Vale retomar a história deste blog que começou em 2006, pariu um site e agora busca o sentido da comunidade virtual existente com a profissão das idealizadoras (eu e Sueli, ambas jornalistas formadas pela PUC-SP). Tenho lido muita teoria de comunicação e cada vez mais me aproximo de um Mestrado - que talvez traga à tona novos conceitos ligados a modelos de mídias independentes, interação e jornalismo. Mas essa história não interessa aqui. Agora o que quero mesmo é conversar sobre "o outro lado": a Maternidade...
Foi a danadinha da maternidade que me levou a tantos caminhos desconhecidos como o citado acima, entre outros. PORQUÊ??? Eu já não acredito mais em respostas objetivas e claras. Ainda mais para uma pergunta deste tipo, mas uma das pílulas ( de conhecimento) que vem amenizando esta dúvida é um artigo escrito por Lucila Scavone (Maternidade: transformações na família e nas relações de gênero). Ela conta como a maternidade foi inventada desde século XVIII até chegar no modelo atual (dominante), onde há dúvida cruel de ser (ou não) mãe, de ter uma família pequena e ainda de compartilhar as tarefas de cuidar dos filhos com os pais.
Eu resolvi resgatar alguns pontos do artigo da socióloga pra pensarmos juntos, topa?
Este modelo se consolidou-se em uma ideologia que passou a exaltar o papel natural da mulher como mãe, atribuindo-lhe todos os deveres e obrigações na criação do(a)s filho(a)s e limitando a função social feminina à realização da maternidade. Entretanto, como nos alerta Knibielher e Fouquet (1977), a realização desse ideal de maternidade era impossível para as mulheres pobres ( SCAVONE, p.3)
O padrão do século passado pode soar extremamente retrógado para maioria das mães que conversa por aqui, mas eu não tenho dúvida de que ele ainda é o significado da maternidade para muitas famílias brasileiras. Motivo? Desigualdade social. A escolha da maternidade está muito atrelada ao que você tem (economico), de onde vem (cultural) e quem você é (profissional). Ou você acha que esse modelo já era?
Outra citação que amenizou a minha dor pelo EXAGERO de informações sobre SAÚDE relacionadas á maternidade ( parto/aborto/inseminação artificial/amamentação/alimentação) é a história da maternidade com feminismo e a evolução tecnológica:
desconstruindo a equação mulher=mãe, e construindo uma outra equação mais complexa, na qual entram em cena com maior vigor a classe médica e as tecnologias.(SCAVONE, pag. 6)
OK. Você tem razão. Não é só SAÚDE que se divulga para maternidade. As mães também têm ABUNDÂNCIA na hora do trabalho, né. Afinal, não há revista de puericultura ou site que se preze que já não tenha explicado milhões de vezes sobre a licença-maternidade:
Apesar de ainda não estar em clima de Recomeços, acho que temos um bom começo para conversas em 2010, o que acha?










8 comentários:
Ceila,
Essa questão da contrução da maternidade é uma das que decidi focar mais este ano.
Você conhece esta outra autora: Elizabeth Badinter? O livro dela, Um amor conquistado, é sobre o mesmo tema.
Neste site há uma versão digital (não sei se na íntegra).
http://www.fiocruz.br/redeblh/media/livrodigital%20(pdf)%20(rev).pdf
Tem também um outro livro muito bom chamado: "A máscara da maternidade", de uma autora, se não me engano australiana, Susan Maushart. Este eu comprei baratinho na Estante Virtual.
Eu concordo com vc sobre as escolhas terem tudo a ver com classe social. As mulheres mais pobres, que precisam trabalhar, não conseguem exercer o "ideal" da maternidade. Mas sinto que elas operam com menos culpa. Quando se é preciso escolher entre a fome alimentar e a de afeto, é unânime que a primeira é mais urgente.
Vou ler o artigo com calma. Tb tô pegando no tranco neste início de ano.
Um beijão, querida!
Olá! Sou a Mari, mamãe de um garotinho chamado Pedrinho (1 ano e 9 meses). Acompanho o blog já tem um tempinho(estou te seguindo rsrs). Hoje passei para convida-la a conhecer nosso blog. O "Mundo do Pedro" http://mariepe.blogspot.com.
beijinhos e esperamos sua visita!
Salve, salve, Tais! Delícia ler vc aqui logo de manhã e com tanta dica sobre o assunto. Já tinha ouvido falar de Badinter, mas ainda não li. Vou dar uma olhada no link pra gente conversar mais about (risos)
O que me apavora mesmo nessas construções é o poder do discurso da comunicação. A maioria dos temas do Desabafo é SAÚDE e TRABALHO - como se a maternidade resumisse a isso - e cá entre nós, acho que lendo tais construções, a sensação é de que maternidade resume-se a isso mesmo em função do seu processo histórico... Mais um motivo para luta da maternidade!
Ceila, querida, sabe que eu tinha em mente discutir esse assunto como primeiro tema do grupo?
Mas como o grupo tem vida própria, o rumo tomado foi outro.
mas acho muito interessante e adoraria ouvir e ler mais sobre isso. O texto que vc mencina e os livro sindicados pela Taís já estão anotados aqui.
Posso dizer que conheço Badinter, se não me engano ela é uma das que defende o instinto materno como uma construção cultural. Num grupo de que participei questionei muito essa ideia - deixo aqui a dica do livro A Cientificação do Amor, de Michel Odent. Michel Odent é um "papa" entre os defensores do parto natural e esse livro fala como os hormônios influenciam a gente não só no parto.
Por outro lado claro que, como seres culturais que somos, não dá pra nos comparar com os animais, instintivos 100%, e concordo que aceito que há uma construção cultural forte. A questão é, até que ponto é cultural e até que ponto é instintivo? E até que ponto é saudável não deixar o instintivo prevalecer (ao menos de vez em quando) sobr eo cultural? E como conseguir isso?
A questão social que vcs mencionam apontam pr amim da necessidade de conscientizar todos (ricos e pobres) a respeito da importãncia da concepção e gestação conscientes.
Enfim...acho que esse é um tema bem bacana pra discutirmos no grupo, vamos aguardar o povo ir voltando à vida virtual...
Beijo!
Re
Gostei muito, mas muito das citações. Paralelo a isso, tenho lido o livro de Simone de Beauvoir, "O Segundo Sexo", que trata do papel e da posição da mulher na sociedade no contexto da história da humanidade, bem como das origens da subordinação da mulher ao "sexo superior", ou seja, ao macho.
A questão "devo ser mãe?", apesar de não ser momento para isso, tem me assolado há algum tempo. Sempre pego-me pensando nisto, principalmente porque incomoda-me demasiado o fato da "obrigação de ser mãe" que a sociedade, inclusive as próprias mulheres, nos impõe.
A maternidade tornou-se uma escolha e o fato de "a mulher realizar-se como mulher apenas quando torna-se mãe" não constitui uma verdade absoluta. É uma escolha subjetiva e individual (com influência social) e deve ser discutida, sim, principalmente em relação ao momento em que a maternidade deve acontecer para cada mulher que a deseja.
Ter um filho não é brincadeira e as mulheres devem estar cientes disto. E devem fazer essa escolha com consciência.
Nossa, meninas, como estamos chiques de dicas bibliográficas. Fonte não falta pra trazer o conhecimento necessário para que haja transformação...Obrigada, obrigada e obrigada!!!
gostei muito da discussão que a Rê coloca entre o que é instinto e o que é construção...Rê, não topa postar sobre isso lá no pipocando, não?
Gigi, também retomei o segundo sexo da nossa radical beauvoir e o que mais amo no livro é o desafio de nos reconhecermos como minoria. O desafio de tornar-se mulher. ela diz a gente não nasce mulher, torna-se!!! É responsabilidade tornar-se então algo que tenhamos consciencia, né!
vou nessa... preciso assumir a dupla jornada e fazer jantar....ai canseira!
Celia, o que acho mais fantástico disso tudo é a mulher que tem recursos poder escolher entre trabalhar ou ficar em casa.
Moro em uma área super conservadora, onde os "provedores" (mais conhecidos como maridos) trazem o sustento integral, enquanto que as "donas de casa" (mais conhecidas como mães/esposas) criam, cuidam, e educam as crianças.
E elas estão felizes, como as que optaram por trabalhar fora e deixar seus filhos com seus avós (que são bem poucas).
Esta democracia é que me encanta no mundo de hoje, claro que com muitas diferenças entre Brasil e Estados Unidos.
Otimo assunto.
bjks
Ceila, na verdade escrevi sobre isso há muito tempo, mas acho que aind apenso mais ou menos da mesma forma. Tá aqui:
http://rematteoni.wordpress.com/2007/11/04/reflexoes-sobre-instinto-materno-e-feminismo/
Beijo
Re
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