Ceila!
Desde q vc publicou esta postagem eu queria ler e não tinha tempo. Trabalho fora de casa o dia todo e em casa não consigo tempo p/ a net, nem nos findi. Aliás, até fico na net, mas não dá para pensar e muito menos escrever. Agora mesmo, estou no trabalho, horário de almoço, salvando no Word, vou mandar por e-mail p/ meu marido e pedir que ele publique para mim.
Mulher, sabe qdo vc lê um poema e diz “É assim que eu penso, só não sei dizer assim” Pois é como me senti lendo suas reflexões em relação às negociações que precisamos fazer para sermos mães ativas. Não se trata apenas de trabalhar fora e dentro, ou fora/dentro, ou seja como for. A responsabilidade pela criança não é somente da mãe ou daquele núcleo familiar e a gente não pode seguir como se as coisas não precisassem ser mudadas. Há tempos quero escrever um post sobre as babás, já vinha pensando nisso e a luta de uma amiga para conseguir uma babá me fez pensar em escrever. Daí li uma matéria na Crescer do mês passado e vou citá-la no texto. Vou tentar linkar esta ideia com a tua postagem, vejamos como fica.
Em casa, vejo a entrevista.
Comprei a Crescer ontem e depois de ler a supermatéria que trata do tema desta postagem vou publicar tbm sobre o tema.
Oba, Patrícia, bom saber que vem post por aí...
Sérgio, muito obrigada pela visita e comentário: acho crucial que abrimos os olhos para duas coisas que vc traz:a crua e cruel realidade do mercado de trabalho à estupidez de nossas relações atravessadas por preconceitos. Obrigada! Volto em breve!
É muito lindo ver q ñ estamos sozinhas nos pensamentos e tormentos em um mundo onde somos cobradas o tempo todo. O tormento q ronda minha mente ñ é só o fato de ser uma boa mãe e sim como ser uma mãe presente, sendo q ao mesmo tempo tenho q estar em vários lugares e fazer várias coisas de uma só vez. Me identifico muito c/ td isso, mas ainda fica no meu consciente uma culpa ou uma preocupação. É td muito confuso esse emaranhado de sentimentos q uma mãe pode ter. Por isso adorei o nome do blog e a saga das mulheres q são simplesmente "mães". Alynne Brito
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