Foi na Conferência da Mulher que descobri a importância das Casas de Parto para a humanização do nascimento. Só diante daquela diversidade de ativistas percebi que a carência mais básica da vida não é atendida no Brasil. Enquanto enxergamos a cultura do medo, a ganância de profissionais, o lucro da indústria da Saúde para dificultar o parto normal não percebemos a falta de ACESSO. Não há lugares feitos para parir no Brasil. Nenhum político nem entidade luta pela existência de Casas de Parto no Brasil...
Não é só pela eterna ineficiência política, pela burocracia infernal e pela corrupção absurda, a inexistência das Casas de Parto no país retrata também a nossa cegueira, nosso umbiguismo e uma certa preguiça dos profissionais que podem dar o pontapé inicial nesta briga política na área de Saúde Pública. Mas pra quê lutar por algo tão "improdutivo" e, detalhe, tão arriscado?
"Improdutivo": casas de parto não são reconhecidas como demanda dos cidadãos que conversam com os candidatos. Sim, a periferia luta pelos seus direitos, participa das conferências, grita, apesar de nem sempre subir no palco e tornar-se as líderes das entidades. Os líderes continuam sendo a classe média.
Lutar pelas Casas de Parto implica em abrir os olhos da sociedade...Afinal, num país onde a Saúde Pública é um descaso político, o sonho de quem não paga um plano de saúde é ter um hospital com médico, e de quem paga é ser atendido por um médico mais humano. Ou seja, a carência em respeitar o outro é comum. Por isso, muito mais fácil falar em Humanização do Parto do que mudar a estrutura de acesso da saúde pública e privada do Brasil....Como lutar por Casas de Parto em um país que falta hospital?
Essa força concentrada no discurso traz também distorções absurdas como a dicotomia cesarea versus parto (tão presente na blogosfera e na mídia), o descaso de profissionais de saúde com as gestantes do sistema público que nem sempre estão prontas para parir e a falta de salas de parto nas maternidades do sistema privado. Eu não sou contra o discurso da Humanização do Parto, mas acho que sozinho ele não resolve. É preciso que haja ação política. É preciso construir casas e criar lugares para parir... Cadê as maternidades privadas feitas para parir?
Eu nunca ouvi falar de nenhum lugar feito pra parir que fosse um serviço privado. E, cá entre nós, precisa lembrar do estigma do medo que invadiu o sistema público de saúde? É uma vergonha o quanto o discurso do medo tornou-se maior que o investimento que é feito nas universidades públicas do Brasil. Enfim, minha descoberta foi ainda muito recente...Só percebo nossa cegueira que precisa ser investigada, nosso umbiguismo que precisa ser eliminado e nossa eterna preguiça que precisa ser espantada...É com essa percepção ainda bruta que participo da blogagem coletiva desta semana do Parto do Príncipio que traz como tema principal o Respeito à Criança. Eu acho que o respeito à criança não começa só na hora do parto, pela mãe, a família e os profissionais de saúde...NÃO! Chegou a hora da sociedade também se responsabilizar pelo nascimento das nossas crianças e acordar pela necessidade de uma política pública que garanta lugares feitos para mulheres parirem. Nossas crianças também precisam disso!
Veja abaixo os blogs que participam da rede Parto do Princípio:
Cientista que virou Mãe
Mulheres Emponderadas
Mamíferas
Maternamente
As mulheres não são mercadorias, as mães também não
1 hora atrás










4 comentários:
Oi, Ceila! Quanto tempo!
Eu passei por esses mesmos questionamentos que vc nessa segunda gravidez, em que busco um parto humanizado e fora da rede hospitalar. Terei que mover mundos e fundos para conseguir, estou no caminho, mas me pego pensando que não deveria ser assim...o nascimento humano, algo tão primordial, deveria ser prioridade. O bom atendimento às parturientes e aos recém natos, também. Mas não é a realidade da imensa maioria da população.
Mas isso não é apenas culpa do poder público, que atua sob demanda...é como vc disse: nossa falta de informação, nosso comodismo e nossa visão distorcida do que seja melhor para nossa saúde e do BB, aliados ferrenhos da máfia da cesárea, acaba por dificultar essa demanda.
A maioria não tem acesso à informação...das pessoas que tem, muitas não buscam, preferindo Beabá do médico...sobram as ativistas do parto natural e humanizado, que com seu trabalho de formiguinha tem sido as grandes responspaveis por algumas mudanças na obstetrícia do país, principalmente nos grandes centros. Mas estamos longe, muito longe do ideal.
Beijos,
Nine
Em Pernambuco é uma cidade (infelizmente, esqueci o nome) que justamente pela falta de hospital e pela existência quase milenar de parteiras ganhou uma estrutura de cuidados com gestantes e seus bebês. As parteiras foram capacitadas pelo Governo, gozam da confianças das famílias e o índice de mortalidade infantil diminuiu bastante desde o início do projeto.
O problema de tudo é a falta de vontade política. E quando o assunto é "coisa de mulher" então aí já entra o preconceito, aí danou-se!
Mas, ando me perguntando: o que podemos fazer efetivamente sobre os assuntos que discutimos aqui? Sobre este, especificamente...
Nine, querida, acabei fazendo uma pesquisinha rápida nas maternidades desejadas pela classe média pra ter ideia dessa proporção. Pasme, minha amiga, no Santa Catarina onde fiz minha cesarea só tem uma sala destinada a parir, o restante é pra fazer cesarea. Se tiver uma sortuda parindo no Santa Catarina e sua bolsa estourar vc não terá o local adequado pra parir naturalmente a nãos er que vá pra uma sala de cesarea...Louco, né.
No São Luiz tem tres salas chamadas delivery...eles não me revelaram o restante feito pra cesarea, mas deve ser dezenas, com certeza.
Eu confesso que me sinto totalmente INCAPAZ de ter um parto normal diante da luta necessária pra realizar esse sonho no Brasil.
Patricia,
Acho que a falta de vontade política não pode ser barreira pq tem mta coisa que a gente pode fazer...Também não vejo mais que o preconceito pode nos barrar...Estamos na crista da onda e hj há mto mais oportunidade que desafio pra mudar a história das mulheres.
Mas, tentando responder a sua pergunta: o que podemos fazer de fato?
Gritar, amiga...Sei que milhões de assinaturas valem proposta na área política...Precisamos desenvolvê-la para encaminhar uma proposta da sociedade para a Secretaria de Politica das Mulheres...#comosefaz?
Não sei, mas não tenho dúvida de que podemos descobrir e realizar uma ação. E ela começa dentro de nós: questionando, gritando e blogando...Vou levar essa ideia para Facebook para o grupo de quem defende o parto humanizado e prometo voltar com um primeiro passo, tá!
Oi Ceila,
Muito interessante esse post. Eu sempre me perguntei isso.
Moro em Londres e tive uma filha pelo sistema de saude publico daqui que, por sinal, praticamente toda a populacao usa. Eles tem um atendimento muito mais basico e funciona bem.
A midwife (vou traduzir como parteira) faz todo o servico e o medico so intervem se tem algum problema. Tem o que eles chamam de birth centre (centro de nascimento) dentro ou fora dos hospitais e eh um parto bem mais natural, menos clinico, digamos assim.
Comecei a escrever um blog recentemente sobre a minha experiencia por aqui. Deixo aqui o link www.maeamil.wordpress.com.
Um abraco,
Cecilia
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