21 de julho de 2014

Gestar não é parir! Venha conhecer o tempo do gestar!

Ana Figueiredo é uma daquelas surpresas que surgem na hora exata. Ela é estudiosa de ritos e mitos e eu a conheci no Ciranda dos Filmes quando perguntava à Ana Thomaz: o que uma grávida deve saber enquanto gesta? Assim eu entre Anas encontrei alguém que poderia trazer luz à minha angustia sobre o tempo de gestar...Que tempo é esse? Eu já escrevi um pouco sobre a Regra Naegele aqui, achei alguma coisa de Peller - o homem que inventou o pós-termo, mas nada que dê conta de virar post ainda...Foi com Ana Figueiredo que encontrei o caminho para trazer conteúdo na Revista Número 1 do Projeto Clarear.

Gestamos no tempo dos homens!
É a tabelinha, a calculadora, é o mundo do começo, meio e fim...Humm, percebeu o quanto a gente gesta do jeito que a gente leva a vida?! Então, gestar é uma oportunidade pra encontrar outro jeito de viver porque lhe dá a chance de deslinear, descalcular, destabelar, desplanilhar...O tempo cíclico não prioriza controles e garantias. Ele é fluído, vai e volta, portanto, exige flexibilidade, intuição, dança. É mais ritmo que rotina, entende a diferença?

Ouça e veja Ana Figueiredo amanhã no Mamatraca que você vai sentir a diferença. Foi ela quem acendeu em mim a principal conclusão que aprendi com a gestação da Revista Estou grávida, o que devo saber agora? Ela me ensinou que gestar não é parir! Opa! Você já calculou quanto tempo da sua gestação investe no parir? E mais: Ana me ensinou que o tempo do gestar é feminino. Tão óbvio e, por isso mesmo, tão despercebido. Precisamos aprender a gestar o tempo feminino. A conversa com Ana Figueiredo me ajudou a reconhecer que o tempo feminino nos ensina a conviver com a dor e o sangue. Veja o vídeo!

Conversamos muito também sobre as razões das mulheres sentirem tanto medo e tanta angústia durante a gestação ou na hora do parto. Você já parou pra pensar o que fizeram com os rios da nossa cidade? Como eles estão agora? Toda vez que passa por uma marginal ou ruas com nome de rio você ainda se lembra que ali embaixo tem um rio encanado, extremamente sufocado, sem ar, quase morto ou totalmente morto? O que isso tem a ver com sua gestação? Sangue, rio, circulação, fluxo feminino, natureza, lua, dança. Precisa repetir o que todo mundo denuncia?

Você ainda duvida da ligação do tempo feminino com a natureza? Ainda nega sua relação com a Terra? Bem-vinda ao clube das mulheres-modernas que batizam sua menstruação de "chico". Somos desconectadas e reconhecer isso é uma escolha. A Revista Clarear convida as mulheres que desejam fazer essa escolha durante a gestação a um diálogo consigo mesma. Adquire agora a sua revista na nossa loja virtual e receba a em casa a partir do mês de agosto.

Este é o décimo sétimo post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.



16 de julho de 2014

Quanto tempo dura uma gestação?

Nove meses!? Hum, talvez, você ainda não passou pela consulta médica para calcular a invenção do obstetra alemão Franz Naegele, que desde 1810 criou uma regra para calcular o tempo da gestação a partir do primeiro dia da última menstruação da mulher, conhecida como DUM. Sim, os médicos utilizam esse método do século passado para calcular as semanas da gestação, o qual a OMS - Organização Mundial de Saúde - passou a recomendar desde 1995. O Ministério da Saúde informa que as brasileiras podem esperar até 42 semanas, mas a prática entre a maioria dos obstetras é de 38 semanas. No meio do caminho, há um consenso que até os obstetras mais afoitos aceitam: 40 semanas!

É importante perceber que o cálculo da gestação é feito pelo ciclo menstrual da mulher-padrão, de 28 dias. O que faz a maioria das minhas amigas (e eu) que não segue o ciclo de 28 dias? São as chamadas irregulares, que também vão engolir a regra de Naegele, além de contar com a probabilidade do ultrassom, cujo cálculo só é válido como estimativa até as 18 semanas. Depois disso, as longitudes criadas por Campbell, Levi & Erbsman podem não acertar a data provável do seu parto.

É bom lembrar: estamos falando de estatísticas, cálculos e probabilidades. Nenhuma certeza! A DPP é uma data provável, não é a data do nascimento do seu filho. Portanto, permita-se vivenciar o tempo da gestação. Há muitas incertezas nos cálculos utilizados pelos profissionais de saúde, as quais são benéficas, inclusive, para o seu aprendizado de tornar-se mãe ou pai. Aprenda a aceitar, receber e legitimar os imprevistos. As certezas não vão te ajudar muito daqui pra frente.

Esse é um dos temas tratados na primeira revista do Clarear sob a perspectiva da Educação Pré-Natal. Ou seja, não explicamos meses, semanas ou os dias da gestação conforme a visão da Saúde Materna. Falamos de outro tempo do gestar...

O motivo principal para investigar esta pauta foi pela ansiedade que vivi nas minhas duas gestações - tive uma terceira gestação que terminou em aborto, a qual não tive tempo pra pensar no tempo. Na primeira, eu cai no conto do obstetra das 38 semanas. É verdade que o bebê já está formado neste período, mas por quê será que a natureza pede mais tempo? Será só uma questão de engorda? Acha mesmo que a gestação é exclusivamente física?

Vale refletir com coração essas perguntas, pois as respostas são pessoais e apontam para diversos caminhos filosóficos. Ouvi de muita gente que o tempo das 42 semanas precisa ser considerado sob ótica do bebê, que ás vezes pode estar a espera da configuração ideal para nascer - signo solar ou mudança de lua. Soa supersticioso, mas não dá pra ignorar o conhecimento e a sabedoria da astrologia. Um outro caminho é investigar sua própria gestação.

Na minha segunda gravidez, eu fui pega pelo diagnóstico do ultrassom quando completava as 40 semanas e vivenciei a "espera infinita", o que me fez perceber a importância de tratar do TEMPO DA GESTAÇÃO. Aprendi que a ansiedade vem junto com nosso jeito de gestar. Nossa cultura ignora o gestar em si e utiliza todo esse tempo de olho no parto.

Vivemos a busca do fim na gestação, por isso, esperamos! Devíamos apenas gestar, preparar, transformar, vivenciar o ciclo e não controlá-lo. É desse ciclo que tratamos na nossa primeira revista, que olha o tempo a partir da educação entre mãe e filho. Vale antecipar que é um tempo cíclico. Diferente da calculadora linear das semanas! Veja mais detalhes na entrevista feita com Ana Figueiredo na próxima semana e não esqueça de encomendar a sua revista hoje!

Este é o décimo sexto post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.




14 de julho de 2014

Quem são as grávidas do Hospital Albert Einstein?

Um bom exemplo pra entender a diferença entre sistema privado e o sistema público da saúde é a área de comunicação. A eficiência do Albert Einstein começa com o atendimento da assessoria de imprensa, que é bem diferente de outros hospitais privados, pois não tem a política de restrição ou low profile - como se caracteriza as megamegamegaempresas da vida - nem a demora e o descaso da assessoria da Prefeitura de São Paulo. São nessas interfaces que a gente vai lendo a cultura da Saúde do Brasil. 

Outro lugar que permite a leitura da nossa cultura da Saúde do Brasil é a recepção dos hospitais ou UBSs. Minha experiência no Albert Einstein começou pelo estacionamento, que utiliza todos os recursos de TI para monitorar os carros. É tanta tecnologia que nos assusta e, pasmem, cria demora. Aquele exagero todo não elimina filas nem estresse. O desfile de carros já era esperado assim como o alto estilo de se vestir, mas o que me chamou a atenção foi os bebês-conforto.

Todos recém-nascidos lá dentro daquele troço horrível, as mães sentadas ao lado de um segurança - ás vezes, acompanhada do marido, avó ou babá. Ninguém no colo. Pouco contato. Muitos dedinhos e olhares dedicados aos smartphones de última geração. É. Eu tive raiva. Tive vontade de colocá-los no colo de cada mãe. Mas a raiva passou logo que ouvi das minhas entrevistadas de que aquele troço é regra do hospital para garantir a segurança de um bebê. Ah?!
E ninguém nunca pensou no sling com a mãe sentada na cadeira de roda já que um dos riscos era a mãe tropeçar e cair no chão com bebê.

Eu sai do hospital privado com a minha filha no colo, grudada e amarrada em mim...Parece que tem até lei que exige o troço do carro pra saída da maternidade - mais uma que o pacote da segurança traz pra quebrar vínculos essenciais da vida materna. E, aí, vai continuar investindo nessa segurança para o futuro da humanidade? SIM, é você quem escolhe!

Mas o que aprendi mesmo sobre cultura da saúde ao entrevistar as enfermeiras obstétricas Aldenira Ballego e Alessandra dos Santos Mabushi, do Albert Einstein, foi descobrir uma nova grávida. Eu não sabia que a maioria das gestantes que vão parir seus filhos no hospital mais famoso do Brasil tem acima de 35 anos.

São mulheres mais velhas. Bem-sucedidas - é diferente de só rica porque significa que investiram muito, e deram certo, em suas carreiras. E com um detalhe importante: muita inseminação artificial. 


"É raro atender grávidas adolescentes", diz Alessandra que já conheceu a realidade do SUS e via meninas de 12 a 18 anos desfilarem suas barrigas felizes porque agora seriam mais respeitadas na comunidade. Eu fiquei pensando muito nesses extremos porque eles trazem a mensagem de status que a gestação/parto/maternidade ganhou conforme nossa capacidade financeira. O dinheiro dita nosso jeito de gestar, parir....e fazer escolhas? 

Muitas vezes, sim. Mas, de novo, quem escolhe é a gente. E, aí, você vai continuar deixando a sua classe financeira ditar o que vai acontecer no nascimento do seu filho?
A maioria das grávidas do Albert Einstein, segundo a dupla entrevistada, tem um sentimento comum: medo e insegurança. Motivo?

Fiquei com a sensação que o motivo de tanta insegurança é pelas trajetórias de vida dessas mulheres como se elas próprias se condenassem pelo fato da gestação tardia ou da decisão pela fertilização. Me lembrou muito aquela sensação comum de que elas também vivenciaram a culpa do preconceito. Compraram a ideia da opressão. Aldenira explica que a insegurança surge em função da alta expectativa: "muitas mães chegam aqui depois de uma terceira tentativa de fertilização. É um processo cansativo, doloroso, cheio de medos e que resultam em Trabalhos de Partos prematuros".

Se alguma delas podem parir devido à inseminação? Lógico que podem, mas a maioria não acredita, respondem as enfermeiras. "Natural", penso eu. São mulheres consideradas velhas - de alto risco - para medicina. Eu já fui uma grávida de alto risco - ou seja, considerada velha. É diferente! Você será tratada como tal e se nunca tiver gestado antes jamais perceberá o detalhe do risco da idade.

Nessa hora eu agradeci pelo privilégio de pertencer a classe média metida e arrogante da qual faço parte porque só quem tá no meio desses extremos pode perceber a doença, que se perpetua na cultura da saúde e ainda assim o desconhecimento nos cega. Pensei também: "pelo menos, nós, a classe média cega e alienada, precisa escolher o menos ruim, a doença que menos te afeta".  Ou trilha-se as alternativas porque elas existem, e algumas podem demandar luta, mas não todas!


Eu insisti muito com Aldenira e Alessandra sobre questões profissionais durante nossa conversa. Queria entender se elas se viam como profissionais responsáveis pela assistência ao parto das clientes do Albert Einstein ou se a formação delas não permitiam a prática de receber esses bebês. Aldenira respondeu que seu papel era ser a ponte entre o médico e a gestante, enquanto Alessandra esclareceu que ela não estudou pra fazer parto. Ela até já fez parto quando atuava como enfermeira no SUS, mas isso é raro na prática profissional. Enfermeira obstétrica que deseja atuar como tal precisa buscar alternativas. Ou seja, casas de parto. É bom destacar que, na cidade de São Paulo, só tem duas delas: Sapopemba e Casa Angela - além da Amparo Maternal que já foi considerada como tal. As duas com desafios e falta de apoio político.

Aldenira e Alessandra me ensinaram muito. Foram elas que me mostraram essa nova grávida - insegura e cheia de medo - que sofre com expectativa de dar tudo certo depois da inseminação.Foram elas que me mostraram o profissionalismo do cuidado da enfermagem e do carinho que elas prezam por essas gestantes.

E mais: Aldenira e Alessandra deram vida no meu olhar sobre a cultura médica. Eu já sabia que 89% das gestantes se informam com profissionais de saúde, sendo que a fonte para  77% desse total é o obstetra. Também já tinha vivenciado a força dessa influência na minha vida de gestante de primeira e segunda viagem, mas ouvir a força dessa hierarquia profissional de mulheres formadas na Saúde te dá uma dimensão maior do desafio de reconhecermos o poder de influencia do obstetra como abusivo. .

Por isso, amanhã, no Mamatraca, quando Aldenira e Alessandra respondem a pergunta da nossa Revista Número 1 no formato de vídeo, eu resolvi convidar você para uma enquete: qual é sua fonte de confiança na hora do parto?

Este é o décimo quinto post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.

7 de julho de 2014

Você se alimenta de crenças na gestação?

Falar de morte é tabu e não há condições melhores para alimentar crenças e dogmas do que onde há tabu. Já percebeu isso? Não! Então, responda-me: o que mais te perturba na sua gestação? Você tem medo de quê? Por acaso já teve medo da morte? Medo de perder o bebê? Medo dele não estar bem? Já parou pra pensar o porquê esse medo é tão comum?

Eu consegui "pegar" Ana Thomaz nos bastidores do Ciranda de Filmes para gravar um vídeo sobre a crença da vida e morte na gestação e, pra variar, matei minha curiosidade. Ana não só apontou um caminho para as dúvidas que me perturbava na época como ainda trouxe luz para minha vivência. Vale a pena ouvir o vídeo publicado nesta semana no Mamatraca.

O caminho que Ana abriu aos meus olhos cegos foi da perfeição da vida e da morte. Quando comecei a escrever a revista do Projeto Clarear ainda faltava esse olhar para compreender o ciclo da vida e da morte. Quando eu aceito que a vida tem perfeição com a morte, eu aceito a morte. Quem já passou por um aborto durante a gestação vivencia muito isso, mas de um jeito um pouco virado. Pra mim, a morte dos meus bebês trouxeram o sentido da vida. Eu entrei em contato com a energia da vida daqueles seres com a morte deles. É uma coisa só!

Agora é fácil ler, falar e escrever esse mistério, mas não sei como seria vivenciá-lo de novo. Concordo muito com discurso da Ana que a crença é uma falta de contato consigo mesmo, pois essas experiências me mostraram isso. Meu nascimento cirúrgico, minha cesárea, meu aborto e meu fórceps me mostraram a mim mesma. Deixaram marcado onde eu me enganava...

Eu sei que não basta lhe convidar para aceitar a morte na sua gestação porque ela faz parte da vida. Dá medo, soa pessimista, quase proibido. Imagina ficar pensando em morte na gestação?! Que tal colocar a morte no saco da vida? E aí ficou mais leve? Não! OK! Pra mim também não foi fácil...Talvez, um caminho seja lembrar do tabu, da crença e o quanto a sua conexão consigo mesma é a resposta pra esse medo. Hummm, não rola. OK. O medo tá liberado também e, detalhe, só ele quem pode te levar até a coragem. Transmute-o!

Este é o décimo quarto post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.


30 de junho de 2014

Ricardo Ghelman: Os Cinco Sentidos na Gestação

Tato, Paladar, Olfato, Audição e Visão. Lembra deles? Hoje já se aceita os doze sentidos, mas quero reforçar aqueles que aprendemos no jardim da infância para tentar lhe transmitir o pouco que consegui captar sobre os sentidos do bebê na gestação.

Porque se fala disso? Porque se estuda tanto as chamadas percepções sensoriais na barriga da gestante?
Foi a partir dessa pergunta que comecei a minha busca por um profissional que pudesse falar do desenvolvimento dos sentidos bebê. Foi só bem depois do meio do caminho que encontrei o médico Ricardo Ghelman, embriologista, pediatra, médico de família, PHD em obstetrícia experimental na UNIFESP e coordenador do Núcleo de Medicina Antroposófica na UNIFESP.

Dr. Ricardo me recebeu no seu consultório no mês de abril ao lado do seu cachorro, que descansava tranquilamente enquanto conversávamos. É impressionante o quanto a embriologia amplia nossa visão de mundo e nos traz uma percepção mais profunda da evolução humana. Ouvindo o discurso de Dr. Ricardo - que explicava como se desenvolve o tato, seguido da audição, paladar, olfato e, por último, a visão - comecei a conectar meus pensamentos e lembrar de tantas palestras que relacionam quem somos agora com a evolução dos animais, das plantas, dos planetas e dos universos.

Questiono qual a opinião dele pelo fato da maioria das pessoas não ter consciência de que quem somos agora não será o humano de amanhã? Pra ele, a pergunta não faz sentido. É tão natural conviver com a evolução humana, com o desenvolvimento dos sentidos que o meu olhar e a minha vivência de descoberta passam despercebidos pela vivência tão rica do Dr. Ricardo. E, você: qual é seu olhar sobre evolução humana?

Ele conta que a decisão pela embriologia veio durante um insight num vagão de trem durante uma viagem ao exterior com mochilão nas costas. As imagens - que muitas vezes nos impressionam - da formação do embrião virando feto surgiram na sua mente como acontece quando a gente medita ou permite ouvir nosso interior e assim Ricardo encontrou sua vocação. Lindo, né?

Mas o que captar desse sentimento forte que invadiu meu corpo enquanto ouvia o discurso de Dr. Ricardo? Qual é a mensagem que sou capaz de transmitir diante de tanto reconhecimento às grávidas? Não tem resposta fácil...Aprendi que trata-se de conhecimento vivido, coisa que se expressa além das palavras, coisa de sentidos, de pura emoção. É outra linguagem.

Mas eu precisava encontrar o velho caminho...Então, conclui que antes de escrever o resumo da minha conversa com Dr. Ricardo para você, eu preciso lhe avisar  que tudo que eu disser sobre isso será ineficiente, pois a mensagem principal do desenvolvimento dos sentidos na gestação, pra mim, é entrar em contato com eles. É vivido!

Mas voltando à pergunta que me levou até ao Dr. Ricardo: Porque se fala disso? Porque se estuda tanto as chamadas percepções sensoriais na barriga da gestante?
Eu já respondi aqui um pouco dessa pergunta quando contei sobre a teoria freudiana, que considerava o feto vegetativo, sem inteligência. Essa visão foi o que estimulou muitos pesquisadores a investigarem se o feto tinha percepções sensoriais, pois elas são as portas do aprendizado humano. Ou seja, se o feto sente o sabor, o cheiro, ouve e ainda percebe a luz e escuridão dentro da barriga, ele está aprendendo, portanto, desenvolve sim uma inteligência. Não se trata da inteligência contida na linguagem escrita ou falada, mas daquela ainda mais sutil que é repetida por todos em nossa volta: "a primeira impressão é a que fica".

Mas o que aprendi com Dr. Ricardo - além de confirmar os sentidos do feto - foi perceber que eles nascem inteiros no nosso corpo e só depois vão se desenvolvendo nos seus órgãos específicos como pele, ouvido, boca e olhos. Isso nos ajuda a compreender o segredo de Thomas Verny e amplia nossa visão de educadora porque exige de nós uma postura diferente daquela que estamos acostumados quando se trata de educar um filho. Essa é a essência da nossa Revista Número 1, cuja campanha de pré-vendas vai até o dia 25 de julho pelo preço de 22 reais.

Vale a pena ver o vídeo desta semana no Mamatraca em que Dr. Ricardo revela o sentido mais predominante na gestação e, portanto, o sentido onde há mais possibilidades de interação entre mãe e bebê. Detalhe: é preciso ampliar a escuta para ouvir com o coração (emoção) e não só com a cabeça (mente) a riqueza que esse médico nos transmite. Bora mamatracar amanhã, então? Te espero por lá.Este é o décimo terceiro post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.

22 de junho de 2014

Dr. Alberto, o obstetra do Parto Sem Medo

Ele já fez quase cinco mil partos na cidade de São Paulo, presta consultoria para oito hospitais públicos do Programa Mãe Paulistana e ainda pesquisa essa prática  na Escola de Medicina na busca pelo seu doutorado. Dr. Alberto é o obstetra que criou o programa Parto Sem Medo, no bairro paulistano Santana, baseado em modelos de assistência famosos como Leboyer e Odent, os quais priorizam o parto como um evento feminino ao invés de um evento médico. Também foi um dos entrevistados escolhidos para responder a pergunta: Estou grávida, o que devo saber agora?, cujo vídeo-resposta estará disponível amanhã no site Mamatraca.

Ele me contou que sua mudança começou no ano de 2004 quando fazia seu mestrado na Escola Paulista de Medicina e visitava muito a Amparo Maternal para coletar placentas, as quais faziam parte do seu objeto de pesquisa. Naquela época, a Amparo vivia o auge da conquista de realizar oito partos por dia, a maioria com a assistência de enfermeiras obstétricas, com uma carga horária diferente, que permitia reduzir o descompromisso do profissional com a parturiente em função de mudança de turno. Foi a época em que a gestão do centro de parto estava nas mãos de Ruth Osava, que segundo Alberto lhe mostrou o jeito de conduzir partos ao invés de "operá-las" (realizar a prática comum das cesáreas).

Ele diz que antes desse acaso do destino não refletia sobre as intervenções que aprendeu na faculdade e praticava na sua profissão: operar era a prática comum...De lá pra cá, Alberto Jorge Guimarães começou a se tornar o Dr. Alberto e vem conquistando seu lugar na listinha dos top do movimento parto humanizado. Bem humorado, ele conta o quanto essa metamorfose profissional encontra com sua história de vida.

Tem dois filhos - João, de 18 anos, e Beatriz, 15 anos - ambos nascidos de cesárea, mas ele...Ele chegou ao mundo nas mãos de Dona Enedina, a parteira de Maiquinique, interior da Bahia, que ele e todas as crianças da época a chamavam de vó, a Vó Enedina. Da roça, ele tem muito orgulho de falar do pai que faleceu antes dele se formar em medicina, mas há tempo de lhe ensinar muito sobre ética, caráter e religião. Sua mãe não permitiu que ele abandonasse o sonho de médico para cuidar da família de nove irmãos depois que o pai morreu e foi assim que Alberto chegou em São Paulo.

Ouvir aquele menino baiano no corpo de médico contar sua história de vida me fez lembrar do meu avô que cantava a música de Gordurinha: pau que nasce torto não tem jeito morre torno, baiano burro, eu garanto nasce morto na sanfona quando éramos crianças. Não resisti e cantei o refrão ao Dr. Alberto, que não conhecia a música e achou graça. Sai da nossa entrevista cheia de lembranças e reflexões sobre nossa cultura. Pensei na raiz forte que construímos com a terra através da vida dos nossos avós ou bisavos, que viviam na roça. Pensei na mudança que "o sonho da faculdade" trouxe para inúmeras famílias. Pensei na fé, na religião, nas festas, nos rituais. Pensei nas parteiras. Pensei muito na luta das casas de parto. Pensei nas derrotas. Pensei nas faculdades, nas passeatas, nos movimentos e percebi o quanto nossa história vivencia agora um renascer...Um novo jeito de nascer merece um novo jeito de gestar! Ambos são femininos.

Este é o décimo segundo post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.

16 de junho de 2014

Já ouviu falar do "pensamento de barriga"? Entrevista com Ruth Osava

Ruth Osava é doçura. Doutora pela Faculdade de Saúde Publica, Ruth é daquelas pessoas que reúnem tudo de melhor de uma profissão. Ela foi quem me ajudou a conhecer a história da enfermagem no Brasil, depois passou horas me ensinando como funciona a política do sistema de assistência do parto no Brasil e ainda participou dos vídeos que compõem a primeira revista do Projeto Clarear, respondendo a pergunta: estou grávida, o que devo saber agora?

Além de generosa, Ruth é daquelas que apontam caminhos onde todos enxergam só escuridão. Ela também exala conhecimento, história, prática e consciência, reconhece os defeitos da profissão, sabe o porquê eles existem e não desiste nunca. Eu virei fã de Ruth depois que a entrevistei para nossa primeira revista. Vale muito a pena espalhar o discurso que Ruth traz amanhã no Mamatraca. Ele aponta o outro lado da desinformação e é raro ouvirmos esse lado b.

Ruth fala do pensamento de barriga que é diferente do pensar a partir das evidências científicas. Ela aconselha até termos férias na gestação - um absurdo para a mulher moderna de hoje - mas cá na minha caixola, um bem extremamente necessário. Quase explodi de alegria ao ouvir esse discurso porque é raro, corajoso e ousado. Descansar é puro insulto nos dias de hoje para mulheres, inclusive, grávidas. Não tá na moda, não cai bem e a gente não sabe #comofaz

Dormir é desafio pra muita mulherada. Nós estamos acostumadas a falar de insônia, lembra? Eu, pelo menos, me incluo no lado A, cheia de dificuldades pra dormir cedo, dormir muito e descansar a tarde. É bom que se esclareça que Ruth não está negando a necessidade de disseminarmos o conhecimento da fisiologia do parto, mas dizendo apenas que gestar não é estudar a fundo as indicações reais para cesárea ou risco da gravidez.

Pode ter certeza de que vale mais ruminar que alçar voo na época da gestação. Aprendi com as minhas leituras que gestar é gerar...gerar vida, gerar a si mesmo e gerar até conhecimento, não de fora. Mas aquele enraizado que pode te prender no meio do Trabalho de Parto.  O vídeo de Ruth toca nisso, nessa necessidade de virarmos o lado, de tocar neste processo feminino por dentro, de nos sentir com todos vulcões em silêncio, de respirar pra dentro, de dançar a gestação, entender o ritmo desse tempo na fluidez da alegria. É dança, é alegria, é brincar com a vida.

Você vai filosofar, refletir, mas usa essa energia para alto em busca de respostas mais sublimes que contribuam para o reconhecimento de que somos simples condutores e, por isso, conduzir essa vida terceira demanda presença, inteireza e responsabilidade. O resto é pura entrega, pura confiança na vida.

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Este é o décimo primeiro post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.