20 de Novembro de 2007

As cotas serão a solução contra o preconceito racial?

Há alguns dias li no Nossa Via um post da Erica, do blog Burajiru, que contava da proposta para a criação de cotas para exibição de desenhos animados brasileiros, feita pelo Deputado Federal Vicentinho (PT-SP). Segundo Erica, ele acredita que essa medida pode acabar com a hegemonia dos desenhos animados estrangeiros no país. Achei interessante o argumento dele e considero perfeito para este dia 20 de novembro, quando se celebra o Dia da Consciência Negra, em memória a Zumbi dos Palmares.
Sou negro, mas meus heróis não eram negros, porque na TV não existem heróis negros“, “…(os desenhos estrangeiros) retratam o Brasil de forma preconceituosa”, argumentou Vicentinho. Medidas como esta, como as cotas nas universidades, podem minorar alguns séculos de injustiça cometidas por nosso país e em nossa sociedade contra este grupo étnico que compõe nosso povo mestiço. Escrevi hoje em meu blog pessoal sobre isto, minha mistura de sangue e o valor que esta miscelânea cultural tem para nosso país. Considero-a fundamental para nossa identidade.
Apesar de ter minhas reservas com a questão das cotas para qualquer minoria, eu concordo com Vicentinho: é importante darmos valor ao que é nosso, seja ele branco, pardo, amarelo, vermelho... a cor não nos define, mas sim o espírito que o brasileiro tem. Ele é retratado pela mídia e devemos exigir que sejam retratadas com justiça. Mas simplesmente colocar cotas não ajuda a mudar esta visão preconceituosa e caricata. Quem não ficou feliz quando os desenhos da Turma da Mônica estrearam no Cartoon Network? Eu fiquei, tanto quanto ficava com o Sítio do Picapau Amarelo (brasileiro e por sua época, muito racista), mas fico mais satisfeita quando vejo o Lázaro Ramos ser lançado a galã na novela. Quero ver ainda um japonês neste lugar, entendem? E vocês, o que acham destas cotas? Preconceituosas ou justas?

P.S. A data marca a lembra o dia em que foi assassinado, em 1695, o líder Zumbi, do Quilombo dos Palmares, um dos principais símbolos da resistência negra à escravidão. Minha cara amiga virtual e colega de Nossa Via Veridiana Serpa conta muito bem esta história em seu post de hoje e em outros posts.

8 comentários:

Aline Silva Dexheimer disse...

Olá Sam,
Situação um pouco delicada.
Aqui não tem este feriado, pelo menos em Porto Alegre e Novo Hamburgo.
Na minha opinião deveria atacar por outro lado o preconceito. Criar quotas para isso e para aquilo não deixa de ser preconceituoso. É como os sem-terra! A gente trabalha a vida inteira para comprar alguma coisa e vem um bando de desocupados, ignorantes e facilmente manipuláveis e acha que tem direito a ganhar terra de graça! Bem como os índios que exigem reservas e tal! Se for pensar assim todos nós somos injustiçados!
O Brasil tem que atacar educação e saúde para TODOS. Não é porque são negros, não é porque são japoneses, italianos, alemães ou indios. Antes de mais nada, somos brasileiros e todos tem direitos iguais. O único direito que não temos é o de roubar, coisa que nosso governo gosta e sabe bem fazer! Rouba discarada e sutilmente..rouba de qualquer maneira...E disfarça sendo governo do povo comprando o mesmo com migalhas disfarçadas aqui e ali...
Igualdade tem muito haver com educação, pois é ela que proporciona liberdade para novas conquistas. É com ela que chegamos aos nossos objetivos...
Beijos,Aline

Manogon disse...

Oi, Sam. Legal seu post. Acredito e procuro valorizar muito a nossa cultura. Sei que nosso País, por mais democrático que seja, ainda possui extremismos como o machismo, racismo, e outros "ismos". Mas, sinceramente, sempre fui contra a política das cotas. Justifico: como solução de urgência e forma de tentar equalizar as coisas de forma rápida, pode até ser vista com bons olhos. Porém, não é bem o que acontece. O sistema de cotas acaba virando regra e não ajuda em nada a igualdade das condições de vida na sociedade. Será que não é uma outra forma de amplificar o racismo quando se coloca um grupo privilegiado por questão de cor, credo ou sexo? Não seria um racismo às avessas? Esse mesmo grupo não seria visto de forma equivocada pela sociedade ou membros da comunidade que adentrou? Em vez de gastarmos tempo e dinheiro com tanta elaboração de cotas, deveríamos pensar na igualdade social, na melhoria das condições da educação e saúde, para que a classe menos abastada possa ter direito à faculdade, emprego decente e consumo consciente. E isso não é utopia! Utopia é aquilo que não é possível de acontecer, platônico. Está sempre no plano das idéias. Mas com força de vontade e, principalmente, vontade política, dá pra fazer muita coisa. Sem assistencialismo exagerado, pois é fato que as pessoas relaxam quando recebem tudo fácil nas mãos. Se for para defender um sistema de cotas, defendo que seja pela condição social da pessoa (família), pois assim, não importa a cor, o sexo, o credo, a nacionalidade, todos que não têm condição suficiente para ingressar numa faculdade maravilhosa e pagar um absurdo na mensalidade, ter um emprego e receber uma miséria, ter acesso à cultura, poderiam começar ater noção do que é inclusão social.
Não entendam isso como racismo ou luta contra os direitos dos negros ou qualquer outro grupo. Sendo eu brasileiro, filho de nordestinos, jamais poderia levantar uma bandeira fascista, pois seria contra o que sou. Apenas acho que o sistema de cotas, da forma como é feito, não traz o que se propõe, que é igualdade de condições.
Abraços.

Tânia Defensora disse...

Oi Sam!
Andei sumida né!
Gostei de sua abordagem sobre as cotas.
Eu particularmente sou a favor delas.
Veja a questão das cotas para mulheres na política: a partir do momento em que se estabeleceu o mínimo de 30% das vagas para mulheres, estas começaram a conquistar espaço e a legislar visando melhorias para nós. Tenho certeza que será assim com os negros, que ainda são discriminados.

Marcus Carvalho disse...

O Vicentinho, como um bom petista, quer decidir o que outros podem ver ou não. O fato de pessoas terem liberdade de assistir desenhos (ou qualquer outra liberdade) tira o sono dessa gente. Não há desenhos (ou melhor há poucos) brasileiros por um simples detalhe: qualidade. Daqui a pouco deremos a Desenhobrás torrando milhões de reais dos contribuintes para "educar" e "formar" nossas crianças.
O que mais me assusta é que idéias idiotas como essa são seriamente discutidas no Brasil.

Samantha Shiraishi disse...

Marcus
eu tenho que concordar com você, não porque você trouxe esta questão como novidade para mim, mas porque é uma reflexão que eu mesma faço sobre o atual governo e várias ações "nacionalizantes". Tomei este veio para discutir as cotas, porque me parece uma questão importante e que não está sendo devidamente considerada pela sociedade.
Só discordo totalmente sobre a qualidade: como sempre, temos gente muito boa (tanto que nos grandes estúdios muitos são brasileiros, como o diretor de Era do Gelo 2), mas, infelizmente, os talentos ainda migram e não retornam.
Agradeço sua visita e sua opinião.
Sam

Samantha Shiraishi disse...

Aline
sua postura é tão sulista, lembro de discussões sobre os sem-terra que pautaram meu ingresso nas redações curitibanas, exatamente na época da novela global O Rei do Gado. A trama discutia exatamente esta questão, lembra?
O Mario, do blog Apoio Fraterno, trouxe esta discussão à baila na terça-feira http://apoiofraterno.wordpress.com/2007/11/20/incentivo-ao-preconceito-racial/
Concordo plenamente com você, devemos "atacar" como cidadãos a universalização do direito à saúde, educação e qualidade de vida para todos, independente do estrato social, etnia (odeio falar raça) ou região do país em que se viva.
O assunto foi interessante e creio que devemos voltar a ele.
Abraços
Sam

Samantha Shiraishi disse...

Manoel e Tânia
os comentários de ambos me fazem ver que precisamos encontrar um meio termo para esta questão, notaram?
Realidades diferentes, são Brasis diferentes. Tania como defensora pública no Mato Grosso, Manoel como paulistano descedente direto de nordestinos, Aline como sulista descendente de alemães... há muito o que se pensar em conjunto para nosso país crescer. Mas fico feliz e esperançosa por notar que este pensar coletivo está acontecendo nos blogs!
Abraços
Sam

juarez_silva disse...

Bom pessoal, permitam expressar minha opinião.

Com relação ao título, a resposta é : Preconceito e discriminação são coisas diferentes, a segunda é resultado da primeira..., logo, o preconceito não pode ser eliminado por lei..., mas o seu efeito a discriminação pode... , ex. o preconceito contra os deficientes físicos continua forte, mas o seu direito a trabalhar dentro de suas habilitações (o que o preconceito normalmente impede, gerando discriminação...) agora está garantido graças as cotas...

Toda e qualquer tipo de ação afirmativa (incluindo cotas, que na sociedade existem várias tradicionais e oficiais e ninguém reclama...) não trabalha com conceito de capacidade individual e sim de equilibrio de oportunidades de forma coletiva...

A discussão da questão cotas no geral (e em epecial as sócio-raciais) exige de quem se dispõe a discutir o assunto, conhecimentos e conceitos da temática étnico-racial, Conceito de Ações Afirmativas, boa noção de Direito Geral e Constitucional, conhecimento do indicadores oficiais de desigualdade racial e principalmente do recorte "racial" dentro da Educação..., também ajuda conhecimentos de Sociologia e História..., conjunto de saberes interdisciplinares que convenhamos muito pouca gente acumula (principalmente a classe média/alta (e branca) que nunca se importou com isso e aceita de bom grado o "mito da democracia racial" sem maiores questionamentos) .

Geralmente quem é contra-cotas fez "leitura rasa" de todos os itens citados ou nenhuma leitura..., opinando a partir do senso comum (e equivocado) ou a partir de replicação não-crítica de argumentos falaciosos dos "autores neo-democratas-raciais" (que na realidade refletem o pensamento META-RACISTA das elites interessadas em manter o Status-Quo..., porém posando de "anti-racistas" e democráticas) .

Para quem quiser realmente se aprofundar na temática, sugiro a leitura dos meus artigos : "Não QUERÍAMOS Ser Racistas" disponível em : http://www.movimentoafro.amazonida.com/nao_queriamos_ser_racistas.htm

e ainda

"Por quais motivos sou a favor das Cotas", disponível em http://www.movimentoafro.amazonida.com/motivos_das_cotas.htm

Do Coração da Amazônia um abraço a tod@s.