A diarista sumiu
de novo. Perdi a Lucinha há dois anos e, desde então, tento ganhar consciência da servidão, da responsabilidade doméstica e do convívio familiar. Nem tenho idéia de quantas diaristas já passaram por aqui e quantas vezes queria literalmente morrer pela ausência de uma empregada. Estou de novo sozinha com uma casa que grita muito menos que no passado. E ela só grita menos porque a ausência de outro me obrigou a olhar pra dentro.
Lição 1: Precisamos aprender a ser companheiros!!!
Aprendi a aceitar mais a ajuda do outro, mas ainda cobro muito de mim, principalmente, as tarefas que resolvi "odiar" como fazer comida ou passar roupa. Percebi também o quanto faço muito mais que ele. Essa divisão de tarefas, talvez, seja o desafio mais comum da maternidade. Existe uma força absurda a favor do homem na hora da cobrança.
Responda-me:
como aquela que é obrigada a "impor" uma divisão de tarefas mais justa apóia aquele que faz menos? SIMMMMM!!! EU NÃO SEI VOCÊ, MAS EU AINDA COBRO DE MIM AS TAREFAS DO PASSADO. Além da cobrança do outro (s), a gente também se cobra mais de nós mesmas do que deles a ponto de acreditar que tem coisas que só mesmo uma mulher sabe fazer.
É engraçado como as tarefas comuns permitidas ao pai são sempre as mesmas: trocar a fraldinha, dar ou fazer mamadeira e trocar a roupa quando cresce. Porquê será? Ah, banho também pode e, na época que ninguém dorme, ambos já sofrem acordados em busca de uma saída. Vale ressaltar que minha angústia aqui não é que o homem faz pouco, mas o quanto eu acho que meu marido faz muito, saca? Essa doença ainda contribui para aquela típica frase dita, lógico, por ele:
mas eu não cobro nada de você!
-Tá bom, mané!
Lição 2: Casa é responsabilidade da casa
Também aprendi o quanto fui servida a vida inteira pelas babás, empregadas, minha mãe e avó. Tenho uma cultura familiar muito mineira - uma das babás que me criou trabalha até hoje na nossa família. É ela, por exemplo, que hoje arruma a mala do meu primo, que mora fora e todo fim-de-semana volta pra casa. Basta sentar na cadeira da cozinha da minha mãe para começar a ser servida: cafezinho, colher, açúcar. E se faltou um talher, lá vai alguém buscar pra você.
Apesar da minha casa não ter nada a ver com a casa da minha mãe, eu me sinto preguiçosa todo minuto que não faço algo e, ao mesmo tempo, me sinto no direito de ser servida como era na casa da minha mãe. Ou seja, até tento ser mulher, mas ainda sou a criança servida pela mamãe. Parece coisa de doida, mas uma conversa esses dias com uma amiga que mora no exterior e, desde então, assumiu tudo resultou num papo cultural de que nós, brasileiros,
continuamos escravizando dentro de casa. Queria matá-la na hora, mas depois comecei a perceber que tinha uma certa razão.
Lá fora, doméstica é artigo de luxo há um bom tempo. Aqui começa agora - afinal, são poucos que conseguem pagar o atual salário mínimo. A
Cristiane ( quem me inspirou a escrever este post) conta muito bem essa diferença de constumes no post
Gente folgada ou mal ensinada? Assim que a li comecei a pensar na questão da servidão/escravidão. Eu tenho pensado muito em aproveitar o sumiço da diarista para instituir de vez aqui em casa que quem cuida da casa somos nós. Mas, confesso, tenho medo de assumir muito e ainda achar que estou fazendo pouco. Exemplo?
Eu trabalho (em dois empregos, por enquanto), além de ter dois blogs, quatro caixas de emails e um site. Faço tudo isso em casa. Mas também estudo: faço pós-graduação no sábado e sou obrigada a ler um batalhão de livros, artigos e teses. Essa semana consegui colocar feijão pra cozinhar, fazer duas jantas e um almoço, lavar roupa e deixar todas camas arrumadas. Mas sinto que não fiz nada pelo batalhão de coisas que não fiz na casa.
Ufa! Dona Maura na campainha: vai trazer amanhã uma menina que topa ganhar o que pago para dois dias de serviço. E agora?