Tive apenas 15 minutos de entrevista com Esther Vilella, que defende um novo modelo de atenção ao parto no Brasil (Vale ressaltar que a sensação é de que ela é uma defensora do Parto Humanizado!), e minha impressão foi de que nós, usuários do sistema da Saúde Suplementar, estamos ÓRFÃOS de governo. Não há nenhuma ação prática do Ministério da Saúde para intervir nos serviços obstetrícios das instituições privadas. Aquela velha campanha de 2004- que não deu em nada - ainda é a ação citada pelo Ministério da Saúde em parceria com a ANS. A razão do descaso é a mesma justificada pela Martha Oliveira, que também nos concedeu uma entrevista aqui: participação popular. Ou melhor, cidadania!
Soa simplista demais, dá raiva, mas não podemos continuar fingindo que esse discurso não tem um certo sentido. Somos invisíveis para quem decide nossas vidas! Elas até sabem que nós existimos, reconhecem nossas dores das cesáreas desnecessárias em função das dezenas de pesquisas científicas, mas não temos vozes, rostos ou números. É por isso que quando resolvemos levantar o mouse nenhum deles nos ouvem. Talvez não reconhecem nosso ruído. Afinal, não estão acostumados com a nossa presença. Acredite: somos completamente invisíveis!
Pra você ter uma ideia dessa invisibilidade, questione-se sobre o que você considera importante fazer para mudar o cenário vergonhoso da alta taxa de cesáreas no Brasil? Ou pense de forma mais ampla e responda-me: onde você quer agir como cidadão nas questões do parto normal? É raro, muito raro, é raríssimo encontrar uma ativista que esteja disposta a olhar para seu umbigo. A maioria quer resolver os desafios dos usuários do SUS porque eles sim são desprovidos dos "privilégios" que "temos". Não é por acaso que as ações do Ministério da Saúde estão exclusivamente concentradas no pacote Rede Cegonha.
Cheguei a pensar que a exclusividade no discurso focado na Rede Cegonha seria apenas para o Banco Mundial ou a OMS verem que o governo está fazendo sua parte para atingir as metas do milênio... Ou seja, marketing político total! Mas não podemos negar que quem usa o SUS tem voz, participa de conferências, bate na porta dos políticos. Vale lembrar também que a maioria dos ativistas é profissionais de saúde e se tornaram militantes na vida profissional. Além, da elite dos pesquisadores que também se sustenta do sistema público de saúde. Ou seja, quem tem voz fala pelo SUS. Talvez, por isso, o coro das prioridades e um descaso constante com as distorções da indústria.
A boa notícia é que Esther revela que no pacote da Rede Cegonha há a intenção de agir na formação dos médicos, mas isso é coisa que afeta outro ministério: o MEC. É um avanço, sem dúvida nenhuma, porque pela primeira vez alguém diz que vai debater o currículo que forma profissionais intervencionistas. São discursos como esse que traz ESPERANÇA para pessoas invisíveis como eu porque começa a fazer sentido o acrônimo Sistema Único de Saúde, pois inclui também os usuários de planos de saúde. Mas VITÓRIA mesmo só vamos ter quando deixarmos de ser invisíveis. E, pra isso, vamos ter de aprender a falar a língua dos homens... Tenho a sensação de que essa língua é feita de números, protocolos, atas, ofícios...os quais podem ser obtidos através de denúncias. E, você, já tem o protocolo da ANS da sua denúncia sobre a cesárea desnecessária?
PS: Vale bisbilhotar onde foram aplicados os 29,7 milhões da Rede Cegonha no estado de São Paulo! Apesar do discurso que relaciona Rede Cegonha com Parto Humanizado, na prática a grana continua indo para pacientes de alto risco. É nessa hora que o governo deveria fazer parcerias com hospitais privados especializados em alto risco e investir nosso dinheiro na formação dos profissionais...Mas isso, segundo eles, é muito complexo.
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