Estou triste agora. Kubler-Ross não previu isso depois da aceitação da morte. Sinto uma certa ressaca de ter presenciado uma determinada paz pelo que passou...Uma amiga diz que pode ser hormonal. "Nada que um bom floral não resolva", diz ela.
Pode ser...Eu prefiro voltar de novo na dor. Ela já não existe como era. Por isso, talvez seja a hora mais sensata de dizer como foi meu aborto. Foi uma menstruação fisicamente normal, com dores leves e uma única cólica infernal. Tal dor física, entretanto, não expeliu o feto como eu imaginava. Demorou ainda três dias depois da cólica infernal para finalizar o processo. No total foram 10 dias de menstruação, muito sangue grosso e uma única cólica insuportável.
Eu esperava mais, muito mais da prática corporal. Dores, hemorragias, cama, sopa, chá, enfim, acho que atribuia o terror da palavra ABORTO à prática de tê-lo, sem desejá-lo. Não foi nada espontâneo como diz a ciência. Mas foi um aborto. Que tipo de aborto? Natural? Espontâneo? Retido? Menstrual? Que tal: só aborto? Hummmmmmmm, pesa tanto!!!! Mas, ok, adotei aborto, abortamento, perda da gravidez para o meu dicurso com os outros. E haja espanto no olhar do outro, haja confusão, desinformação e falta de humanização. É tão forte o terror ao aborto, que cheguei a ouvir de um platonista do pronto socorro: a doença está curada, quando não havia mais vestígio dentro de mim.
As mulheres da minha família, que vivenciaram isso há três décadas atrás, ficaram em pânico. Elas vivenciaram a era das curetagens. Não entendiam a minha espera e, muito menos, a minha falta de repouso. Eu não entendia o desespero delas...E não queria ouvi-las, vê-las nem partilhar algo com elas no primeiro momento. Só depois fui me abrindo mais, aos poucos, tentando explicar um pouco daquilo que não entendia.
Não houve nada melhor que esperar pelo aborto, vivenciar o tempo do meu corpo para a morte e assim renascer...Li, ou melhor, devorava artigos sobre ultra-sons, aborto e parto, enquanto vivia esse processo de luto. Senti a vontade vital de mudar o mundo e, o pior, tive certeza absoluta de que conseguiria. Tive vários posts escritos na cabeça. E, agora, cá estou eu tentando recuperar essa intensidade em busca de um restinho que seja pra passar para você. Mas restou pouco, quase nada.
Minha terapeuta diz que depois que viveu, não tem jeito: será eterno. Talvez. Eu senti que foi um momento de abrir os olhos, enxerguei tudo de uma forma tão diferente, mas agora...hum...será que devo falar o que pensei, será que penso mesmo aquilo que pensei...Tomare que meus olhos continuem abertos!
Foi muito bom reconhecer a verdade do médico nesta experiência. Depois aprendi que eles não só dizem a verdade, como também só agirão de acordo com ela. Por isso, não tem jeito: se ele diz que a maternidade Y é ruim, ele só fará seu parto no hotel preferido dele. Como passei por três gineco, tive a oportunidade de descobrir que mãe não escolhe a maternidade, mas adota aquela que o médico determina. Também aprendi que não é apenas uma questão de verdades, mas de sintonia, de concessão e muita confiança. E, detalhe, há também muita paixão do lado de lá como no de cá. Por isso, gineco tem de levantar a mesma bandeira da grávida. Senão, não rola.
E pra quem gosta de aprofundar, vale a pena ler essa tese, que trata de aborto e, detalhe, justamente desse que aconteceu comigo - o mais frequente, no ano de 1995, entre os abortos registrados no estado de São Paulo.
Posts Relacionados:
Perdi minha gravidez
A verdade do laudo médico
Dicas de Jogos - Semana Mundial do Brincar
Há uma hora












13 comentários:
ai.
peraí.
deu um nó na minha cabeça.
aborto agora?
sim não???
sou solidária/. pelas minhas duas experiências.
bjo
Célia, o que dizer? nessas horas faltam as palavras que queremos ouvir. Acho importante nos lembrar que você não teve culpa do aborto que sofreu, isto é você não provocou essa morte, foi como o nome diz espontâneo, não se sinta culpada em hipótese nenhuma, fique sim tranquila para uma nova gestação que o seu corpo em breve estará recuperado para poder viver.
Beijos
www.psicologaregina.blogspot.com
Olá, Ceila, como vai?
Eu achei seu blog no blog da Carol Garcia. E me chamou atenção esse seu post. Tenho uma filha de 6 anos e quero muito poder ser mãe novamente. A gravidez da minha filha foi um sossego do começo ao fim. Ano passado, em Julho, descobri que estava grávida novamente. Fiquei contente, claro, mas sentia que no fundo algo estava errado. E nos exames constaram mesmo que estava. Tive que esperar muito até ter a certeza de que agravidez não ia vingar. Minha ginecologista deu a opção de eu esperar acontecer 'naturalmente' ou fazer a curetagem. Marquei a tal curetagem. Mas no fundo não queria fazer. Ainda tinha uma esperança de que algo poderia mudar. Deus foi tão bom que dias antes de fazer a curetagem comecei a menstruar e dois dias depois abortei em casa. Dois dias antes da curetagem marcada. Pra mim, foi um alívio que aconteceu 'naturalmente'. Mas a dor da alma... essa não passa. Queria ter escrito um post sobre isso no meu blog, mas não tive coragem. Acho que no fundo quero esquecer que isso aconteceu comigo. Quero apagar. Mas não dá, né. Foi triste. Foi ruim. Fiquei dias sangrando sem parar. E ainda por cima tive que fazer a curetagem pra tirar restos de material que ficaram. 8mm, pra ser exata. Ainda tive que passar por todo o estress de internação, anestesia, sonolência, repouso... Horrível, muito horrível mesmo. Não gosto de lembrar, mas comentar isso acho que me faz bem. Parece que falar sobre o assunto traz um pouco de entendimento, esclarecimento.
Bem, desejo melhoras pra vc e pra sua alma. Só quem passou por isso sabe o quão triste isso tudo é. Ainda mais quando tudo acontece contra a nossa vontade.
Estou te seguindo, ok.
Abraço
Fabi
Eu estive pensando sobre isso nesses dias, em como a minha concepção sobre o aborto mudou ao longo do tempo.
Quando eu era mais nova achava que não se poderia sofrer tanto por algo que mal chegou a existir. Eu não entendia então do amor que se sente ao ver o resultado positivo no exame. Eu não sabia que em muitas das vezes a gente pressente a chegada do filho muito antes dele estar devidamente instalado em nossa ventre. Eu era nova, imatura, inexperiente.
Depois, mais adulta, eu tive amigas que abortaram ao tentarem engravidar. Mas eu ainda não compreendia o que elas poderiam sentir, porque na minha cabeça era algo assim: não foi dessa vez, vamos tentar de novo! Simples, fácil e totalmente desprovido de sentimento. Eu já não era tão imatura, mas desconhecia o amor que sente por algo minúsculo que passa a existir dentro de vc. Porque quando a gente sabe que algpo está surgindo ali, esse algo toma formas, proporções, criamos histórias, construimos nossos castelos...um sonho, e a perda de um sonho tão bonito dói. mas eu não sabia.
Foi depois que eu engravidei e quando tive que fazer repouso devido ao risco de eu perder minha filha que eu comecei a entender o quanto se poderia sofrer ao abortar. Não era apenas uma célula, um feto, um algo que sairia de mim. Seria o meu filho. O filho que já não teria. E isso é dolorido, sim.
Então, como já disse em outras ocasiões, nós mulheres temos que aprender a falar sobre isso, a entender os motivos que levam ao aborto natural, ou não, e aprendermos com tudo, ensinarmos quem passa por situação semelhante.
Eu só posso te dizer que desejo que você logo se recupere, externalize seus pensamentos, sentimentos, e assim que estiver pronta, tente novamente! Tem um filho esperando por vc!
Beijos!
Nine
OLÁ LINDA ESTOU TE SEGUINDO PASSA LÁ NO MEU CANTINHO BJUS
OLA JA PASSEI POR ISSO,NÃO NESSA INTENSIDADE,MAIS VC NÃO O PERDEU AINDA IRA ENCONTRA-LO FOI ISSO QUE ME DEU FORÇA E HJ ESTOU GRAVIDA NOVAMENTE,FIQUE FIRME,SEI QUE IRÁ FICAR BEM,TODA FORÇA DO MUNDO PRA VC,UM BJ COM MUITO AMOR♥
Passando por aqui só para te desejar sorte e saúde !!!!!
Nossa, Nine, de novo, você me fez chorar...Coloca isso num post, please... e avisa qual é a url pra gente proliferar pela rede. Tão lindo o que escreveu e tão sábio.
Fabi, obrigada por partilhar sua experiência e espero que chegue logo a sua hora de olhar de frente para o que aconteceu. Não dá pra esquecer, mas dá pra cuidar, fechar, cicatrizar e permitir que o fim aconteça. Pra isso, é preciso ter consciência, olhar de frente e deixar doerrrrrrrrrrrrrr... Bjkas e se um dia escrever seu desabafo no seu blog, avisa a gente, tá.
Regina, valeu a dica! Se a gente não fica esperta, a culpa realmente pode invadir a alma. obrigada!
Carolzita, vamu nessa, topa agora ou prefere deixar pra depois? se rolar post, avisa!
Ceiloca!
Agora que sentei na frente do micro, com tempo pra ler e reler seus posts todos.
Um zilhão de desculpas por não estar aqui.
Sei que é um tempo nosso. só nosso. que o luto precisa ser vivido (como dizia a terapeuta). que a gente um dia encontra uma definição pra tudo isso e começa a se libertar aos poucos. dói e sempre vai doer. de uma maneira ou de outra. mais ou menos intensa.
vou fazer um post.
percebi aqui que ainda preciso falar e muito disso.
força aí, mulher de fibra!
bjo bjo bjo
opa! o post já está lá no blog
bjo bjo
Oi Ceila! Passei o meu comentário para o post! Beijos!
Carol, Nine, LINDOOOOOOOOOOOO!!! obrigada e imagino que a blogosfera materna agradece. prometo voltar nessa conversa em breve, ok?
Dani, obrigada!
Ai adorei a visita, querida. e como anda o mimirabolantes? vou lá te ver, inté!
Também tive um aborto retido entre meus dois filhos, a menor tem 7 meses hoje. Quando li o que você escreveu parace que estava lendo a minha história. Achei a cólica mais que insuportável, achei pior que os dois partos normais que tive, mas talvez ele veio junto com a dor de estar perdendo meu bebezinho.
Força, sei que não é fácil.
Postar um comentário