27 de novembro de 2014

Tá preparado pra fechar ciclo?

Coisa que nunca me ensinaram na vida nem encontrei especialização é o tal do fim. A gente fica achando que ele deve ser encerrado com "os felizes para sempre" sem entender muito o que é eternidade e felicidade...Pelo menos, eu ainda atribuo as crenças comuns de tudo certinho, bonitinho, perfeitinho...ISSO!? Você também sentiu o significado do morto, parado, do fim nos "inhos" que eu coloco dentro dos "felizes para sempre"!?

Mas quem nos garante que a morte é assim pura falta de ação, pura paz, puro fim, o nada? Eita, deu pra sentir o quanto o inverso tá dentro daquilo que significa fim?
Confuso demais. Sorry!

Então, bora relembrar o fato de que nunca me ensinaram nada sobre o fim? Perdoa-me, mas eu não sei sobre o fim. É confuso me preparar para fechar ciclos, fechar portas e matar as coisas - dá uma vontade de não derramar sangue. Mas basta um corte...pro danado do rubro negro aparecer, se mostrar gritando pra ativar sua raiva...Dá ódio, né?

Aprendi com muita mulherada que ódio a gente acalenta pra virar amor porque se a gente só engolir sem digerir, passa mal e faz ele crescer. Então, tô aqui me fervendo com o sangue, que pra minha sorte feminina vem junto com a lua e ajuda a transmutar essa intensidade vermelha que minha cabeça não dá conta de transformá-la. Hahahahaha, quem foi que disse que é fácil ter essa providência divina manifesta no meu corpo que dá conta daquilo que minha mente não dá conta?

Bota confusão, nisso, caro leitor. Perdoa-me, eu menstruo!

Aprendi no livrinho da Monika von Koss a história do meu sangue e quantos significados esse fluxo ganhou no meu corpo, na minha mente e na minha alma. Percorre por mim arco-iris, serpente, conexão pura com a mulherada e um certo acalanto diante do meu despreparo com a responsabilidade de transmitir essa força para duas crianças que se formam dentro de todo esse potencial feminino que é o corpo da mulher. Baita responsa e, sorry, de novo, eu não sei!

Entendeu? Preciso partilhar contigo a agonia de não saber... Reconhecer isso e poder, agora, escrever aquilo que me traz aqui: fechar esta história, a minha, a do blog e de toda rede que trouxe a identidade que ele tem pra cada um que passa por aqui...KKKKKK! Não...Eu não tenho a mínima ideia do que você pensa deste espaço nem sobre mim. Jamais cometi os recortes da pesquisa: sei que ele é um lugar onde desabafo. Só sei isso, mais nada. E o que isso provoca? Dá medo tomar consciência dessa amplitude, mas eu adoro me lambuzar de medo, pintar a cara com ele e dar muita risada...porque, no fundo, é isso: pura alegria!

Morte é, talvez, a pura alegria de ter vivido. Pra rir, talvez, seja necessário passar pela gratidão. Agradecer esses oito anos de não-saberes, de muita confusão, de tamanhas digestões e de uma baita transmutação. Eu ainda acalanto aquela mãe cheia de quereres com a força da punição e do castigo, mas olho pra ela com ternura...E o quanto foi forte reconhecer aquela mãe cheia de fazeres com a força de quem quer mudar o mundo com clique num lugar ingênuo, quase virgem, portanto, vivo...Olho hoje pra ela com uma baita gratidão em busca de amor pra ganhar leveza e me afastar do cansaço.

Eu quero fazer muita coisa pra dar fim neste blog. Quero organizá-lo com os textos mais comentados pra ficar eterno, quero migrar o que me mantém viva pro novo que eu não consegui cuidar e quero, quero, quero, quero, quero, quero, quero, quero, eita, pulguinha chata dos fazeres...Me deixa morrer sem esse furacão da organização!? Liberta-me, entrega-me pro mundo, confia ou mata de uma vez...assim com aquele clique, apenas, uai. Simples, como tudo deveria ser.

É o tiquinho que eu consigo partilhar hoje do que anda rondando dentro de mim no lugar que a blogueira ocupa dentro da minha vida. Queria muito te ouvir, mas sei...eu entendo...conheço bem: o TEMPO, pior ás vezes o tempo - quer dizer, a carência do tempo, vem impregnada de vergonha. Sem problemas, relaxa, ando lendo muito sobre nascimento. Sei bem como é isso!?

1 de setembro de 2014

O que a epigenética tem a ver com Evolução Espontânea?

A primeira vez que ouvi o termo epigenética não consegui relacionar o conceito com aquela série de efeitos citados durante o curso de formação da ANEP Brasil, mas ficou claro que aquela descoberta científica representava uma mudança de paradigma. Que mudança é essa?

Hum, veja bem, ah... acho que a pergunta continua dentro de mim, mas quero partilhar contigo o quanto eu já refleti sobre ela para escrever o primeiro fascículo da série Revista Clarear, lançado no dia 9 de agosto na Casa Angela. Minha primeira percepção sobre epigenética foi de que a teoria da seleção natural, desenvolvida por Darwin era equivocada e que o ironizado Lamarck - conhecido nas escolas pela a teoria das girafas - tinha muito fundamento. Isso porque o ambiente influencia o código genético. E o que isso significava de mudança na minha vida?

Hum, veja bem, ah...Eu não conseguia relacionar as crenças construídas a partir do determinismo genético com meus hábitos de vida. Foi a leitura do "A Biologia da Crença" que levantou essa hipótese, mas ainda assim algo bem distante...Então, resolvi ler o outro best-seller de Bruce Lipton, "A Evolução Espontânea", mas ainda assim continuava tudo muito solto. Resolvi, então, conversar com o profissional que escreveu o prefácio do segundo livro desse biólogo americano: Fábio Gabas.

Fábio me recebeu na Clínica Healthy em pleno sábado de manhã e repetiu a Parte II do livro A Evolução Espontânea que trata de quatro mitos diante da minha pergunta: que mudança, afinal, a epigenética representa em nossas vidas?
1- Só a matéria existe!
2-Só os mais fortes sobrevivem
3-Somos produtos de nossos genes
4-A evolução é aleatória
Ele também participou da lista de profissionais que respondeu à pergunta principal da primeira Revista Clarear: estou grávida, o que devo saber agora? (Veja nesta semana vídeo dele no site Mamatraca) Super animado, Fabio partilhou um pouco da sua experiência clínica e acadêmica para disseminar às gravidas a alegria da vida e essa mudança de paradigma que a gente sente, percebe, mas...hum, veja bem, ah...

É difícil digerir as roupagens que se apresenta para o equivoco de Darwin não só porque ele toca em diversos tabus que temos medo ou vergonha de cavucá-los como pelo desafio da mudança que cabe a cada um de nós. Vale informar que eu sabia desde o inicio da relação da descoberta científica com as doenças. Aliás, escrevi um pouco disso no post da Dra. Ana Responde, lembra?

Minha conversa com Gabas, no entanto, tinha a intenção de entender sobre as mudanças mais sublimares. Nossa conversa rolou no mês de junho, quando caiu a ficha de que eu vivenciei um pouco da teoria da epigenética quando  fiz as sessões de renascimento. Agora lendo "A Arvore do Conhecimento", de outro biólogo mais aceito entre os intelectuais, sinto um certo "dejavu" apesar do desafio de digerir tanta explicação. Maturana é o próximo passo nesta busca para entender as mudanças de paradigma que rolam no mundo da biologia, que tem tudo a ver com aquilo que podemos transformar agora. E, você, já tinha ouvido falar do termo epigenética?

Este é o vigéssimo post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.

4 de agosto de 2014

Como criar filhos no século XXI?

Conheci Maria Tereza Maldonado durante minha busca por profissionais brasileiros especializados em psiquismo fetal  para apuração da Revista Número 1, do Projeto Clarear, e quando encontrei seu site, fiquei impressionada com a minha ignorância: como eu nunca li nada dessa mulher antes? Ela é psicóloga, brasileira e já escreveu mais de 35 LIVROS!!! Todos relacionados a família.

Minha conversa por telefone com Maria Tereza ficou muito focada nos vínculos da gestação, ela reforçou a importância de gestantes cantarem para seus filhos, cuidarem dos seus próprios sentimentos, se nutrirem de forma adequada - mesmo que seja mãe de aluguel. Vínculo é necessário sempre em barrigas, cujos filhos serão doados para outra família e em creches ou espaços que aguardam processo de adoção. É importante se conectar pra desconectar!  A participação de Maria Tereza na revista não terminou com esta conversa...Ela é uma das articulistas da Revista Número 1.

Eu a convidei para escrever um artigo que tornou-se necessário após eu perceber que havia um consenso entre os entrevistados: Gravidez não é doença! Muita gente afirmava isso pra reforçar a ideia de que a mulher pode manter tudo na sua vida como era antes, inclusive o ritmo enlouquecedor de trabalho ou atividades físicas muito radicais. Vale a pena ler Maria Tereza Maldonado na nossa revista, que será lançada neste sábado na Casa Angela, na cidade de São Paulo. A revista será vendida por profissionais independentes, os quais em breve estarão listados no nosso site.

Mas o que isso tem a ver com a criação de filhos no século XXI?
Maria Tereza é a autora do livro "Os Primeiros Anos de Vida - Pais e Educadores no Século XXI" que será lançado aqui, em São Paulo, no dia 25 de agosto, na Livraria Martins Fontes. Li o livro e aprendi muito. Maria Tereza nos ajuda a nos colocarmos no lugar da criança e entender melhor o choro, as crises e a revolta dos bebês. Sua principal lição, no entanto, está na reflexão do futuro que queremos criar para nossos filhos.

O livro de Maria Tereza foi o que acendeu em mim o olhar para resiliência: precisamos preparar nossos filhos para o mundo que se aponta com desafios climáticos, mudanças de paradigmas, total imprevisibilidade, instabilidade econômica. Foi a leitura do "Os Primeiros Anos de Vida.." que contribuiu também para eu dar consequências aos meus erros.

Quando eu fui mãe de primeira viagem eu sofria pelo desejo de querer acertar. O tempo de convivência com Malu, no entanto, me ensinou o quanto os erros faziam parte da caminhada e, então, aprendi a aceitá-los. Mas, agora, sinto que completei o ciclo de aprendizado e entendi que os erros maternos não podem ser apenas aceitos, mas reconhecidos para que haja aprendizado recíproco. Obrigada, Maria Tereza!

Ela também deixa claro o quanto a educação de casa é intransferível e isso não significa que Maria Tereza sinaliza a casa como o único espaço de educação. Pelo contrário. Ela fala justamente da parceria entre escola e família, ensina o quanto essa relação precisa ser cultivada com COOPERAÇÃO - aliás, palavrinha chave para século XXI, segundo a autora. É um acalanto ler Maria Tereza porque ela mostra o quanto o caminho da cooperação é possível entre a família e a escola desde que deixamos as armas do século passado pra trás. É hora de desfazermos as guerras! Desapegar da guerra com a escola, da guerra com cocô, da guerra com sono, com desmame e com a comida.

Quanto mais você vai se lendo na proposta da Maria Tereza, você percebe o quanto a nossa educação foi impregnada de violência. O jeito que fomos educados termina sempre em guerra ou ameaça. Quem já frequentou berçário ou tem filho na escola sabe o desafio que é criar a cultura da cooperação, nossa tendência é culpabilizar a escola, o filho do outro, o pai do outro, por tudo. É difícil aceitar e digerir a mordida do coleguinha no seu filho e ter uma atitude cooperativa pra encontrar a solução. Muitas vezes, nossa atitude é de exclusão, intolerância total ao outro. E Maria Tereza fala da possibilidade de criar paz nas nossas relações através de parcerias entre instituições e famílias. Você topa criar esse mundo agora?

Este é o décimo nono post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.

21 de julho de 2014

Gestar não é parir! Venha conhecer o tempo do gestar!

Toda entrevista da Revista Clarear gera vídeo no Mamatraca.
Ana Figueiredo é uma daquelas surpresas que surgem na hora exata. Ela é estudiosa de ritos e mitos e eu a conheci no Ciranda de Filmes quando perguntava à Ana Thomaz: o que uma grávida deve saber enquanto gesta? Assim eu entre Anas encontrei alguém que poderia trazer luz à minha angustia sobre o tempo de gestar...Que tempo é esse? Eu já escrevi um pouco sobre a Regra Naegele aqui, achei alguma coisa de Peller - o homem que inventou o pós-termo, mas nada que dê conta de virar post ainda...Foi com Ana Figueiredo que encontrei o caminho para trazer conteúdo na Revista Número 1 do Projeto Clarear.

Gestamos no tempo dos homens!
É a tabelinha, a calculadora, é o mundo do começo, meio e fim...Humm, percebeu o quanto a gente gesta do jeito que a gente leva a vida?! Então, gestar é uma oportunidade pra encontrar outro jeito de viver porque lhe dá a chance de deslinear, descalcular, destabelar, desplanilhar...O tempo cíclico não prioriza controles e garantias. Ele é fluído, vai e volta, portanto, exige flexibilidade, intuição, dança. É mais ritmo que rotina, entende a diferença?

Ouça e veja Ana Figueiredo amanhã no Mamatraca que você vai sentir a diferença. Foi ela quem acendeu em mim a principal conclusão que aprendi com a gestação da Revista Estou grávida, o que devo saber agora? Ela me ensinou que gestar não é parir! Opa! Você já calculou quanto tempo da sua gestação investe no parir? E mais: Ana me ensinou que o tempo do gestar é feminino. Tão óbvio e, por isso mesmo, tão despercebido. Precisamos aprender a gestar o tempo feminino. A conversa com Ana Figueiredo me ajudou a reconhecer que o tempo feminino nos ensina a conviver com a dor e o sangue. Veja o vídeo!

Conversamos muito também sobre as razões das mulheres sentirem tanto medo e tanta angústia durante a gestação ou na hora do parto. Você já parou pra pensar o que fizeram com os rios da nossa cidade? Como eles estão agora? Toda vez que passa por uma marginal ou ruas com nome de rio você ainda se lembra que ali embaixo tem um rio encanado, extremamente sufocado, sem ar, quase morto ou totalmente morto? O que isso tem a ver com sua gestação? Sangue, rio, circulação, fluxo feminino, natureza, lua, dança. Precisa repetir o que todo mundo denuncia?

Você ainda duvida da ligação do tempo feminino com a natureza? Ainda nega sua relação com a Terra? Bem-vinda ao clube das mulheres-modernas que batizam sua menstruação de "chico". Somos desconectadas e reconhecer isso é uma escolha. A Revista Clarear convida as mulheres que desejam fazer essa escolha durante a gestação a um diálogo consigo mesma. Adquire agora a sua revista na nossa loja virtual e receba a em casa a partir do mês de agosto.

Este é o décimo sétimo post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.



16 de julho de 2014

Quanto tempo dura uma gestação?

Nove meses!? Hum, talvez, você ainda não passou pela consulta médica para calcular a invenção do obstetra alemão Franz Naegele, que desde 1810 criou uma regra para calcular o tempo da gestação a partir do primeiro dia da última menstruação da mulher, conhecida como DUM. Sim, os médicos utilizam esse método do século passado para calcular as semanas da gestação, o qual a OMS - Organização Mundial de Saúde - passou a recomendar desde 1995. O Ministério da Saúde informa que as brasileiras podem esperar até 42 semanas, mas a prática entre a maioria dos obstetras é de 38 semanas. No meio do caminho, há um consenso que até os obstetras mais afoitos aceitam: 40 semanas!

É importante perceber que o cálculo da gestação é feito pelo ciclo menstrual da mulher-padrão, de 28 dias. O que faz a maioria das minhas amigas (e eu) que não segue o ciclo de 28 dias? São as chamadas irregulares, que também vão engolir a regra de Naegele, além de contar com a probabilidade do ultrassom, cujo cálculo só é válido como estimativa até as 18 semanas. Depois disso, as longitudes criadas por Campbell, Levi & Erbsman podem não acertar a data provável do seu parto.

É bom lembrar: estamos falando de estatísticas, cálculos e probabilidades. Nenhuma certeza! A DPP é uma data provável, não é a data do nascimento do seu filho. Portanto, permita-se vivenciar o tempo da gestação. Há muitas incertezas nos cálculos utilizados pelos profissionais de saúde, as quais são benéficas, inclusive, para o seu aprendizado de tornar-se mãe ou pai. Aprenda a aceitar, receber e legitimar os imprevistos. As certezas não vão te ajudar muito daqui pra frente.

Esse é um dos temas tratados na primeira revista do Clarear sob a perspectiva da Educação Pré-Natal. Ou seja, não explicamos meses, semanas ou os dias da gestação conforme a visão da Saúde Materna. Falamos de outro tempo do gestar...

O motivo principal para investigar esta pauta foi pela ansiedade que vivi nas minhas duas gestações - tive uma terceira gestação que terminou em aborto, a qual não tive tempo pra pensar no tempo. Na primeira, eu cai no conto do obstetra das 38 semanas. É verdade que o bebê já está formado neste período, mas por quê será que a natureza pede mais tempo? Será só uma questão de engorda? Acha mesmo que a gestação é exclusivamente física?

Vale refletir com coração essas perguntas, pois as respostas são pessoais e apontam para diversos caminhos filosóficos. Ouvi de muita gente que o tempo das 42 semanas precisa ser considerado sob ótica do bebê, que ás vezes pode estar a espera da configuração ideal para nascer - signo solar ou mudança de lua. Soa supersticioso, mas não dá pra ignorar o conhecimento e a sabedoria da astrologia. Um outro caminho é investigar sua própria gestação.

Na minha segunda gravidez, eu fui pega pelo diagnóstico do ultrassom quando completava as 40 semanas e vivenciei a "espera infinita", o que me fez perceber a importância de tratar do TEMPO DA GESTAÇÃO. Aprendi que a ansiedade vem junto com nosso jeito de gestar. Nossa cultura ignora o gestar em si e utiliza todo esse tempo de olho no parto.

Vivemos a busca do fim na gestação, por isso, esperamos! Devíamos apenas gestar, preparar, transformar, vivenciar o ciclo e não controlá-lo. É desse ciclo que tratamos na nossa primeira revista, que olha o tempo a partir da educação entre mãe e filho. Vale antecipar que é um tempo cíclico. Diferente da calculadora linear das semanas! Veja mais detalhes na entrevista feita com Ana Figueiredo na próxima semana e não esqueça de encomendar a sua revista hoje!

Este é o décimo sexto post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.




14 de julho de 2014

Quem são as grávidas do Hospital Albert Einstein?

Um bom exemplo pra entender a diferença entre sistema privado e o sistema público da saúde é a área de comunicação. A eficiência do Albert Einstein começa com o atendimento da assessoria de imprensa, que é bem diferente de outros hospitais privados, pois não tem a política de restrição ou low profile - como se caracteriza as megamegamegaempresas da vida - nem a demora e o descaso da assessoria da Prefeitura de São Paulo. São nessas interfaces que a gente vai lendo a cultura da Saúde do Brasil. 

Outro lugar que permite a leitura da nossa cultura da Saúde do Brasil é a recepção dos hospitais ou UBSs. Minha experiência no Albert Einstein começou pelo estacionamento, que utiliza todos os recursos de TI para monitorar os carros. É tanta tecnologia que nos assusta e, pasmem, cria demora. Aquele exagero todo não elimina filas nem estresse. O desfile de carros já era esperado assim como o alto estilo de se vestir, mas o que me chamou a atenção foi os bebês-conforto.

Todos recém-nascidos lá dentro daquele troço horrível, as mães sentadas ao lado de um segurança - ás vezes, acompanhada do marido, avó ou babá. Ninguém no colo. Pouco contato. Muitos dedinhos e olhares dedicados aos smartphones de última geração. É. Eu tive raiva. Tive vontade de colocá-los no colo de cada mãe. Mas a raiva passou logo que ouvi das minhas entrevistadas de que aquele troço é regra do hospital para garantir a segurança de um bebê. Ah?!
E ninguém nunca pensou no sling com a mãe sentada na cadeira de roda já que um dos riscos era a mãe tropeçar e cair no chão com bebê.

Eu sai do hospital privado com a minha filha no colo, grudada e amarrada em mim...Parece que tem até lei que exige o troço do carro pra saída da maternidade - mais uma que o pacote da segurança traz pra quebrar vínculos essenciais da vida materna. E, aí, vai continuar investindo nessa segurança para o futuro da humanidade? SIM, é você quem escolhe!

Toda entrevista da Revista Clarear gera vídeo no Mamatraca.
Mas o que aprendi mesmo sobre cultura da saúde ao entrevistar as enfermeiras obstétricas Aldenira Ballego e Alessandra dos Santos Mabushi, do Albert Einstein, foi descobrir uma nova grávida. Eu não sabia que a maioria das gestantes que vão parir seus filhos no hospital mais famoso do Brasil tem acima de 35 anos.

São mulheres mais velhas. Bem-sucedidas - é diferente de só rica porque significa que investiram muito, e deram certo, em suas carreiras. E com um detalhe importante: muita inseminação artificial. 


"É raro atender grávidas adolescentes", diz Alessandra que já conheceu a realidade do SUS e via meninas de 12 a 18 anos desfilarem suas barrigas felizes porque agora seriam mais respeitadas na comunidade. Eu fiquei pensando muito nesses extremos porque eles trazem a mensagem de status que a gestação/parto/maternidade ganhou conforme nossa capacidade financeira. O dinheiro dita nosso jeito de gestar, parir....e fazer escolhas? 

Muitas vezes, sim. Mas, de novo, quem escolhe é a gente. E, aí, você vai continuar deixando a sua classe financeira ditar o que vai acontecer no nascimento do seu filho?
A maioria das grávidas do Albert Einstein, segundo a dupla entrevistada, tem um sentimento comum: medo e insegurança. Motivo?

Fiquei com a sensação que o motivo de tanta insegurança é pelas trajetórias de vida dessas mulheres como se elas próprias se condenassem pelo fato da gestação tardia ou da decisão pela fertilização. Me lembrou muito aquela sensação comum de que elas também vivenciaram a culpa do preconceito. Compraram a ideia da opressão. Aldenira explica que a insegurança surge em função da alta expectativa: "muitas mães chegam aqui depois de uma terceira tentativa de fertilização. É um processo cansativo, doloroso, cheio de medos e que resultam em Trabalhos de Partos prematuros".

Se alguma delas podem parir devido à inseminação? Lógico que podem, mas a maioria não acredita, respondem as enfermeiras. "Natural", penso eu. São mulheres consideradas velhas - de alto risco - para medicina. Eu já fui uma grávida de alto risco - ou seja, considerada velha. É diferente! Você será tratada como tal e se nunca tiver gestado antes jamais perceberá o detalhe do risco da idade.

Nessa hora eu agradeci pelo privilégio de pertencer a classe média metida e arrogante da qual faço parte porque só quem tá no meio desses extremos pode perceber a doença, que se perpetua na cultura da saúde e ainda assim o desconhecimento nos cega. Pensei também: "pelo menos, nós, a classe média cega e alienada, precisa escolher o menos ruim, a doença que menos te afeta".  Ou trilha-se as alternativas porque elas existem, e algumas podem demandar luta, mas não todas!


Eu insisti muito com Aldenira e Alessandra sobre questões profissionais durante nossa conversa. Queria entender se elas se viam como profissionais responsáveis pela assistência ao parto das clientes do Albert Einstein ou se a formação delas não permitiam a prática de receber esses bebês. Aldenira respondeu que seu papel era ser a ponte entre o médico e a gestante, enquanto Alessandra esclareceu que ela não estudou pra fazer parto. Ela até já fez parto quando atuava como enfermeira no SUS, mas isso é raro na prática profissional. Enfermeira obstétrica que deseja atuar como tal precisa buscar alternativas. Ou seja, casas de parto. É bom destacar que, na cidade de São Paulo, só tem duas delas: Sapopemba e Casa Angela - além da Amparo Maternal que já foi considerada como tal. As duas com desafios e falta de apoio político.

Aldenira e Alessandra me ensinaram muito. Foram elas que me mostraram essa nova grávida - insegura e cheia de medo - que sofre com expectativa de dar tudo certo depois da inseminação.Foram elas que me mostraram o profissionalismo do cuidado da enfermagem e do carinho que elas prezam por essas gestantes.

E mais: Aldenira e Alessandra deram vida no meu olhar sobre a cultura médica. Eu já sabia que 89% das gestantes se informam com profissionais de saúde, sendo que a fonte para  77% desse total é o obstetra. Também já tinha vivenciado a força dessa influência na minha vida de gestante de primeira e segunda viagem, mas ouvir a força dessa hierarquia profissional de mulheres formadas na Saúde te dá uma dimensão maior do desafio de reconhecermos o poder de influencia do obstetra como abusivo. .

Por isso, amanhã, no Mamatraca, quando Aldenira e Alessandra respondem a pergunta da nossa Revista Número 1 no formato de vídeo, eu resolvi convidar você para uma enquete: qual é sua fonte de confiança na hora do parto?

Este é o décimo quinto post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.

30 de junho de 2014

Ricardo Ghelman: Os Cinco Sentidos na Gestação

Toda entrevista da Revista Clarear gera vídeo no Mamatraca
Tato, Paladar, Olfato, Audição e Visão. Lembra deles? Hoje já se aceita os doze sentidos, mas quero reforçar aqueles que aprendemos no jardim da infância para tentar lhe transmitir o pouco que consegui captar sobre os sentidos do bebê na gestação.

Porque se fala disso? Porque se estuda tanto as chamadas percepções sensoriais na barriga da gestante?
Foi a partir dessa pergunta que comecei a minha busca por um profissional que pudesse falar do desenvolvimento dos sentidos bebê. Foi só bem depois do meio do caminho que encontrei o médico Ricardo Ghelman, embriologista, pediatra, médico de família, PHD em obstetrícia experimental na UNIFESP e coordenador do Núcleo de Medicina Antroposófica na UNIFESP.

Dr. Ricardo me recebeu no seu consultório no mês de abril ao lado do seu cachorro, que descansava tranquilamente enquanto conversávamos. É impressionante o quanto a embriologia amplia nossa visão de mundo e nos traz uma percepção mais profunda da evolução humana. Ouvindo o discurso de Dr. Ricardo - que explicava como se desenvolve o tato, seguido da audição, paladar, olfato e, por último, a visão - comecei a conectar meus pensamentos e lembrar de tantas palestras que relacionam quem somos agora com a evolução dos animais, das plantas, dos planetas e dos universos.

Questiono qual a opinião dele pelo fato da maioria das pessoas não ter consciência de que quem somos agora não será o humano de amanhã? Pra ele, a pergunta não faz sentido. É tão natural conviver com a evolução humana, com o desenvolvimento dos sentidos que o meu olhar e a minha vivência de descoberta passam despercebidos pela vivência tão rica do Dr. Ricardo. E, você: qual é seu olhar sobre evolução humana?

Ele conta que a decisão pela embriologia veio durante um insight num vagão de trem durante uma viagem ao exterior com mochilão nas costas. As imagens - que muitas vezes nos impressionam - da formação do embrião virando feto surgiram na sua mente como acontece quando a gente medita ou permite ouvir nosso interior e assim Ricardo encontrou sua vocação. Lindo, né?

Mas o que captar desse sentimento forte que invadiu meu corpo enquanto ouvia o discurso de Dr. Ricardo? Qual é a mensagem que sou capaz de transmitir diante de tanto reconhecimento às grávidas? Não tem resposta fácil...Aprendi que trata-se de conhecimento vivido, coisa que se expressa além das palavras, coisa de sentidos, de pura emoção. É outra linguagem.

Mas eu precisava encontrar o velho caminho...Então, conclui que antes de escrever o resumo da minha conversa com Dr. Ricardo para você, eu preciso lhe avisar  que tudo que eu disser sobre isso será ineficiente, pois a mensagem principal do desenvolvimento dos sentidos na gestação, pra mim, é entrar em contato com eles. É vivido!

Mas voltando à pergunta que me levou até ao Dr. Ricardo: Porque se fala disso? Porque se estuda tanto as chamadas percepções sensoriais na barriga da gestante?
Eu já respondi aqui um pouco dessa pergunta quando contei sobre a teoria freudiana, que considerava o feto vegetativo, sem inteligência. Essa visão foi o que estimulou muitos pesquisadores a investigarem se o feto tinha percepções sensoriais, pois elas são as portas do aprendizado humano. Ou seja, se o feto sente o sabor, o cheiro, ouve e ainda percebe a luz e escuridão dentro da barriga, ele está aprendendo, portanto, desenvolve sim uma inteligência. Não se trata da inteligência contida na linguagem escrita ou falada, mas daquela ainda mais sutil que é repetida por todos em nossa volta: "a primeira impressão é a que fica".

Mas o que aprendi com Dr. Ricardo - além de confirmar os sentidos do feto - foi perceber que eles nascem inteiros no nosso corpo e só depois vão se desenvolvendo nos seus órgãos específicos como pele, ouvido, boca e olhos. Isso nos ajuda a compreender o segredo de Thomas Verny e amplia nossa visão de educadora porque exige de nós uma postura diferente daquela que estamos acostumados quando se trata de educar um filho. Essa é a essência da nossa Revista Número 1, cuja campanha de pré-vendas vai até o dia 25 de julho pelo preço de 22 reais.

Vale a pena ver o vídeo desta semana no Mamatraca em que Dr. Ricardo revela o sentido mais predominante na gestação e, portanto, o sentido onde há mais possibilidades de interação entre mãe e bebê. Detalhe: é preciso ampliar a escuta para ouvir com o coração (emoção) e não só com a cabeça (mente) a riqueza que esse médico nos transmite. Bora mamatracar amanhã, então? Te espero por lá.Este é o décimo terceiro post escrito para o projeto Clarear financiado por 153 benfeitores no modelo crowdfunding pelo site da Benfeitoria.