Japa, neusa, japo”neusa”, olhos rasgados, pernas de sarakura, little yellow… esses são alguns apelidos que tive nesses 36 anos. Quando era criança, isso me entristecia demais. Eu não queria ser diferente, queria ser igual a todo mundo, não ter esse cabelo liso, não ter os olhos finos e o nariz de batata. Mas a gente cresce e supera. Aprende a levar na brincadeira os apelidos, mesmo ainda achando ridículo algumas pessoas insistirem não me tratarem pelo nome, mas por minhas características físicas. Para eles é normal, para mim não.
Também já me senti como personagem de circo às vezes, principalmente em locais onde tem poucos ou nenhum asiático. Já fui maltratada pelo fato de ser asiática. Já fui maltrada pelo fato de ser brasileira. Tem gente que pensa que brasileiro é sinônimo de gente folgada, mentirosa que quer tirar proveito. Isso sem abrir a minha boca. Tem gente que já nasce com a opinião formada e, contra isso, não existe cura.
Recentemente, fui a um salão pela primeira vez. Num lugar chique. Coisa do meu marido de fazer surpresa e não acertar na surpresa. Marquei a data e o horário por telefone. Mas quando chego lá, o clima é péssimo. A secretária não conseguia nem olhar na minha cara e , de repente, começou com o teatro, “que estranho”, “não entendo”. Sua consulta foi cancelada. Estranho, porque há uma hora eles mesmos haviam ligado pra minha casa pra confirmar o horário. Ninguém olhava na minha cara. Apenas disseram que haviam cancelado a consulta e também não insistiram em remarcar ou pedir desculpas. Já passei por situações semelhantes, por isso nem me preocupei em ficar mal. Apenas senti pena de saber que ainda existe, e muito, precoceito nesse mundo.
Meus filhos são mestiços e, mais de uma vez, questionaram de uma forma maldosa sobre o formato dos olhos deles ou do nariz. Coisas do tipo, “ah, eles têm seus olhos” (… que azar). Se acho que isso vai acabar um dia? Não sei, é um sonho pensar que sim. Mas, vira e mexe, escuto mães fazendo comentários perto dos filhos que vão ficar na memória dessas crianças. Comentários racistas, alguns deles terríveis. O pior é que esses pais acham normal essa atitude, que para mim é um desserviço à humanidade.
Escuto muita gente falando aos quatro ventos que não é preconceituoso, mas age completamente diferente. Isso não apenas em relação à raça, mas tudo. São comentários, piadas desnecessárias que eles nem se dão conta de estarem falando. É triste. As crianças são reflexo dos pais. Elas vão carregar pra vida o que aprendem dos pais e assim sucessivamente. Já tentei explicar para algumas pessoas, que tentaram me explicar o porque de chamar assim ou assado ou de achar isso ou aquilo de fulano. Não entendem e nunca vão enten der.
52 objetos, número 9
Há 2 horas










7 comentários:
Este post está fantástico!
Sei lá, acho que o ser humano gosta de preconceito, justamente porque odeia ou teme o diferente. Sei lá se se sente ameaçado, diminuído ou vê uma oportunidade para elevar sua autoestima já ferida no dia-a-dia, descontando suas frustrações nas pessoas que nada têm a ver com isso.
O preconceito torna-se ainda pior quando acompanhado da falta de respeito e ética para com o outro, manifestando-se em hostilidade e desprezo.
Eu já sofri preconceito por ser mulher, tímida e diferente.
Beijinhos!
Oi Sueli,
Infelizmente o preconceito bate nas nossas portas todos os dias. Seja na porta do trabalho, de casa, da academia. Somos vítimas do preconceito de várias maneiras: pelo preconceito mesmo, quando somos alvos, e até dos reflexos do preconceito, quando somos pegos pela revolta dos que sofrem com isso. O aumento da violência, a diminuição do respeito, o egoísmo e a falta de educação. O que podemos fazer? As vezes me pego juntando as peças desse quebra-cabeças que é ser mãe, pensando na melhor maneira ou em como ajudar o meu pequeno Isaac a ser um ser humano de bem, que entenda a importância do respeito pelas diferenças. Um sábio tio dizia a seguinte frase: Nem os meus cinco dedos da mão são iguais, porque vou achar ruim de alguém ser diferente de mim?
Bjos
Carol
O mundo é tão lindo com toda essa diversidade!!!
Lembrei do Rodolfo Abrantes (ex - Raimundos), quando lhe perguntaram se ele estava sofrendo preconceito por se tornar evangélico, e ele respondeu algo do tipo:
"Ja sofro preconceito por ser nordestino, por ser tatuado, por ser músico, por gostar de rock... um preconceito a mais ou a menos, não faz diferença!"
Difícil ensinar aos filhos em um mundo tão demolido por preconceitos dissimulados. É um desafio vencer nossos próprios preconceitos diante das diferenças, mas um desafio para ser vivido, lamentado, batalhado e, se possível, superado. Espero que as crianças de hoje sejam reflexos melhores do que nós em seus espelhos do futuro. Boa reflexão!
Eita Susuca, amei o desabafo...Não tenho ideia como seria um mundo sem preconceitos até pq o humano vive de construir perfis, tipos, segmentos pra conseguir se identificar. Afinal, o grupo que vc pertence o ajuda a descobrir quem vc é, né! Agora como respeitar quem não é como você, talvez, só seja possível se vc consegue respeitar suas próprias falhas...Como a gente nos classifica quando identificamos algo desconhecido? O problema de tudo, acho eu, é o julgamento. Mas não há dúvida de que nós, pais e mães, somos responsáveis pela construção do Racismo. A questão é como desconstruí-lo agora?
Nossa Su...que pesado!
Senti qdo estive em NY que existe um preconceito muito grande contra os coreanos...lamentável!
Eu sou descendente de japoneses tb, por parte de mãe, lembro de já ter recebido um apelido ou outro na vida - carioca adora dar apelido - mas nunca me senti realmente segregada.
mas fico muito triste mesmo qdo ouço relatos assim...
beijo!
Re
Sueli, como quero ler todos os posts, vou deoxando os comentariosnpra depois, mas esse nao deu pra pular...acho que a coisa vem do utero...desde sempre somos classificados. Nascemos e jah recebemos um monte de notas q indicam se somos "normais". Ai temos q engordar e crescer segundo uma tabela, temos q aprender segundo um cronograma...somos encaixados o tempo todo...Na verdade, o diferente assusta, pq liberta, pq dah opcao, e quem quer ter a responsabilidade da decisao? Penso q o preconceito estah na base desse processo de afastar o q nao entendo, o que nao me eh familiar, o que me faz olhar para alem do umbigo...ps. Teclado sem acento, desculpem...bjs.
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